O MG4 XPower quer afirmar-se como um compacto desportivo 100% elétrico, mas tropeça num ponto essencial para qualquer modelo que ambicione este rótulo: a diversão ao volante!
Em 2005, a MG foi adquirida pelo grupo chinês SAIC Motor e, desde então, pouco ou nada tem a ver com a marca britânica de automóveis desportivos que muitos de nós conhecemos.
Nesta nova fase, a estratégia começou por passar por vendas exclusivamente no mercado chinês e por uma política de preços muito agressiva, algo que ajudou a marca a ganhar notoriedade por aquelas paragens.
Mais tarde, a aposta tornou-se clara: eletrificação e expansão, com um verdadeiro “assalto” ao mercado europeu muito sustentado no MG4, que tem sido uma das maiores surpresas nas tabelas de vendas na Europa.
Foi precisamente com esse modelo que marcámos encontro - e logo na variante mais focada na performance de toda a gama, o MG4 XPower.
A verdade é que o nome XPower já não está muito presente na memória coletiva, mas não é uma estreia. A MG utilizou esta denominação nos seus últimos anos (antes da compra pelos chineses), numa tentativa de criar uma espécie de sub-marca para assinalar versões mais desportivas. Um dos exemplos foi o MG XPower SV, um desportivo equipado com um V8 Ford de 4,6 litros.
Mas fará sentido manter esta etiqueta na era elétrica? Passámos alguns dias com o MG4 XPower para tentar encontrar a resposta.
Interior espaçoso e versátil
Com 4,29 metros de comprimento, o MG4 encaixa naturalmente no território de propostas como o Renault Mégane E-Tech Electric ou o Volkswagen ID.3. Porém, na versão XPower, a potência acaba por baralhar o enquadramento - pelo menos no capítulo das prestações - e, por isso, a comparação mais óbvia pode até ser com o Smart #1 Brabus.
Ainda assim, aquilo que a potência “separa”, o formato e a habitabilidade voltam a aproximar. Ao entrar no habitáculo, a primeira sensação é de amplitude, em grande parte porque não existe uma consola central tradicional. Em vez disso, há uma espécie de prateleira, onde ficam o comando rotativo da transmissão e um espaço dedicado ao telemóvel.
Na parte superior do tablier, o destaque vai para o ecrã tátil multimédia de 10,25’’, que não está isento de críticas: a tipografia é demasiado pequena, o que torna a leitura menos imediata, e a organização dos menus não facilita a navegação.
Atrás do volante encontramos um painel de instrumentos totalmente digital. Também aqui, o problema repete-se: o conjunto é pequeno e o tamanho das letras volta a não ajudar.
Materiais não impressionam
O desenho do interior segue uma linha minimalista e não causa grande impacto. Há algumas zonas com revestimentos mais macios, sobretudo nas áreas mais visíveis, mas a maioria das superfícies recorre a plásticos duros.
Ainda assim, a perceção global de qualidade é aceitável, embora confesse que esperava um pouco mais de um MG com a designação “XPower”.
Outra nota menos positiva vai para os bancos dianteiros: oferecem pouco apoio lateral. E num automóvel com mais de 400 cv, isso raramente é boa notícia - um bom suporte lateral é essencial num carro potente e faz mesmo a diferença.
Apesar disso, são bancos confortáveis e com boa apresentação, muito graças à combinação entre pele e Alcantara, bem como aos pespontos em vermelho.
Também merece elogios o volante: além de permitir um vasto leque de regulações, tem um formato bastante angular que ajuda a conseguir uma pega confortável.
E o espaço?
No capítulo da habitabilidade, o MG4 XPower volta a estar bem: nos bancos traseiros sobra espaço para pernas, cabeça e ombros.
O principal senão está no lugar central. Mesmo não havendo um obstáculo relevante para os pés, trata-se de um assento estreito.
Na bagageira, a capacidade anunciada é de 363 litros. É um valor ligeiramente inferior aos 385 litros divulgados pelo Volkswagen ID.3 e pelo CUPRA Born, e também abaixo dos 389 litros indicados pelo Renault Mégane E-Tech Electric.
À frente, debaixo do capô, não existe qualquer espaço de arrumação - o que se costuma chamar de “bagageira dianteira”. A MG acaba por não tirar partido de uma das vantagens típicas de um 100% elétrico neste aspeto, algo que merecia ser revisto no futuro.
Números dignos de um desportivo
O MG4 XPower impressiona desde logo pelos dados técnicos: utiliza dois motores elétricos (um por eixo) que, em conjunto, debitam 435 cv de potência máxima e 600 Nm de binário máximo.
São valores pouco comuns neste segmento, e explicam por que razão este MG4 XPower faz 0 aos 100 km/h em 3,8s e atinge 200 km/h de velocidade máxima.
Curiosamente, quando explorei um arranque a fundo, esperava uma reação mais dramática. É verdade que o MG4 XPower nos “cola ao banco”, mas não impacta tanto como, por exemplo, o Smart #3 Brabus, que cumpre os 0 aos 100 km/h praticamente no mesmo tempo (3,7s).
Mesmo assim, em linha reta o MG4 XPower convence muito depressa, tanto pela capacidade de aceleração como pela força na travagem.
Os travões, além de oferecerem um tato fácil de interpretar, correspondem ao que lhes é exigido. E isso merece nota positiva, sobretudo num elétrico com 1878 kg e 435 cv.
Quando chegam as curvas…
É aqui que surgem os principais limites. Ou, pelo menos, aquilo que é menos conseguido. Assim que “apanhamos” uma estrada mais sinuosa e tentamos tirar partido do potencial deste elétrico, percebe-se que há várias restrições.
Em curva, sente-se claramente a vetorização de binário a atuar, mas fica muitas vezes a ideia de que isso acontece à custa de uma redução significativa do binário efetivamente enviado às rodas.
Depois, apesar da tração integral, este MG4 XPower nem sempre consegue colocar toda a potência no asfalto, originando perdas de aderência bem visíveis.
Mas aquilo que mais se destaca são os “safanões” ao atacar uma sequência de curvas: as transferências de massa são abruptas e chegam a ser algo violentas.
A suspensão é demasiado macia para controlar o peso do conjunto e permitir explorar tanta potência com liberdade.
No balanço geral, a sensação é que falta fluidez ao MG4 XPower, que revela dificuldade em gerir toda a força que “transporta”.
A somar a isto, a direção é sempre muito assistida e a condução raramente se torna verdadeiramente divertida. É certo que há melhorias ao selecionar o modo «Desporto», mas continua a ser difícil “ler” com clareza tudo o que se passa no eixo dianteiro.
E na cidade?
Apesar do nível de potência, o MG4 XPower é, regra geral, fácil e agradável de conduzir, mesmo em ambiente urbano e no meio do trânsito.
Recorrendo quase sempre ao modo «Económico», o que mais me impressionou foi a função de condução com um só pedal, que está muito bem afinada (nem sempre acontece) e funciona de forma natural.
Esta função permite inclusivamente imobilizar o MG4 XPower. E, quando é necessário usar o pedal do travão, a calibração também é bastante satisfatória.
Quanto ao conforto, importa dizer que os pneus de baixo perfil e a suspensão do MG4 XPower não lidam particularmente bem com pisos degradados. E isto acaba por não fazer muito sentido: há concessões evidentes ao conforto, mas depois não existe um comportamento desportivo à altura.
Em estradas em bom estado, o MG4 não compromete e beneficia ainda de forma relevante do conforto proporcionado pelos bancos.
Em autoestrada, o MG4 mantém-se estável e está relativamente bem insonorizado. Ainda assim, volta a notar-se que a direção é demasiado leve.
Autonomia real não desilude
Com uma bateria de 64 kWh (61,8 kWh úteis), o MG4 XPower anuncia 385 quilómetros de autonomia em ciclo combinado WLTP. E, nos dias em que o utilizei, não fiquei muito longe desse valor.
Em cidade, com o modo «Económico», a condução com um só pedal e sem ar condicionado, obtive consumos a rondar os 17,1 kWh/100 km. A este ritmo e tomando como referência a capacidade da bateria, é realista apontar para 361 quilómetros de autonomia.
Já em autoestrada, os resultados foram menos animadores: a 120 km/h e, novamente, sem ar condicionado, o melhor que consegui foram cerca de 24,6 kWh/100 km. Nesta utilização, podem contar com aproximadamente 251 quilómetros por carga.
No final do ensaio, com um uso misto que incluiu autoestrada e vários quilómetros em cidade, o computador de bordo registava 20,2 kWh/100 km de consumo combinado, o que equivale a uma autonomia a rondar os 306 quilómetros.
Quanto custa?
O MG4 XPower tem preços a partir de 44 090 euros, embora a marca pertencente à SAIC Motor tenha campanhas que permitem baixar este valor para perto dos 41 000 euros.
Olhando para a relação preço/cv, este MG4 XPower é praticamente imbatível. E, se o compararmos com o seu concorrente mais direto, o Smart #1 Brabus, percebe-se que também aqui o MG tem vantagem: sem promoções ou descontos, o MG4 é 4360 euros mais barato.
Por este valor, levam para casa um “super elétrico” em linha reta, com acelerações capazes de nos colar ao banco e números pouco habituais neste segmento. No entanto, se procuram um compacto desportivo, é provável que se desiludam com o fator diversão, que quase nunca aparece.
Quando as curvas chegam, o MG4 XPower denuncia o peso e a potência. E deixa claro que chassis e suspensão têm dificuldade em acompanhar o potencial oferecido pelos dois motores elétricos.
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