O presidente da especialidade de otorrinolaringologia da Ordem dos Médicos, Nuno Trigueiros Cunha, sublinha como essencial avançar com uma estratégia nacional para a saúde auditiva, sobretudo para chamar a atenção para os perigos da exposição ao ruído, e avisa que quem "ganha" com a ausência de rastreio são empresas "mais oportunistas" que comercializam serviços pouco credíveis.
Porque continuam a ser tão caros e pouco comparticipados os aparelhos auditivos?
Isto está ligado ao modo como a saúde é financiada em Portugal, certo? O apoio às próteses auditivas é canalizado pelos hospitais e chega de forma muito limitada. Nalgumas situações, apenas quem aufere o rendimento mínimo acaba por ter acesso.
O que pode ser aprendido com outros países?
Na maior parte dos países, existe financiamento para os aparelhos auditivos e esse apoio é assegurado através de empresas certificadas. Em Portugal, em qualquer vão de escada, surge uma loja que, na prática, não faz reabilitação auditiva. E esta reabilitação tem de ser acompanhada ao longo do tempo, até porque nem sempre resulta logo à primeira - ao contrário do que acontece, por exemplo, com uns óculos.
Portugal precisa de uma estratégia nacional para a saúde auditiva?
Sim, sem dúvida. A primeira medida passaria por uma campanha que evidenciasse os riscos da exposição ao ruído, seja em contexto profissional, seja em momentos de lazer - discotecas, concertos, entre outros. Outra vertente teria de ser a intervenção, associada a rastreios auditivos e a uma maior atenção à saúde auditiva da população, sobretudo nas pessoas acima de uma certa idade.
Dizem que a perda auditiva pode aumentar o risco de demência. Qual é a relação entre estes dois problemas?
Está muito relacionado com o facto de que quem tem perda auditiva tende a desligar-se do Mundo e a isolar-se. Esse isolamento, por si só, já é um fator de risco para a demência. Além disso, a perda auditiva implica morte de células - um processo normal ao longo dos anos, mas que, em algumas pessoas, pode ocorrer de forma mais acelerada. Há quem tenha maior predisposição para a morte celular, quer ao nível do ouvido, quer ao nível do próprio sistema nervoso central, e acaba por existir uma causa comum: tanto de neurónios como de células auditivas.
Quanto aos auriculares, devia haver mais informação sobre este assunto?
Sim. Era importante haver mais informação e os equipamentos deveriam ter limites de intensidade. Deveria existir legislação que impedisse o som acima de determinados níveis...
Como os carros? Com um limitador de velocidade?
Ora bem, exatamente. Seria uma boa solução.
Existem programas de rastreio auditivo?
Rastreio oficial, não. Essa sensibilidade ainda não existe. Talvez não haja meios para o fazer. E, depois, a falta de rastreios deixa uma abertura que é aproveitada por algumas empresas mais oportunistas para promover esses chamados rastreios.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário