Donald Trump antecipara, em abril, que “O Presidente Xi vai dar-me um grande e caloroso abraço quando lá chegar, daqui a umas semanas”, ao mesmo tempo que dizia estar a “abrir permanentemente” o estreito de Ormuz. Contudo, em vez de normalizar a navegação, os EUA avançaram com um bloqueio adicional naquele ponto estratégico. E o tal abraço não aconteceu - pelo menos à vista das câmaras -, embora isso não tenha impedido Pequim de montar uma receção altamente encenada.
A encenação diplomática arrancou na quarta-feira, já depois de anoitecer na capital chinesa. O tapete vermelho foi colocado, e centenas de jovens com uniformes azuis e brancos formaram filas, agitando bandeiras dos EUA e da China, no momento em que o Presidente norte-americano desceu do Air Force One.
Na quinta-feira, o tom entre ambos foi cordial. Xi Jinping qualificou a ligação bilateral como “a mais importante do mundo”, e Trump considerou-a “uma das mais marcantes da história mundial”. O líder norte-americano deixou ainda um convite para Xi visitar a Casa Branca a 24 de setembro. Ainda assim, as fricções geopolíticas mantiveram-se no horizonte.
“O Presidente Xi frisou que a questão de Taiwan é o assunto mais importante nas relações China-EUA. Se for bem gerida, a relação bilateral vai beneficiar de estabilidade geral. Caso contrário, os dois países vão ter confrontos e até mesmo conflitos, colocando toda a relação em grande risco”, refere um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China.
Xi alertou que má gestão da questão de Taiwan pode levar a “confrontos” entre China e EUA
Para a República Popular da China, Taiwan - que, ao contrário do continente, tem um sistema democrático - integra o seu território, motivo pelo qual Pequim realiza com frequência exercícios militares em redor da ilha. Do lado de Washington, os EUA continuam a ser o principal fornecedor de armamento a Taiwan, com quem assinaram no ano passado um acordo de venda na ordem dos milhares de milhões de euros.
A nota curta divulgada pela Casa Branca na rede social X não faz qualquer referência a Taiwan. Em contrapartida, inclui vários pontos ausentes da comunicação chinesa: sustenta que ambos concordaram com a necessidade de “manter o progresso no combate ao fluxo de precursores do fentanilo para os EUA”, que “o estreito de Ormuz deve manter-se aberto”, que o “Irão nunca deverá ter uma arma nuclear”, e que Xi “expressou interesse em comprar mais petróleo americano para reduzir a dependência da China do estreito no futuro”.
Laços comerciais
No banquete de Estado, Xi afirmou ter entendido com Trump a intenção de “construir uma relação construtiva China-EUA de estabilidade estratégica”. Defendeu que as duas potências devem “fazer com que a relação funcione e nunca estragar tudo”, sublinhando que “devem ser parceiros em vez de rivais”.
No plano económico, os dois lados procuram ganhos concretos. Trump deslocou-se a Pequim com familiares - o filho Eric Trump e a nora Lara Trump - e levou também mais de uma dúzia de executivos norte-americanos. Entre os presentes estavam Jensen Huang, da tecnológica Nvidia (num contexto em que a venda de chips de IA H200 na China tem sido fonte de disputa), Tim Cook (Apple) e Elon Musk (Tesla e Space X).
Xi, à frente do regime comunista chinês, argumentou que as relações comerciais sino-americanas são “mutuamente benéficos” e que já se verificaram “resultados positivos neste campo”, prometendo que a China “vai abrir ainda mais as suas portas”. O país “acolhe com agrado uma cooperação mais forte e mutuamente benéfica com os EUA e acredita que as empresas americanas terão perspetivas ainda mais amplas na China”, declarou.
Pontos de semelhança
Xi e Trump nasceram com sete anos e um dia de diferença. Enquanto o primeiro tende a ser contido, o segundo é expansivo nas declarações públicas. Um fez carreira dentro do partido; o outro construiu-se no mundo empresarial e só acumulou experiência governativa quando chegou à Casa Branca. Em ambos, porém, há metas nacionalistas: de um lado, moldar o “sonho chinês”; do outro, voltar a fazer “a América grande outra vez”.
“Ambos insinuam que o sucesso pessoal equivale ao das nações que governam”, diz o professor Allen Carlson
Segundo Allen Carlson, professor associado da Universidade Cornell, existem paralelos claros. “Ambos gostam de se apresentar como homens-fortes e insinuam que o seu sucesso pessoal é equivalente ao das nações que governam”, escreveu ao Expresso. O docente considera que Trump adopta um registo “é muito mais descarado” do que Xi, mas nota que o dirigente chinês também “se apresenta como parte integral do sucesso da China”. Como exemplo, aponta a consagração das suas ideias - o ‘pensamento de Xi Jinping’ - na Constituição chinesa (e nos currículos escolares).
“Ambos se retratam também como defensores acérrimos das nações que governam e afirmam que estas nações estão em perigo devido a forças nefastas, tanto internas como internacionais”, acrescentou Carlson, admitindo que é difícil aprofundar a psicologia de liderança de ambos.
Um mundo novo
A primeira visita de Trump à China, já como Presidente dos EUA, aconteceu no seu primeiro mandato, em novembro de 2017. Nessa ocasião, substituiu as acusações de que a China era um “inimigo” por uma abordagem confiante. “Há uma grande química, e penso que vamos fazer coisas tremendas, tanto para a China como para os EUA”, disse então, numa viagem em que também caracterizou Xi como “um homem muito especial”.
Desde esse momento, o contexto global transformou-se profundamente. Em Hong Kong, milhares manifestaram-se a favor da democracia, protestos que acabariam sufocados pela Lei da Segurança Nacional. Seguiu-se a pandemia de covid-19. A Rússia avançou para uma invasão em larga escala da Ucrânia. A tecnologia passou a estar no centro da guerra comercial, com disputa por semicondutores e pela dianteira na inteligência artificial. O défice comercial dos EUA com a China recuou, embora continue a situar-se nas centenas de milhares de milhões. Trump deu início - e tem tido dificuldade em terminar - a uma guerra no Irão, com efeitos disruptivos na economia mundial. Em Taiwan, o Partido Democrático Progressista manteve-se no poder: o seu líder é rotulado por Pequim como “separatista”, ao passo que a líder da oposição continua activa no reforço de contactos com a China.
“A relação entre os EUA e a China tem sido severamente afetada por uma série de problemas económicos e divergências sobre segurança nacional. Sem mencionar que os EUA estão agora envolvidos numa guerra com o Irão, e não parece haver uma estratégia clara de saída do conflito. A China poderá ser útil neste último aspeto, usando a sua influência em Teerão e apoiando os EUA mais diretamente no conflito. Por outras palavras, Xi Jinping parece ter mais poder negocial na relação do que tinha há uma década”, avaliou Carlson, antes da chegada de Trump a Pequim.
Embora reconheça que a margem de manobra chinesa cresceu, Carlson avisa que “é um erro pensar que Xi tem todas as cartas na manga”, apontando o efeito do conflito no Médio Oriente sobre a economia da China e “dúvidas mais vastas sobre a sua robustez, tendo em conta os problemas persistentes relacionados com o desemprego, o sector bancário e o mercado imobiliário”.
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