Uma “cheia de 100 anos” parece o tipo de desastre tão raro que quase não merece preocupação. A própria expressão dá a entender que é uma inundação que acontece uma vez e depois desaparece durante gerações.
Essa ideia influencia tudo: desde onde se constrói até à forma como se avalia o risco de viver junto à costa.
Só que o oceano já não respeita essas probabilidades antigas. A subida do nível do mar, de forma silenciosa, fez com que muitas cheias antes excepcionais passassem a ocorrer muito mais vezes, mesmo sem tempestades mais fortes.
Um novo estudo conclui que a inundação costeira que se esperava uma vez a cada 100 anos está agora a acontecer com muito maior frequência em grande parte do mundo.
Os cientistas mostram ainda que a maior parte deste aumento resulta das alterações climáticas provocadas pela actividade humana, e não de oscilações naturais do nível do mar.
Quando as cheias raras passaram a ser comuns
Os investigadores compararam a probabilidade actual de um nível extremo da água junto à costa com a probabilidade registada em 1900. Um patamar que antes tinha 1% de hipótese de ocorrer em qualquer ano - o clássico evento “uma vez por século” - aparece agora, em média, cerca de uma vez a cada 8 anos.
Em termos de multiplicador, o extremo típico de 1 em 100 anos é hoje quase 12 vezes mais provável do que no início do século XX. Este valor é o ponto intermédio global; nalguns locais, o salto é muito mais acentuado.
O trabalho foi liderado por Sönke Dangendorf, professor auxiliar na Tulane University.
A equipa recorreu a séries longas de dados costeiros e a modelos climáticos para responder não à pergunta sobre se o mar está a subir, mas sobre quanto essa subida já alterou as probabilidades de inundações costeiras.
O que faz aumentar as inundações costeiras
Um nível extremo de água resulta de uma maré alta somada à maré de tempestade - a água que ventos fortes e baixa pressão empurram para terra - por cima do nível médio do mar. Ao elevar-se esse nível de base, cada tempestade consegue atingir cotas mais altas.
Uma maré de tempestade que, em 1900, exigia uma tempestade muito mais intensa para ultrapassar um paredão pode hoje acontecer com um episódio bem mais fraco. As tempestades não se tornaram mais fortes; o que subiu foi o nível de base sobre o qual elas actuam.
Thomas Wahl, professor associado na University of Central Florida (UCF), comparou uma zona federal de inundação a um lançamento anual de um dado de 100 faces: 99 faces são seguras e uma face corresponde a inundação.
“Agora, por causa da subida do nível do mar, esse dado está a perder faces”, disse Wahl, em linha com o alerta de outros cientistas.
Acompanhando a subida do oceano
A evidência está nos marégrafos - instrumentos instalados em portos e cais que registam a altura do mar hora a hora, alguns há mais de 100 anos. São o registo contínuo mais longo de que dispomos sobre o oceano.
Esses dados indicam que o mar subiu perto de 20 centímetros desde 1900, uma elevação cuja origem já tinha sido analisada num estudo anterior. A equipa combinou os registos dos marégrafos com um grande conjunto de simulações de modelos climáticos.
Separaram a subida observada numa componente natural - oscilações que o oceano sempre teve - e num remanescente que essas oscilações não conseguiam explicar.
Com a influência humana “desligada”, os modelos estimaram quanto risco de inundação existiria sem a nossa intervenção.
O papel das alterações climáticas
É aqui que o estudo avança mais. Já se sabia que os mares estavam a subir e que as pessoas eram responsáveis por grande parte dessa subida.
A questão em aberto era qual a parcela humana no aumento das probabilidades de cheias extremas - medida a partir de dados reais, e não apenas de projecções.
A resposta é directa. O aquecimento impulsionado pela actividade humana, por si só, terá aproximadamente quadruplicado a probabilidade do antigo extremo costeiro de 1 em 100 anos. Não foi a natureza. Não foi o acaso. Foi a poluição que retém calor e que as pessoas têm lançado para a atmosfera há mais de um século.
Esse domínio tem um marco temporal: desde a década de 1960, é o sinal humano - e não a variabilidade natural - que tem conduzido o aumento destas probabilidades de inundação.
Um artigo anterior ligava a maior parte da subida do nível do mar à acção humana; este trabalho prolonga essa conclusão para os extremos que inundam ruas.
Os ciclos naturais perdem peso
Os ciclos naturais não desapareceram. Oscilações lentas nos ventos e nas correntes continuam a elevar e a baixar, ao longo de décadas, os níveis regionais da água, e esses ritmos mantêm-se em todos os registos.
O que mudou foi a sua importância relativa. Ao longo da maioria das linhas costeiras, as subidas e descidas naturais passaram a contar menos do que a contribuição humana, embora ainda a influenciem.
A inversão pode passar despercebida porque as duas forças surgem misturadas no mesmo registo. Quando são separadas, a contribuição humana destaca-se na grande maioria dos locais analisados.
Algumas costas enfrentam riscos maiores
O aumento de 12 vezes é um ponto intermédio, não uma regra uniforme para todas as costas. Ao distribuir os resultados pelos portos do mundo, a variação cresce muito, com algumas regiões bem acima da média.
Nas zonas mais afectadas, o nível de água que antes se esperava uma vez por século é agora antecipado quase todos os anos.
A subsidência do terreno agrava o problema, e um estudo separado concluiu que a combinação de terreno a descer e mar a subir pode acelerar mais depressa do que os planeadores assumiam.
O resultado é que as antigas estatísticas de cheias - aquelas incorporadas em mapas e regulamentos - descrevem cada vez mais uma linha costeira que já não existe. Os números eram fiéis quando foram traçados. A água é que se deslocou.
Redesenhar os mapas de inundação
O que esta área pode agora afirmar, com base em observações e não em previsões, é que as alterações climáticas já multiplicaram as probabilidades de cheias costeiras extremas.
No total, o risco aumentou 12 vezes, sendo que as emissões, por si só, explicam um aumento de quatro vezes.
Desde a década de 1960, o sinal humano lidera essa subida - uma afirmação sobre o presente, não um aviso longínquo.
As consequências recaem na burocracia que governa a costa. A linha de “100 anos” num mapa de risco - a base de prémios de seguro e códigos de construção - pode estar a subestimar o perigo anual que uma família costeira enfrenta. Reposicionar essas linhas é o próximo passo óbvio.
Há ainda um alcance mais amplo. Quantificar de forma rigorosa quanto as emissões humanas elevaram o risco de inundações costeiras dá aos tribunais e aos decisores políticos um elemento sólido para ponderar, à medida que aumentam os litígios e os debates sobre adaptação.
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