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Anticorpo anti-USAG-1 pode fazer crescer novos dentes; ensaios em humanos em 2024

Homem numa clínica a usar uma seringa para inspecionar a boca através de um espelho pequeno.

Crianças que nascem sem seis ou mais dentes permanentes podem passar anos a usar próteses até que os maxilares estejam suficientemente desenvolvidos para receber implantes. Essa espera pode estender-se até ao fim da adolescência, com impacto na forma como comem, falam e se desenvolvem.

Durante muito tempo, a medicina dentária não teve qualquer alternativa biológica para contornar este problema. Agora, investigadores poderão ter encontrado uma - e os ensaios em humanos deste fármaco ultrapassaram o primeiro marco de segurança em 2024.

O travão do crescimento dentário

Esse travão tem um nome: USAG-1. Trata-se de uma proteína produzida pelo organismo que limita o crescimento dos dentes, silenciando os sinais que dizem às células para iniciarem a construção de um dente.

O Dr. Katsu Takahashi, dentista e investigador na Universidade de Quioto, persegue uma ideia pouco consensual há mais de duas décadas. Segundo ele, no maxilar humano existem germes dentários adormecidos - vestígios de um terceiro conjunto de dentes que o corpo, normalmente, nunca chega a formar.

A pista veio de pessoas que desenvolvem dentes a mais. Num pequeno grupo de doentes com dentes supranumerários, os investigadores observaram uma espécie de conjunto “de reserva” a activar-se. O mesmo “equipamento” latente existe em quase todos nós, mas permanece inactivo.

Ratos desenvolvem dentes extra

Tudo começou com ratos - ratos que pareciam não conseguir parar de fazer dentes. Por volta de 2007, a equipa de Takahashi reparou que animais sem USAG-1 formavam dentes extra em locais onde, em condições normais, o crescimento simplesmente cessa.

Quando foram cruzados com uma estirpe que nasce com falta de dentes, esses ratos voltaram a desenvolver os dentes em falta. Noutro estudo, verificou-se também que reduzir a mesma proteína no maxilar incentivava a formação de novos dentes.

O USAG-1 não parecia estar a destruir tecido. A conclusão foi que a proteína estava a suprimir um sinal - e que, ao levantar essa supressão, em ratos geneticamente modificados, o desenvolvimento dentário que tinha estagnado conseguia retomar.

Um anticorpo anti-USAG-1 faz crescer novos dentes

Eliminar um gene pode funcionar num rato de laboratório, mas não é um tratamento aplicável a pessoas. Por isso, a equipa criou um anticorpo - um fármaco direccionado, já usado contra certos cancros - concebido para se ligar ao USAG-1 e afastá-lo do sinal que bloqueia.

A precisão era crucial. O USAG-1 desempenha mais do que uma função no organismo e, nas primeiras versões, os anticorpos que bloqueavam todas essas funções deixavam os ratos doentes ou levavam-nos à morte. Uma variante conseguiu visar apenas o sinal ligado aos dentes. Uma única dose. Um dente completo.

E o dente novo não era um simples “bocadinho” de dente. Surgiu com esmalte no exterior, uma camada interna densa e polpa viva no centro. Dentes reais, formados no próprio local - não aparafusados.

Testes em furões

Só com ratos, o argumento fica frágil. Os dentes deles não se parecem com os nossos e eles mantêm um único conjunto ao longo da vida. Os furões são um modelo mais adequado, porque desenvolvem dentes de leite e depois dentes definitivos, tal como as pessoas.

Nos furões, o anticorpo repetiu o desempenho observado nos ratos. Um artigo anterior relatou que os animais desenvolveram um dente extra que se integrou naturalmente ao lado dos restantes, sem efeitos secundários graves.

Até este trabalho, ninguém tinha demonstrado que um único fármaco conseguia regenerar um dente completo e funcional num animal tão próximo de nós. Abordagens com células estaminais e métodos de dentes cultivados em laboratório mostravam potencial, mas implicavam construir primeiro o dente fora do corpo.

Porque é que isto é diferente

Um implante não é um tecido vivo. Um pino de titânio é colocado no maxilar e recebe uma coroa por cima; pode durar anos, mas não sente pressão nem se repara a si próprio como um dente verdadeiro.

Com o anticorpo, a proposta é que seja o próprio corpo a fazer a “obra”. O plano para um dente parece já existir no maxilar - e, nos estudos com animais, bastou remover um único bloqueio do caminho para o crescimento avançar.

Esta diferença é particularmente relevante para quem nasce sem dentes. A hipodontia faz com que alguns doentes tenham menos dentes definitivos; na forma grave, com seis ou mais ausências, comer e falar torna-se mais difícil. Estima-se que cerca de 1 em 1,000 pessoas viva com esta condição.

Os humanos conseguem fazer crescer novos dentes

O primeiro ensaio em humanos começou em 2024, num hospital em Quioto, no Japão. Incluiu 30 adultos, cada um sem pelo menos um dente, e teve como objectivo apenas confirmar a segurança do medicamento antes de avaliar qualquer regeneração.

Esses primeiros voluntários passaram sem efeitos secundários graves, abrindo caminho para a questão mais exigente: saber se o fármaco faz, de facto, crescer dentes.

“A ideia de fazer crescer novos dentes é o sonho de qualquer dentista”, disse Takahashi.

A fase seguinte aponta para quem mais poderá beneficiar: doentes que nasceram com falta de vários dentes. Mais tarde, poderão seguir-se crianças, já que os casos de perda dentária severa muitas vezes implicam anos de próteses até os implantes serem viáveis.

O que pode mudar

O que este trabalho ajuda a fixar é o seguinte: em animais que fazem dentes num ritmo semelhante ao nosso, aliviar a “pressão” de uma única proteína permite ao organismo concluir dentes que tinha deixado por terminar. Uma dose. Sem cirurgia.

A partir daqui, o caminho de investigação torna-se mais concreto. Um medicamento capaz de regenerar um dente vivo daria à medicina dentária uma terceira via, para além do implante e da prótese. Os ensaios em humanos que já decorrem irão testar se essa via se abre também nas pessoas.

Para quem passou anos com um espaço que nenhuma ponte resolve por completo, a possibilidade é clara e significativa. O corpo pode ainda guardar o dente que perdeu - à espera de um único sinal para recomeçar.

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