Os enviados de André Ventura - Eduardo Teixeira, deputado à Assembleia da República, e Pedro Miguel Pinto, coordenador autárquico - deslocaram-se à Madeira para tentar desbloquear o impasse autárquico do Chega. Dessas conversas saiu, para já, um efeito imediato: a vice-presidente e um vereador da Câmara de São Vicente apresentaram renúncia ao mandato, embora ainda seja prematuro perceber que desfecho terá a crise no concelho.
Há cerca de dois meses que a autarquia - no litoral norte da Madeira, com 5950 eleitores, marcada pela emigração e com uma paisagem que corresponde ao imaginário de postal - tem sido conduzida apenas pelo presidente, José Carlos Gonçalves. Depois de desentendimentos internos, o autarca retirou os pelouros aos vereadores eleitos, tal como ele, pelo Chega.
Com a saída da vice-presidente Helena Freitas e do vereador Fábio Costa, a composição do executivo altera-se. Os dois lugares passarão a ser ocupados por Cátia Capontes, sobrinha do presidente, e por Norberto Silva, os nomes seguintes na lista do Chega em São Vicente. Após as renúncias, o presidente - que tem gerido o município sozinho - sustenta que o ambiente político se transformou, mas afirmou ao “Diário de Notícias da Madeira” que ainda é cedo para antecipar como será o futuro.
Crise no executivo do Chega na Câmara de São Vicente
Em março, quando a rutura se consumou, José Carlos Gonçalves deixou definida a linha de atuação: governaria por sua conta, apoiado nos funcionários municipais. Se esse modelo se mantém até ao final do mandato e se evita eleições intercalares continua por esclarecer.
Do lado da oposição, o PSD - com dois vereadores - não pretende que o concelho mergulhe numa crise política. “É importante que o presidente consiga governar e mostrar aquilo de que é capaz; é importante que a população perceba o que é o Chega e qual é o resultado do voto de protesto”, afirma António Gonçalves, cabeça de lista social-democrata.
O presidente optou por não comentar a governação em São Vicente. Alega que, durante as autárquicas, nem o Expresso nem a SIC (por causa do programa “Isto É Gozar com Quem Trabalha”) terão sido corretos consigo. “E eu não sou de guardar rancores”, disse.
Tour Norte e o impasse em torno das grutas de São Vicente
O confronto no executivo foi público e desagradável, mas o ponto de não retorno surgiu com a insistência do presidente em reativar a empresa municipal Tour Norte, apesar de vários pareceres e contra a posição dos vereadores da sua própria equipa. A empresa, responsável pela gestão das grutas de São Vicente, encontra-se insolvente e tinha sido encerrada por decisão do anterior executivo (PSD).
Os 20 trabalhadores foram integrados nos quadros da Câmara. Ainda assim, José Carlos Gonçalves defende que a Tour Norte deve reabrir e argumenta que só dessa forma as grutas - encerradas por motivos de segurança e a aguardar obras - poderão voltar a funcionar como atração turística.
André Ventura mandou dois emissários para tentar resolver problemas na Madeira
Perante a resistência dentro do próprio executivo, o presidente concentrou em si todos os pelouros. Já os vereadores afastados acusavam-no de tornar o processo menos transparente e de pretender nomear um administrador para a empresa municipal.
Em reação, o autarca contratou três chefes de divisão e acusou a vice-presidente Helena Freitas de peculato por se ter deslocado a um funeral, no Machico, utilizando carro e motorista da Câmara.
Peculato no funeral
Foi neste enquadramento que André Ventura enviou a delegação à Madeira, com o objetivo de travar a escalada do conflito. No entanto, Carlos Góis, deputado municipal do PS, lê o caso de outra forma: “O presidente tem dificuldade em trabalhar em equipa”. Acrescenta ainda que o autarca não se irá demitir enquanto tiver condições legais para se manter no cargo e enquanto existirem verbas provenientes dos contratos-programa com o governo regional.
No PS de São Vicente - partido no qual José Carlos Gonçalves já foi militante - entende-se que, neste momento, o presidente eleito pelo CHEGA está politicamente mais próximo do PSD. Neste contexto, as fotografias do encontro com Miguel Albuquerque, na Quinta Vigia, divulgadas nas redes sociais do governo regional, são vistas como não inocentes. Até porque o presidente da primeira câmara eleita do CHEGA sempre descreveu a candidatura como um casamento de conveniência.
A turbulência interna no CHEGA, segundo a narrativa local, terá começado ainda na campanha. Elementos da lista de José Carlos Gonçalves queixaram-se de que o cabeça de lista decidia sem os ouvir; chegaram mesmo a existir reclamações junto do coordenador autárquico nacional e uma intervenção de André Ventura, que terá reduzido a tensão.
Quando a rutura aconteceu, o gabinete da presidência já reunia várias pessoas - quase todas militantes do PSD - incluindo um ex-presidente de junta de freguesia.
A disputa eleitoral mais intensa desenrolou-se nas três freguesias do concelho, de mar agreste, escarpas e localidades pitorescas. António Gonçalves, economista e ex-vice-presidente da JSD, perdeu a Câmara para o CHEGA em outubro. Foi convidado e depois desconvidado, chegou a anunciar uma candidatura independente e acabou por avançar como candidato. “Todos os elementos do PSD se sentem responsáveis por aquilo que aconteceu. Eu tenho a minha quota parte”.
A divisão interna agravou o contexto político para os sociais-democratas e deteriorou-se ainda mais quando uma página anónima do Facebook, chamada “Diário de São Vicente”, o acusou de violência doméstica. O caso originou um processo no Ministério Público, mas o vereador garante que isso não condicionará a linha política do partido: “O PSD vai sempre votar a favor das propostas em prol da população, nós somos uma oposição responsável, fizemos isso já em relação ao aumento das bolsas de estudo. Não vai ser por nós que o presidente vai ter instabilidade para governar. A instabilidade foi criada pelo presidente e pela própria equipa.”
Por agora, a Câmara de São Vicente continua a beneficiar das verbas dos contratos-programa e, mesmo que não consiga aprovar mais nenhum orçamento - o de 2026 foi aprovado - a gestão municipal poderá prosseguir, nos próximos anos, em duodécimos.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário