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Independência dos Estados Unidos vira homenagem a Donald Trump nos 250 anos

Passaporte dos EUA, livro aberto, moeda e nota de dólar sobre mesa de madeira com miniatura da Casa Branca.

O aniversário da independência dos Estados Unidos está a ser reconfigurado como um tributo ao presidente em funções. Para alguns especialistas, o caso de Donald Trump encaixa no que descrevem como "narcisismo maligno".

Muito antes de chegar à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump já revelava a inclinação para transformar o apelido da família numa marca no sector imobiliário. A partir dos anos 80, com o rosto a ganhar notoriedade nacional e a reputação de mestre na "arte da negociação", essa exposição tornou-se um activo. No entanto, neste segundo mandato na Casa Branca, o amor-próprio - ou, como apontam críticos e especialistas, "narcisismo maligno" - surge como um traço cada vez mais difícil de ignorar: o magnata associa a celebração dos 250 anos do país à sua própria imagem, originando homenagens a Trump até em documentos oficiais e na moeda.

Passaporte: sobreposto à Constituição

Em abril, o Departamento de Estado apresentou uma edição comemorativa do passaporte norte-americano. A par da página que mostra a pintura dos Pais Fundadores a assinarem a declaração de independência, surgirá outra página com uma ilustração do presidente atual. A imagem de Trump aparece sobreposta ao documento histórico de 1776, acompanhada pela assinatura dourada do republicano.

De um modo geral, os países optam por colocar nos passaportes figuras históricas ou elementos naturais associados ao território - a Coreia do Norte, por exemplo, usa a montanha sagrada de Baekdu. Já o passaporte dos EUA inclui imagens como a chegada à Lua e vários monumentos, entre os quais a Estátua da Liberdade e o monte Rushmore.

"O secretário de Estado Marco Rubio devia dedicar mais tempo a convencer o seu chefe a pôr fim à guerra que escolheu contra o Irão, e menos a desperdiçar o dinheiro dos contribuintes norte-americanos para satisfazer a vaidade de Trump", criticaram os democratas da Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara. Na Califórnia, o governador Gavin Newson voltou a recorrer à sátira contra o líder da Casa Branca, ao divulgar a imagem de uma carta de condução com o próprio rosto para assinalar os 175 anos do estado.

O tema é motivo de gozo em programas televisivos norte-americanos, mas há especialistas que não deixam margem para dúvidas: "É um narcisista maligno". A afirmação pertence ao psicólogo John Gartner, da Universidade Johns Hopkins, numa entrevista ao jornal "El País", que associa ao perfil traços como sociopatia, paranoia, grandiosidade e sadismo. Ao mesmo diário, o neurocientista Frank George frisou que o percurso de Trump - do modo como foi tratado pelos pais à escola militar onde aprendeu a ser um "bully", passando pela chegada à Presidência - contribuiu para "transformá-lo de um narcisista patológico num narcisista maligno".

Moeda comemorativa: pose combativa em 24 quilates

A Casa da Moeda norte-americana prepara também a emissão de uma moeda comemorativa em ouro de 24 quilates com a imagem de Trump. A decisão foi tomada por um painel cujos membros foram escolhidos pelo próprio chefe de Estado. "À medida que nos aproximamos do nosso 250.° aniversário, estamos entusiasmados por preparar moedas que representam o espírito duradouro do nosso país e da nossa democracia, e não há perfil mais emblemático para a frente destas moedas do que o do nosso atual presidente, Donald J. Trump", afirmou à agência Reuters Brandon Beach, tesoureiro dos Estados Unidos.

Assinatura no dólar: líder da Casa Branca na nota

Nem a nota de dólar ficará de fora destas homenagens: a partir deste mês, passará a incluir a assinatura do atual ocupante da Casa Branca, algo inédito na história da moeda. "Sob a liderança do presidente Trump, estamos num caminho para um crescimento económico sem precedentes, para o domínio duradouro do dólar e para a força e estabilidade fiscal", declarou em março o secretário do Tesouro, Scott Bessent.

No final de maio, o líder norte-americano intensificava a pressão sobre o Congresso para aprovar uma nota comemorativa de 250 dólares com o seu rosto.

Este reconhecimento do que Bessent descreve como "conquistas históricas" do país e de Trump ocorre apesar das manifestações "Sem Reis", que rejeitam a ideia de o presidente dos EUA ser tratado como um monarca absolutista. O chefe de Estado, que alimenta um imaginário de rei e até de Jesus - por mais que negue a conotação das imagens que divulga, feitas por inteligência artificial -, prossegue assim o plano de moldar os EUA, cada vez mais, à sua imagem.

Outros casos

  • Edifícios
    O Instituto da Paz e o Centro Kennedy para as Artes Cénicas, em Washington, passaram a ter o nome do atual presidente, mesmo sem autorização do Congresso.

  • Visto para ricos
    O "cartão dourado" que dá residência a estrangeiros que paguem um milhão de dólares inclui foto e assinatura de Trump. Até ao final de abril, apenas um visto deste tipo tinha sido atribuído.

  • Classe de navios
    Os navios de guerra de mísseis guiados previstos para a próxima década integrarão a classe Trump.

  • Programas
    O Governo comunicou a criação do TrumpRx, um programa de descontos em medicamentos, e do Trump Accounts, contas de investimento destinadas a recém-nascidos.

À margem

Telemóvel dourado atrasado e sem produção norte-americana
Anunciado em junho de 2025, o telemóvel T1 da Trump Mobile estava previsto para chegar ao mercado em agosto do ano passado. No entanto, o equipamento dourado com a bandeira dos EUA (com 11 riscas em vez das tradicionais 13) só apareceu em maio deste ano, com um atraso de nove meses. O aparelho, que custa 499 dólares (429 euros), inclui a aplicação da rede Truth Social já instalada no Android. A empresa detida por Eric Trump e Donald Trump Jr., filhos do presidente, pretendia fabricar o telemóvel nos Estados Unidos, mas recuou nesse objetivo e passou a promovê-lo como tendo sido "concebido com os valores americanos em mente". A montagem final será, alegadamente, no estado da Florida.

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