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Projeto "Estou Cãotigo" chega a Penacova

Mulher idosa e jovem sentam e acariciam cão na rua com casas ao fundo num dia ensolarado.

O projeto "Estou CãoTigo" passou a integrar o concelho de Penacova. Com cães preparados na Escola de Cães-Guia de Mortágua, as sessões procuram atenuar a solidão, reduzir o isolamento e apoiar um "envelhecimento ativo e saudável".

Palmira de Jesus permanece sentada no sofá e fixa a paisagem pela janela. Ao longe, vê-se o Centro de Dia de Carvalho, que assegura apoio domiciliário e também funciona como lar. "Enquanto puder, fico melhor aqui", afirma. A casa guarda as recordações de um casamento com 57 anos, interrompido no início do ano com a morte do marido, Bernardo Mendes. Ali ficaram igualmente as dores e as alegrias: três filhos criados - duas mulheres e um homem - e os seis netos de quem cuidou. Na fotografia, as cinco raparigas e o único rapaz surgem juntos; vivem em França com a mãe, que é também sua filha. "Liga-me todos os dias desde que aconteceu."

O sujeito dessa frase não aparece, mas o luto é evidente. Vestida de preto da cabeça aos pés, Palmira solta uma gargalhada quando Goofy apanha um biscoito lançado pela monitora. "Gosto muito de animais. Já tive muitos, mas agora só as galinhas", conta, ao mesmo tempo que lhe afaga a cabeça. O cão abana a cauda e mantém a boca aberta para aliviar o calor, como se exibisse um sorriso. "É muito beijoqueiro", comenta Rita Nobre, técnica de Intervenções Assistidas, que ao longo destes cinco meses construiu com Palmira uma ligação que ultrapassa o simples apoio no período de luto.

De 15 em 15 dias, à sexta-feira, o programa "Estou Cãotigo" entra em casa de Palmira, em Carvalho Velho, na freguesia de Carvalho, concelho de Penacova. "Já tinha dito a uma das minhas netas que hoje vinha aqui o cãozinho outra vez", partilha. No chão, Goofy agita a cauda com entusiasmo. Usa ao pescoço um lenço de ganga que serve de adorno e identificação, com a inscrição "Cão de intervenções assistidas".

Treinado na Escola de Cães-Guia para Cegos, iniciativa da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV), em Mortágua, Goofy - nome que lhe assenta - é um dos cães integrados no "Estou CãoTigo". Criado em 2022, o projeto surgiu para enfrentar a solidão, o isolamento social e o declínio físico e emocional na população idosa. Assenta em intervenções estruturadas com cães, conduzidas por uma equipa técnica especializada, e chegou a Penacova em outubro de 2025, através de um protocolo com a Câmara Municipal; decorre também em Mortágua e na Mealhada.

Combater o isolamento dos mais velhos com o "Estou Cãotigo"

"Este projeto visa proporcionar envelhecimento ativo e saudável e, neste caso, aqui também o combate ao isolamento", explicou o vereador da Educação e Ação Social de Penacova, Carlos Sousa. "O programa em duas vertentes. Uma individual e outra para instituições, onde se fazem sessões em grupo." A autarquia suporta os encargos e garante que "não ter por hábito abandonar projetos", admitindo a renovação quando terminarem os três primeiros anos do "Estou Cãotigo".

Em cima de uma mesa de apoio, ao lado de uma imagem de Senhora da Piedade - a amparar nos braços Jesus Cristo retirado da cruz -, está o botão de pânico. Palmira usa pacemaker e não pode trazer o dispositivo ao peito: as tecnologias entram em conflito. Se o coração impõe limites, a cabeça continua atenta. Conhece de cor a vida dos netos, da mais nova, que frequenta o 11.º ano, ao mais velho, que mora "com uma francesa" em França. E recorda, sem hesitar, o percurso de cada um dos seis filhos de segunda maternidade que criou na aldeia.

"Vivia muita gente aqui", lamenta. Hoje, há menos moradores, num quotidiano marcado pelo ir e vir da modernidade entre casa e trabalho. O "Estou Cãotigo" transforma-se numa presença e num intervalo de distração, capaz de aliviar a tristeza, ainda que o preto continue a ser a sua escolha diária. "Gostava que viesse mais vezes, mas sei que têm mais pessoas para visitar", reconhece.

Em Penacova desde outubro de 2025

A carrinha da Escola de Cães-Guia para Cegos volta à estrada e segue para Coiço, lugar da mesma freguesia de Carvalho. No largo da aldeia, o ambiente já é de festa: decoração montada, música a tocar, bar pronto a funcionar e a capela de Santo António preparada para as celebrações do padroeiro.

Gina Ferreira liga a ficha e as luzes da capela acendem-se. "Foi o meu pai que fez isto tudo sozinho", diz, com orgulho, apontando para uma réplica da capela de Santo António, toda em madeira. Nelson mantém a peça pousada sobre um pipo de vinho, numa divisão fresca da casa, a meio caminho entre sala comum e adega.

"O sino toca e tudo", recorda o autor do trabalho. Numa cadeira de rodas, Nelson Ferreira anima-se assim que vê o cão aproximar-se. "Oh, Kayë, anda cá", diz, comovido. "Anda cá, anda", insiste.

Nelson estava mais habituado ao "Herói", o preferido da esposa. Atualmente internada nos Hospitais Universitários de Coimbra (HUC), ela foi das primeiras a aderir ao "Estou Cãotigo", em outubro de 2025. Nelson juntou-se ao projeto desde o Natal. Com frequência quinzenal, as sessões "procuram estimular a memória, promover o movimento, potenciar emoções positivas e reforçar o bem-estar emocional, contribuindo para melhorias efetivas na qualidade de vida e saúde mental dos idosos", esclarece a ABAADV.

Kayë usa um colete de ganga com velcro, onde estão fixos cartões brancos plastificados. Nelson retira um e lê "biscoito amarelo". A técnica orienta-o na escolha de um doce dessa cor, que ele entrega ao cão. O exercício "estimula a leitura e a comunicação", explica Mafalda Vicente, Gestora de Projetos e presidente da ABAADV. "E os membros superiores", acrescenta Rita Nobre, sublinhando também a importância dos comandos. "Assenta", diz Nélson, depois de ler outro cartão - e o animal cumpre.

"Isto é mais um entretém para o meu pai", nota Gina Ferreira, que sai cedo para trabalhar e só regressa ao fim do dia. Sem disponibilidade para estar sempre presente, é uma prima, Isabel Alves, quem cuida de Nélson, agora numa cadeira de rodas, depois de 10 anos a acompanhar a mulher, parcialmente paralisada por um AVC. "Reage bem ao cão. Gosto de ver", afirma a cuidadora. "E é uma coisa que também o distrai", acrescenta. "Até a nós", remata Gina.

Animais com passado e futuro a ajudar os humanos

Kayë tem sete anos e destaca-se pela tranquilidade, na medida em que isso pode aplicar-se a um cão. "Já foi cão-guia", lembra Mafalda Vicente. Entretanto, foram identificados episódios moderados de epilepsia, motivo pelo qual saiu do programa de apoio a pessoas cegas. "O cão-guia tem de ter um perfil de comportamento e de saúde específico", reforça a presidente da direção da ABAADV.

"Os cães-guia. São ensinados a resistir a outros animais. Sejam cães, gatos, aves", detalha Mafalda Vicente. Entretanto, entra Mike, um dos cães de Gina Ferreira, e Kayë quase não reage. Cheira discretamente o conhecido, enquanto a dona incentiva os dois a repetirem truques. Entre "Senta" e "Dá a pata", acaba por surgir um pequeno dueto canino, com ambos a mostrar o que aprenderam.

Goofy tem um problema discreto na anca - só reparável por quem sabe o que procurar - e um temperamento tão alegre quanto o nome sugere. É um brincalhão sem filtros que, em pequeno, tinha o vício de roer pedras; um pateta, no sentido português do batismo inglês. "Quando não é possível fazer aquilo para que eram treinados, ficam na mesma com uma tarefa solidária", diz Palmira Vicente.

Os cães são preparados desde o nascimento para apoiar pessoas cegas. Mal abrem os olhos, começam a habituar-se ao contacto humano. Aos três meses, entram no programa, onde são testadas as aptidões para cão-guia. No total, a Escola de Cães-Guia para Cegos, em Mortágua, forma 16 animais por ano, em grupos de quatro de cada vez.

"Investimento estratégico" num concelho que aposta na juventude

Para a Câmara de Penacova, o "Estou Cãotigo" é visto como "um investimento estratégico". A autarquia realça também o Clube Sénior, iniciativa que promove oficinas em vários locais do concelho. Existem sete polos ativos, que abrangem mais de 300 pessoas, com atividades nas áreas do digital, atividade física, criação, inglês e música.

"Funcionam todas em dias distintos, mas multiplicadas nos sete polos, de segunda-feira de manhã até sexta-feira à tarde", explica o vereador da Educação e Ação Social, Carlos Sousa. "Proporcionamos transporte a todos. E aí, de facto, é um grande investimento. Temos, neste momento, dois autocarros e dois motoristas adstritos a tempo inteiro ao Clube Sénior", acrescenta.

Em Penacova, as escolas têm horário alargado, das 7.30 às 19 horas. "Isto implica dois turnos de funcionários, mas é a forma que temos para captar os alunos para o concelho", afirma Carlos Sousa. Num território em que a maioria trabalha em Coimbra, o município concluiu que, sem alternativa, muitas famílias colocariam os filhos a estudar fora. "Temos que dar tempo às pessoas de irem trabalhar e voltar."

O prolongamento de horário funciona em duas modalidades: uma assente em protocolos com Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do concelho e outra, nos locais onde não existem IPSS, assumida diretamente pelo município. "E isto é um grande investimento", frisa Carlos Sousa. "Entre o que recebemos ao abrigo da transferência de competências e o que que custa, temos um défice anual de meio milhão de euros. Que tem de sair do orçamento da Câmara", concluiu o vereador da Ação Social e Escolar.

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