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Portugal, Balanço Social 2025: risco de pobreza desce para 15,4% e poder de compra sobe 25,2%

Criança a pagar com cartão numa banca de mercado com frutas e legumes, mulher a colocar pão num saco.

Principais dados do relatório “Portugal, Balanço Social 2025”

O risco de pobreza em Portugal baixou de 17% em 2023 para 15,4% em 2025 e, ao longo da última década, o poder de compra das famílias cresceu 25,2%. Ainda assim, o retrato continua a evidenciar desigualdades acentuadas, com impactos mais fortes nas crianças, nos agregados mais frágeis e entre diferentes zonas do país.

As conclusões constam do relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, produzido por investigadores da Nova SBE a partir de informação do Instituto Nacional de Estatística (INE). O documento aponta melhorias recentes, mas sublinha que permanecem “fragilidades estruturais”.

Pobreza infantil em Portugal e privação material e social

Entre as áreas que mais preocupam os autores está a pobreza infantil. Embora a taxa de risco de pobreza nas crianças tenha diminuído de 22,8% em 2008 para 17,8% em 2024, em Portugal continua a haver uma em cada seis crianças até aos cinco anos a viver em situação de pobreza.

A economista Susana Peralta, coautora do relatório, chama a atenção para os efeitos persistentes destas carências. “Um dos grandes problemas da pobreza é a sua transmissão”, disse à Lusa, defendendo que o país deveria dar “muito mais atenção” à pobreza infantil.

De acordo com o estudo, quase 30% das crianças pobres encontram-se em privação material e social. Metade não participa com regularidade em actividades extracurriculares ou de lazer e muitas deparam-se com restrições do dia a dia, como não poderem convidar amigos para brincar em casa ou participar em visitas de estudo pagas.

“Sabemos o que estas privações fazem. Traduzem-se mais tarde em adultos com maior prevalência de doenças crónicas, mais comportamentos de risco e maiores dificuldades no mercado de trabalho”, avisou a investigadora.

Para Susana Peralta, reduzir a pobreza infantil passa por reforçar as transferências sociais dirigidas a famílias com crianças. “O rendimento dos pais por si só não chega”, salientou.

Rendimentos, desigualdade e o papel das transferências sociais

Apesar das disparidades, o relatório regista avanços em vários indicadores económicos e sociais. O rendimento médio disponível subiu de 9.856 euros em 2014 para 14.951 euros em 2024, tendo os maiores aumentos relativos ocorrido nos escalões de rendimentos mais baixos.

Mesmo com esta evolução, cerca de 1,5 milhões de pessoas permanecem abaixo da linha de pobreza e os 10% com mais rendimento reúnem quase oito vezes mais do que os 10% com menos rendimento.

O estudo destaca também o peso determinante dos apoios públicos na redução da pobreza: na ausência de transferências sociais, a taxa de pobreza em Portugal aumentaria para 40,3%. Em 2025, existiam cerca de 214 mil beneficiários do Rendimento Social de Inserção, sendo quase um terço menores de idade.

Desigualdades regionais

Alentejo e Açores são os mais pobres

As assimetrias territoriais continuam a ser evidentes. O Alentejo apresentava a maior taxa de pobreza do país (17,9%), seguido dos Açores (17,3%), enquanto a Grande Lisboa registava a incidência mais baixa, com 12,2%.

Nos Açores, o relatório assinala ainda os valores mais elevados de privação material e social: em 2024, 17,4% da população açoriana encontrava-se nessa condição, acima da média nacional.

No capítulo da habitação, um terço dos agregados economicamente vulneráveis tinha encargos excessivos com a casa e quase 40% não conseguia assegurar condições térmicas adequadas durante o verão. Na saúde, as dificuldades mais marcantes mantêm-se no acesso à medicina dentária, sobretudo entre os mais pobres.

O relatório sustenta que, apesar do progresso observado nas últimas duas décadas, Portugal continua a conviver com desigualdades sociais e territoriais profundas, defendendo políticas públicas mais orientadas para a pobreza infantil, a habitação, a saúde e a coesão regional.

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