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A disparidade salarial entre CEO nas principais empresas portuguesas: Jerónimo Martins (226x), média 53x e 23,4 milhões em 2025

Homem de fato a beber café e a ler jornal num espaço interior moderno, com outra pessoa a passar ao fundo.

Comentários, JN e a mitologia da meritocracia

Não costumo meter-me nas caixas de comentários de meios de comunicação social. Tenho para mim que essa curiosidade quase mórbida não faz bem a ninguém: corrói a saúde e instala uma descrença funda na espécie humana. Ainda assim, abri uma exceção - precisamente num post do JN sobre a disparidade salarial entre os CEO das principais empresas portuguesas e os seus trabalhadores - e acabei surpreendida com o entusiasmo de um número considerável de comentadores pela lógica neoliberal de enaltecer uma pseudomeritocracia (imaginária) para justificar a velha (e pornográfica) desigualdade.

O que a infografia mostrava: 226 vezes, 53 vezes e 23,4 milhões em 2025

A peça trazia uma infografia onde se via que o presidente da Jerónimo Martins aufere mais 226 vezes do que um trabalhador médio da empresa (e note-se: nem é o mais mal pago). Mostrava ainda que, nas maiores empresas portuguesas, a média dessa diferença se situa nas 53 vezes. E acrescentava um dado que, por si só, já é estonteante: só em 2025, as remunerações conjuntas dos líderes destas empresas totalizaram 23,4 milhões de euros.

A normalização da desigualdade: “colaboradores”, síndrome de Estocolmo e “inveja de classe”

Como se a notícia não bastasse para deixar qualquer pessoa de bom senso estupefacta perante uma discrepância tão absurda e tão injustificável, fui ler os comentários. O que encontrei foi uma falta de consciência de classe numa horda de assalariados que, com uma ingenuidade desarmante, toma isto como o prémio justo de quem “cria riqueza”, esquecendo que sem os trabalhadores (a quem estes CEO preferem chamar “colaboradores”) a riqueza simplesmente não existe. Podem ser brilhantes as estratégias de gestão e carismáticas as figuras de liderança; mas sem a mão de obra de quem dá o sangue todos os dias, por mais de oito horas de trabalho, não haveria milhões para distribuir pelos acionistas nem bónus para os executivos embolsarem.

Como alguém também apontava nessa mesma caixa, o fenómeno lembra uma espécie de síndrome de Estocolmo: o explorado sai em defesa de quem o subjuga e ainda chama mesquinho a quem denuncia a injustiça evidente. Como se a questão fosse apenas o montante que o explorador ganha (por si só) e não a relação de disparidade. Como se as críticas à normalização desta desigualdade se prendessem com o facto de o peixe graúdo receber muito (como se receber muito fosse nocivo per se), e não com os salários baixos da esmagadora maioria.

Aos críticos atira-se o rótulo de “inveja de classe”, quer por desconhecimento da própria condição, quer para ilibar estes CEO e as suas decisões - e também este sistema económico canibal que se alimenta da energia vital dos trabalhadores sem lhes devolver uma recompensa justa - de qualquer responsabilidade pelas condições de vida no nosso país. Não se percebe (ou finge-se não perceber) que só é possível receber tanto quando se paga tão mal; e que os lucros exorbitantes de empresas de distribuição e energia nos últimos anos foram, em grande medida, construídos à custa do empobrecimento das famílias portuguesas, que pagam cada vez mais pelo cabaz alimentar, pela eletricidade, pela gasolina e pela habitação. E não foi certamente por “mérito”, a não ser que se considere que “mérito” é não ter ética nem responsabilidade social - nem para com os trabalhadores que fazem estas empresas existir, nem para com os cidadãos seus “consumidores”.


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