Um homem de 33 anos pegou na filha, de quatro, e lançou-se com ela da varanda de um oitavo andar, na madrugada de domingo, em Santarém. Ambos morreram. A mãe presenciou a queda e entrou em estado de choque. A tragédia terá sido precipitada por uma discussão no seio do casal, que estaria a atravessar um processo de separação.
A criança que morreu ontem é já a quarta vítima infantil, em 2026, em circunstâncias associadas à violência doméstica. Com menos de sete meses decorridos, este ano já igualou, no que toca a mortes de menores, o período mais grave desde 2019 em contexto de violência doméstica.
De origem indiana, o casal encontrava-se estabelecido em Portugal há vários anos. A filha, de quatro anos, tinha nacionalidade portuguesa. O ambiente em casa estaria longe de ser sereno: de acordo com informação apurada pelo JN, desde 2024 que o homem estava sinalizado na PSP por suspeitas de violência doméstica contra a companheira, tendo sido alvo de, pelo menos, duas participações.
Denúncia a familiares em Santarém
Na madrugada de domingo, o casal - alegadamente em vias de separação - voltou a entrar em confronto. A mulher terá dito que iria apresentar queixa do marido junto de familiares dele. Terá sido nessa altura, cerca das 3 horas, ao ver a esposa pegar no telefone, que o homem agarrou na filha e saltou com ela do oitavo andar, na Praceta Habijovem, na Urbanização de São Domingos, em Santarém.
Moradores relataram um cenário de pânico e choque. A mãe, em desespero, pedia que salvassem a filha. Alguns vizinhos, incluindo profissionais de saúde, acorreram de imediato e ainda tentaram manobras de reanimação na criança, sem êxito. O óbito foi declarado no local, onde estiveram os Bombeiros Sapadores de Santarém, uma VMER e uma equipa de psicólogos do INEM. A mãe acabou por necessitar de cuidados hospitalares.
A PSP assumiu inicialmente a ocorrência, mas o inquérito passou para a Polícia Judiciária. A situação está a ser tratada como suicídio e homicídio da filha, em contexto de violência doméstica, com o propósito de provocar sofrimento à companheira.
O casal vivia naquele prédio há alguns anos e chegou a explorar um minimercado no rés do chão, entretanto encerrado. Apesar de estarem, ao que tudo indica, em processo de separação, continuavam a habitar o mesmo apartamento. Uma fonte da PSP confirmou que o homem estava a ser investigado por violência doméstica desde 2024.
Igualado ano mais mortal para menores desde 2019
O ano ainda não chegou ao fim do primeiro semestre completo e já se registaram quatro crianças mortas em contexto de violência familiar - mais do que em todo o ano passado, quando foram contabilizadas duas vítimas. Em 2023, não foi registada qualquer morte de criança.
Os episódios mais recentes - em Santarém e Valpaços - voltaram a evidenciar a fragilidade dos menores perante situações de violência doméstica. Dados da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), com base em informação da Polícia Judiciária, indicam que estes sete meses já igualaram o ano mais mortífero para crianças desde 2019: 2022, quando também morreram quatro menores. A CIG refere ainda que, para fugir à violência, é frequente as crianças acompanharem as mães para estruturas de acolhimento. No ano passado, a Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica acolheu 2585 menores e 2973 mulheres.
Casos
Mata enteada
Eulália Silva, de 48 anos, foi detida na quarta-feira por alegadamente ter asfixiado a enteada, de oito anos, em Valpaços. Na origem do crime estará um desentendimento entre Lara e o filho de Eulália. A suspeita vivia com o pai da vítima.
Esfaqueou jovem
Em dezembro de 2025, um homem matou à facada um jovem de 13 anos, filho da ex-companheira, em Casais, Tomar. O agressor terá chegado à habitação onde residiam mãe e filho empunhando uma faca. Terá começado por tentar agredir a mulher, que se refugiou em casa de um vizinho; depois, matou o jovem.
Neta de sete anos
Em março de 2023, em Vila Franca de Xira, um homem de 69 anos, com o intuito de se vingar da filha - que ia sair de casa e levar consigo a neta que o tratava por "paizinho" - esfaqueou a menina de sete anos 13 vezes, provocando-lhe a morte.
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