Testemunho de Carlos Machado, 55 anos, professor de Português do Ensino Secundário no Agrupamento de Escolas Dona Maria II, em Braga.
Carlos Machado e o primeiro encontro com Camões
"O primeiro contacto com Camões aconteceu no 9.° ano, em Arcos de Valdevez, em 1984/85, com uma professora que sei que se chamaria Luísa e cujo rasto perdi, o que me causa alguns problemas de consciência, porque foi a professora que me fez optar por Letras e pelas Humanidades.
O principal segredo é explorar a temática amorosa na lírica camoniana e explicar essa temática a alunos que estão na adolescência, a encontrar os primeiros amores. E por que não explicar isso com Camões? Há 40 anos, seria mais fácil do que explicá-lo hoje. Um dos desafios é aquilo que tem a ver com a própria leitura do texto camoniano, que, como qualquer texto clássico, apela a leituras e releituras. E essas releituras são muitas vezes quase antagónicas.
Temos as leituras mais tradicionais, que fazem a leitura de uma epopeia grandiosa, dos feitos grandiosos dos portugueses, e temos outras, como a do professor Guilherme Silva, que não vê [nos "Lusíadas"] uma obra clássica, uma epopeia, mas uma obra que é profundamente crítica do empreendimento das Descobertas e que a define como uma obra maneirista. Essa leitura é feita na tese de doutoramento do professor Aguiar e Silva já nos anos 1960.
Temos hoje a leitura do professor João Figueiredo, da Universidade de Lisboa, que defende que "Os Lusíadas" é sobretudo uma obra amorosa e realça o aspeto de haver um canto e meio dedicado à Ilha dos Amores. Não há nenhum outro episódio em toda a obra com uma extensão tão grande, e o episódio da Ilha dos Amores, inclusivamente, está excluído dos programas do Ensino Secundário.
Se, no que diz respeito à época, estamos habituados a lidar com diferentes leituras do que é a obra de Camões, em relação à lírica, esse problema também surge, porque o texto de Camões foi durante muito tempo usado e abusado para efeitos que não seriam, se calhar, aqueles que seriam os pretendidos por Camões. Os alunos estão bastante disponíveis para a leitura de Camões, sobretudo com a possibilidade de haver múltiplas leituras e muito frequentemente divergentes do mesmo texto".
Leituras de Camões na escola: tradição, crítica e amor
A partir desta experiência, fica sublinhada a importância de trabalhar Camões com os alunos através de abordagens diversas - da interpretação mais clássica de Os Lusíadas a perspetivas críticas sobre as Descobertas, sem esquecer a dimensão amorosa, com destaque para a Ilha dos Amores e para a forma como diferentes leituras podem coexistir (e até colidir) na sala de aula.
Iniciativa dos 500 anos de Luís Vaz de Camões
Iniciativa integrada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões.
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