A CALB, grupo chinês responsável por um dos maiores projetos de investimento previstos para a região de Sines, prepara-se para dar início à construção da sua fábrica de baterias, um empreendimento avaliado em €2 mil milhões. Depois de meses de indefinição, a empresa terá voltado a contactar a Mota-Engil para perceber em que prazo conseguiria mobilizar equipas e meios para arrancar com a obra - e o começo poderá estar a “semanas”, segundo informação recolhida pelo Expresso.
Calendário e arranque da fábrica de baterias da CALB em Sines
Um dos indícios de que o projeto está prestes a avançar surgiu em abril, quando a CALB reforçou em €48 milhões a CALB Europe, a subsidiária em Portugal. A empresa portuguesa tinha sido criada no final de 2022, com sede em Lisboa e capital social de €200 mil, e este aumento de capital deverá permitir financiar os primeiros passos operacionais da unidade industrial em Sines.
A construção está desenhada para ocorrer em três etapas, uma opção que visa acelerar o início da produção em Portugal sem depender da conclusão integral da fábrica. A empreitada deverá ser entregue à Mota-Engil, embora, até ao momento, não exista contrato assinado; ainda assim, a construtora terá recebido recentemente a indicação de que a CALB pretende começar os trabalhos num horizonte muito curto.
Fábrica de baterias da CALB criará 1800 empregos diretos em Sines e deve começar a produzir em 2028
De acordo com as informações apuradas, a CALB terá contratado a ShineWing, também chinesa, para coordenar a execução do projeto em Sines. O plano envolve a Mota-Engil enquanto construtora principal, mas com recurso a outros fornecedores portugueses - por exemplo, a Purever, que já forneceu equipamentos para fábricas de baterias noutros mercados. Em outubro do ano passado, a própria CALB já reconhecia que “estabelecer relações com as autoridades e empresas portuguesas é crucial”.
Os trabalhos de desmatamento do terreno na zona industrial e logística de Sines ficaram concluídos no primeiro trimestre deste ano. Nesta fase, estão a ser feitas infraestruturas até aos limites do lote contratado pela empresa chinesa, antes de avançar a construção dos edifícios. Do total de €2 mil milhões previstos, cerca de metade dos custos destina-se à construção e a outra metade à aquisição de equipamentos.
A meta é que a primeira etapa fique concluída em 2028. A urgência é reforçada por compromissos comerciais que a CALB terá assumido para fornecer fabricantes automóveis como a Mercedes e a Volkswagen, pelo que a empresa procura evitar atrasos na sua primeira fábrica europeia.
Baterias para 187 mil carros por ano
Após ter recebido, em março de 2024, uma declaração de impacte ambiental (DIA) favorável da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a CALB confirmou em fevereiro de 2025 que pretende avançar com o projeto. Na fase inicial, a unidade ocupará 45 hectares na zona norte de Sines e deverá produzir baterias em volume suficiente para equipar 187 mil veículos elétricos por ano. Para além da DIA favorável, a empresa já obteve também o licenciamento industrial necessário para iniciar a execução no terreno.
O projeto admite crescer para mais 45 hectares, totalizando 90 hectares. Existe ainda uma versão mais ambiciosa que prevê uma expansão adicional de 60 hectares, embora esses terrenos não estejam, para já, garantidos. Nesse cenário maximalista, o investimento total em Sines poderia atingir €3,6 mil milhões.
Por enquanto, o compromisso formalizado pela empresa chinesa mantém-se nos €2 mil milhões acordados com a AICEP - Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, numa configuração que aponta para 1800 empregos diretos e para uma faturação anual de €1,6 mil milhões.
Mota-Engil deverá construir a primeira fase da fábrica, que já assegurou um total de 90 hectares
Equipa em Lisboa, fornecimento à indústria e armazenamento na rede elétrica
A CALB quer posicionar Sines como plataforma industrial para abastecer a indústria automóvel europeia e conta com uma equipa comercial a operar em Lisboa. A CALB Europe foi constituída na capital em dezembro de 2022.
Em paralelo, a empresa tem vindo a trabalhar o segmento de baterias para armazenamento na rede elétrica. Em Portugal, já garantiu fornecimentos para vários projetos fotovoltaicos de grande escala, incluindo uma central solar da Greenvolt em Águeda, cuja componente de armazenamento está a ser financiada em 20% pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no âmbito de um aviso do Fundo Ambiental.
O Expresso procurou obter mais detalhes junto da CALB sobre o projeto em Sines, mas não recebeu resposta. A Mota-Engil também optou por não comentar o eventual envolvimento na fábrica de baterias.
Investimentos em Sines
O concelho de Sines tem atraído forte interesse para investimentos de grande dimensão em várias áreas, com uma carteira de projetos para a próxima década estimada em €20 mil milhões. Para além da CALB, destacam-se iniciativas da Galp (hidrogénio verde e biocombustíveis), da Stegra (produção de aço verde), da Repsol (expansão do complexo petroquímico) e da Start Campus (centro de dados), entre outras.
“Um dos maiores desafios desta região prende-se com uma brutal falta de habitação. Vários estudos apontam para que, até ao final da década, estes investimentos em Sines possam vir a criar mais de 7 mil postos de trabalho diretos. Isto numa cidade onde vivem 13 mil habitantes, além das cerca de 6000 pessoas que todos os dias chegam para trabalhar”, referia em fevereiro ao Expresso o presidente da Câmara Municipal de Sines, Álvaro Beijinha.
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