Um novo tratamento inovador para alguns dos cancros do estômago mais difíceis de tratar mostrou sinais encorajadores num ensaio clínico de fase 2, com melhorias visíveis na redução tumoral e nas taxas de sobrevivência.
A abordagem baseia-se numa imunoterapia com células CAR T: recolhem-se células do próprio sistema imunitário do doente, que são depois “treinadas” para reconhecer e atacar melhor as células cancerígenas, sendo posteriormente reinfundidas na corrente sanguínea.
Esta terapia, designada satricabtagene autoleucel - ou satri-cel - foi concebida para atingir a proteína CLDN18.2, que certos tumores podem explorar para crescer. Em média, os doentes tratados com satri-cel viveram cerca de 40 percent mais tempo.
Ensaio clínico de fase 2: quem participou
O estudo foi conduzido por investigadores de várias instituições na China e incluiu 156 participantes com cancro gástrico ou cancro da junção gastroesofágica. Todos tinham deixado de responder a pelo menos dois tratamentos existentes - na prática, pessoas com opções terapêuticas muito limitadas antes de entrarem no ensaio.
Resultados do satri-cel (CAR T) em cancro gástrico e da junção gastroesofágica
Para além do aumento da sobrevivência, os investigadores observaram outros sinais positivos: nos doentes que receberam satri-cel, o cancro tinha maior probabilidade de reduzir e demorava mais tempo a piorar do que nos doentes medicados com fármacos oncológicos padrão.
"Em doentes com cancro gástrico avançado ou cancro da junção gastroesofágica, muito pré-tratados, que têm opções terapêuticas extremamente limitadas e mau prognóstico, o satri-cel demonstrou uma eficácia revolucionária com benefícios clínicos significativos, incluindo uma sobrevivência livre de progressão muito melhor, sobrevivência global e taxas de resposta tumoral," afirma o oncologista Lin Shen, do Beijing Cancer Hospital.
No grupo satri-cel, os doentes viveram uma mediana de 7.92 meses, face a 5.49 meses no grupo de controlo. Em 22 percent dos doentes tratados com satri-cel verificou-se uma redução tumoral significativa, comparando com apenas 4 percent no grupo de controlo.
O tempo mediano até ao agravamento do cancro foi de 3.25 meses com satri-cel, contra 1.77 meses sem este tratamento. No conjunto, são resultados fortes em diferentes métricas e sugerem que a terapia pode funcionar.
"Isto traz uma nova esperança a doentes com condições que, de outro modo, seriam medicamente intratáveis," diz Shen.
Efeitos secundários, contexto e próximos passos
Nem tudo foi positivo: o satri-cel quase sempre provocou efeitos secundários relevantes, incluindo uma descida das contagens de células sanguíneas. Ainda assim, de acordo com os investigadores, estes efeitos são controláveis.
A terapia com células CAR T já demonstrou eficácia em cancros do sangue, e começam a surgir resultados animadores em tumores sólidos, como cancro do cérebro e cancro do pâncreas. Ao que tudo indica, estes cancros do aparelho digestivo também poderão juntar-se a essa lista.
Trata-se de mais uma indicação de que, em termos gerais, estamos a melhorar a forma como enfrentamos o cancro e o crescimento de tumores sólidos. Nos últimos um a dois anos, investigadores conseguiram identificar novas maneiras de destruir células cancerígenas e até de reverter células tumorais para estados saudáveis.
Apesar disso, isto não é uma cura - embora esta linha de investigação possa vir a contribuir para uma no futuro. O que faz é ajudar a controlar o tumor, tornando as células do sistema imunitário mais eficazes a reagir contra o crescimento maligno.
"Estamos a explorar mais o potencial do satri-cel em contextos adjuvantes e como terapias sequenciais de primeira linha, com o objetivo de intervir mais cedo no curso da doença, prolongar a sobrevivência dos doentes e, em última análise, procurar curas potenciais," afirma Shen.
A investigação foi publicada na The Lancet.
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