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Cristina Ferreira, José Alberto Carvalho e a polémica da violação: não saber ler a sala

Dois jornalistas em estúdio de televisão discutem, com câmaras e jornais sobre a mesa.

Quando Maria Antonieta se impacientou com um povo esfomeado que lhe pedia pão e, em resposta, o terá mandado comer brioche, estava a inaugurar aquilo a que hoje se chama “não saber ler a sala”. Não deu conta de que a aragem já virava vendaval, nem de que o cheiro do tempo tinha passado a ser mais ácido do que a rosas.

Quero acreditar que, num primeiro momento, as palavras de Cristina Ferreira sobre uma violação foram “apenas” mais um desses instantes de desatenção histórica. Estava a falar, o assunto ia quente, e saiu-lhe uma formulação que soou a indulgência para com jovens delinquentes. Cristina, vamos admitir, não estaria a querer sugerir que aquilo não era grave. Ou tropeçou na expressão, ou somos nós que habitamos uma época demasiado impiedosa. Enfim: quem nunca?

O que pesa, porém, não é tanto o deslize inicial. O que se torna realmente sério é o que vem a seguir: o passo seguinte, a forma como se reage às reacções. E é aí que me desiludo, porque sempre ouvi Cristina Ferreira repetir a sua ladainha de empoderamento para as novas guerreiras - essa pedagogia de frases de T-shirt exibidas a propósito de tudo e de nada, como “Não interessa se cais, é a maneira como te levantas que te define.” Aqui havia uma oportunidade rara de a ver cumprir os sermões com que vai educando as seguidoras. Preferiu, em vez disso, uma rota diferente. O que, no fundo, encaixa bem no rasto que tem deixado: primeiro ela, depois os outros, e só depois o resto.

A cronologia da polémica com Cristina Ferreira

Vale a pena reconstituir a sequência. Cristina disse o que disse; alguns repararam e publicaram; quem não tinha visto acabou por ver; e aquilo incendiou como seara seca. Multiplicaram-se as partilhas indignadas e o coro cresceu. Nas redes - que ela domina como poucas pessoas - ficou com as orelhas a arder. Isto acontece a toda a gente, com impactos diferentes na biografia de cada um; no caso de Cristina, a visibilidade, a fama e o proveito têm dimensão nacional.

Depois veio um silêncio prolongado. O país comentava-a, e ela não entrava no ringue. O que se passou? O que a deixou sem resposta? Terá sido tempo de consulta com dúzias de assistentes, de alinhamento com conselheiros de imagem, de ajuste fino com magos da manobra de marketing? Após algum suspense, apareceu um comunicado - não assinado por ela, mas pela empresa onde ocorreu o momento infeliz. Da parte de Cristina, continuava apenas um silêncio raro e enigmático.

Cristina sente que é uma mãe e irmã dos portugueses. Que escolheu dizer que quando os rapazes começam a violar ficam um nadinha cegos e surdos. É deixá-los acabar, e já passa

A entrevista no principal jornal com José Alberto Carvalho

Mas então, claro, o passo seguinte - como é que não adivinhámos antes? A resposta estava a ser construída em grande, e sem grande pudor. Para o tamanho mediático de Cristina, nada menos do que a cadeira onde se sentam tantos dos mais altos representantes da nação: frente a frente com o jornalista que conduz o principal jornal, no principal horário, mais do que nobre. Demorou a reagir; quando o fez, fê-lo para falar ao país.

Tenho muitas e boas recordações partilhadas com José Alberto Carvalho, que tentou o quase impossível: convencer-nos de que estávamos a assistir a uma entrevista. Que a coisa tinha nascido “naturalmente”, como tantas outras - há um tema na actualidade, toma-se uma decisão editorial, convida-se a figura central da polémica, ela até aceita (que sorte), e assim o gesto parece jornalismo e não outra coisa.

Logo no arranque, Cristina Ferreira trata de tranquilizar os fãs, dizendo ao Zé que “está bem”. Um auto-exame carinhoso à própria tensão, uma preocupação de Cristina com Cristina, que, afinal, denuncia um pouco a encenação do tal momento jornalístico: já nem surpreende que a estrela queira falar sobretudo de si.

A narrativa de perseguição e a recusa do pedido de desculpa

A queixa com que fecha a entrevista não é novidade. Alinha com o enredo antigo de vítima perseguida por invejosos que lhe querem mal - o discurso com que ela dirige a orquestra de fãs incondicionais. Qualquer pessoa maldosa que ouse criticá-la sofre, diz a narrativa, de dor de cotovelo: não é famosa, não é rica como ela, não vai às Bahamas num simples fim-de-semana, com fotografias e tudo para provar.

Essa resposta-tipo às críticas vem de longe. Está treinada há anos nas conversas de palco pelo país, já em modo influenciadora-professora, a persuadir multidões de que “todos podemos tudo, basta acreditar nos sonhos”, ou naquele livro que se apresentava como manifesto de revolta feminista contra a violência do insulto nas redes sociais.

E no fim chega a oportunidade. José Alberto Carvalho pergunta-lhe se quer aproveitar para pedir desculpa. Ela não quer. Não pronuncia a palavra. Limita-se a lamentar que sejam tão injustos com ela, que interpretem mal os seus pensamentos supostamente abnegados. No íntimo, diz, só queria interrogar a sociedade e provocar reflexão. Convém recordar que ela gere infindáveis “Big Brothers”, laboratórios tão educativos, defendidos como “um espelho de todos nós”.

Tudo isto seria apenas caricato se não tivesse uma repercussão tão ampla e tão grave. Uma exposição pública gigantesca traz responsabilidades enormes. Há muito que, na vertigem da fama, Cristina se sente mãe e irmã dos portugueses - e também psicóloga, terapeuta, conselheira. E foi nessa posição que escolheu dizer às raparigas e às mulheres deste país que, quando os rapazes começam a violar, ficam um nadinha cegos e surdos. É deixá-los acabar, e já passa.

Rodrigo Guedes de Carvalho escreve segundo a antiga ortografia

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