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CDS de Melo e Núncio: família numerosa e o esquecimento das famílias monoparentais

Mulher e criança com carrinho de bebé em paragem de autocarro em frente a cartaz publicitário sobre benefícios fiscais.

CDS de Melo e Núncio: a direita que recusa ver

Este CDS de Melo e Núncio acabou por se tornar uma versão exagerada de si mesmo: a caricatura do beto beato, como se estivéssemos a ver a Tia Bli com lugar no Parlamento.

A caricatura nota-se, sobretudo, naquilo que escolhe ignorar. Há aqui uma direita tão negacionista do real como muita esquerda: vai cortando a realidade às tiras para a fazer caber em moldes estreitos. Basta olhar para a forma como fala da "Família": quase sempre em abstracto ou, pior ainda, reduzida a um único formato. Como se Deus tivesse deixado instruções rígidas sobre o que é uma família; como se Deus não amasse quem vive fora da suposta norma. Um fariseu será sempre um fariseu - até porque é um analfabeto funcional que se recusa a ler e a compreender a Bíblia, preferindo torcer a escritura para servir preconceitos sociais e farisaicos.

O jargão da “família numerosa” e os benefícios fiscais

Na cabeça do CDS, a família parece limitar-se à “família numerosa”, um rótulo para a família perfeitinha: papa, mamã, três ou mais filhos, tudo impecável, tudo com pullover e folhinhos. Daí a proposta de aumentar os benefícios fiscais para estas famílias. Acho óptimo.

O problema é outro: estas famílias numerosas não são, em regra, as mais carenciadas. Antes delas, estão as famílias monoparentais - que, na mente de Melo e Núncio, parecem ser um tabu. Que horror, não é?, apoiar mães solteiras ou mães divorciadas que criam sozinhas filhos menores e até já maiores de idade. Esquecem-se de que muitas mulheres estão sozinhas porque os homens/pais desertaram, por uma razão ou por outra.

Famílias monoparentais, paternidade e prioridades de apoio

Os números não deixam margem para dúvidas. Há 114 mil mulheres a viver em família monoparental com filhos menores. Isso corresponde a 88% das 130 mil famílias monoparentais com filhos menores.

Mas há mais um dado a considerar: quando os filhos passam os 18 anos, não saem de casa - e saem cada vez mais tarde. O resultado é este: 434 mil mulheres vivem sozinhas com os filhos (menores ou já maiores de idade), num total de 512 mil. Ou seja, 85% da carga recai sobre as mulheres.

Isto puxa-nos, inevitavelmente, para as questões da masculinidade e, acima de tudo, da paternidade. Para onde é que vão os pais? Nos divórcios, quando os filhos passam a ter direito à sua voz, escolhem sempre as mães - porquê? Nos divórcios, os pais fazem uma segunda família e esquecem a primeira, como nos diz a Meredith Grey? Seja como for, os dados são claros.

Se o CDS quer mesmo ser o partido da família, não pode manter preconceitos contra famílias que não encaixam no molde da família beta beata. Há 435 mil mães sozinhas a precisar de apoio, mas o CDS continua a olhar apenas para a norma da “família numerosa”, que abrange um número bastante inferior de mulheres: são 230 mil e, em teoria, têm mais ajuda do que as mães sozinhas. Ambas devem ser apoiadas. Ambas têm de ser reconhecidas. E, se houver dinheiro disponível, a primeira prioridade tem de ir para quem está sozinha.

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