"Rumori notturni" tem somado distinções e, esta sexta-feira, é mostrado numa sessão reservada a familiares e amigos. A rodagem aconteceu em Gaia e a faísca inicial veio de um videojogo.
Rumori notturni, Gaia e os prémios
Inspirado por um videojogo, o filme cruza crime de época, drama, romance e um caso em que não existem respostas perfeitas. "Rumori notturni", curta-metragem portuguesa filmada entre Arnelas e Lever, em Gaia, e assinada por Miguel Bernard e Cloé Mesureux, arrecadou os prémios de Melhor Filme Vintage/Silent Film no World Film Festival, em Cannes (França), e de Melhor Curta Portuguesa no Portugal Indie Film Festival.
Hoje, a obra é exibida em Vila do Conde, terra natal de Miguel e cidade que, há quatro anos, acolhe o casal - de 29 e 30 anos. Foi o cinema que os aproximou; depois desse primeiro passo, realizaram sete curtas em parceria e, agora, trabalham na primeira longa-metragem.
"Os nossos filmes têm sempre esse lado trágico. As pessoas são levadas a fazer coisas, sem saberem, que depois têm consequências. No final, não há nunca uma boa solução. Todas são más", explicou Miguel Bernard.
O primeiro encontro
Miguel e Cloé cruzaram-se numa perfumaria em Paris. Ele - que se mudou para França para estudar e acabou por ficar - tratava de fotografia e vídeo para a marca; ela fazia design gráfico. Era 2021 e, no período pós-pandemia, o quotidiano retomava, devagar, a normalidade. A relação começou a ganhar forma, alimentada pela paixão comum pelo cinema.
O percurso de Miguel arrancou cedo: aos 14 anos já fazia pequenos filmes com a irmã e os primos, numa lógica de tentativa e experimentação. Mais tarde, a escolha de estudar cinema na Universidade da Sorbonne surgiu com naturalidade. Cloé, designer gráfica, sempre foi fascinada pela história da sétima arte e, nesse mesmo ano de 2021, aceitou apoiar Miguel na pós-produção de um videoclipe. Ficou "fascinada pelo trabalho de mudar cores, acertar a imagem", de "fazer muito com poucos recursos e muito conhecimento técnico". Dali em diante, nasceram sete curtas e o estúdio Symbiosis.
Enredo: do videojogo à máquina de escrever
A ideia inicial de "Rumori notturni" era bem mais simples: poucas personagens e filmagens na casa do casal. No próprio dia de rodagem, porém, um dos atores faltou. Para Miguel, isso foi "um sinal" de que devia "deixar o projeto amadurecer".
Em 2023, a inspiração em falta chegou através de um videojogo. "Rumori notturni" começou a desenhar-se algures entre o jogo "Mafia: The old country" e "O padrinho", de Francis Ford Coppola. Miguel regressou à máquina de escrever - a "companheira de sempre", que não lhe permite apagar e o obriga a pensar muito bem antes de escolher cada palavra - e, entre França e a mudança para Vila do Conde, esta nova versão do projeto foi ganhando corpo. A narrativa acompanha um veterano siciliano que volta da guerra e tenta voltar a encontrar o seu lugar na sociedade.
Angariação de fundos
Seguiu-se a fase de angariar fundos e de reunir apoios. Entraram em cena muitas mãos: dois carros clássicos dos anos 30 (um deles é um dos seis exemplares existentes no Mundo), a seleção do elenco, a produção a cargo de Marie Marçal - designer e professora de design de moda - e as filmagens repartidas entre Arnelas e a Quinta da Fiação de Lever. No estúdio do casal foram construídos adereços, cenários e guarda-roupa. A música é composta por Miguel.
O filme é mudo por duas razões, explica Cloé: por um lado, "é mais universal"; por outro, porque entendem o cinema como som e imagem, e é através dessas duas linguagens que pretendem comunicar. "Mostra, não contes" é a frase-chave do projeto.
No final, sublinha Miguel, a história fica "ligeiramente aberta": "Damos a quem vê a liberdade de sentir e há leituras diferentes, algumas em que não pensamos sequer". A curta ficou concluída em janeiro e seguiu, depois, o percurso pelos festivais.
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