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Voluntarismo e participação cívica na Juventude Social Democrata (JSD)

Jovens a conversar numa praça urbana, com materiais de votação e folhas coloridas nas mãos.

A campanha na Juventude Social Democrata (JSD) e a candidatura de Clara de Sousa Alves

Nos últimos meses, estive envolvido numa campanha interna da Juventude Social Democrata (JSD). Foi um processo duro, acelerado e muito exigente - mas, sobretudo, verdadeiro. Dei o meu apoio a Clara de Sousa Alves numa candidatura montada a partir de trabalho voluntário, sentido de missão e uma ideia que, apesar de tudo, continua a justificar ser defendida: a de que a política pode, ainda, nascer do compromisso cívico e não apenas de cálculo individual ou de gestão de carreira.

Aquilo que vivi foi, ao mesmo tempo, estimulante e esclarecedor.

Foi estimulante porque vi dezenas de jovens disponíveis para abdicar de tempo, de conforto e, inevitavelmente, de recursos próprios por uma causa em que acreditavam. Pessoas que passaram noites inteiras a preparar propostas, a promover encontros, a debater ideias e a levantar uma moção ambiciosa para o futuro da organização - sem expectativa de retorno material e sem qualquer garantia de lugar mais à frente. Num tempo dominado pelo imediatismo e pela lógica da compensação constante, este tipo de entrega tornou-se pouco frequente e, precisamente por isso, politicamente significativo.

Talvez por isso tenha sentido um orgulho particular nesta campanha.

Independentemente do desfecho, nela observei algo que hoje já não é comum: gente movida por convicção autêntica, pronta a trabalhar sem recompensa imediata e capaz de acreditar que continua a fazer sentido investir tempo e energia numa causa coletiva. Jovens que persistem em olhar para a política como serviço - e não apenas como instrumento de progressão pessoal.

O recuo do voluntarismo na sociedade portuguesa

Mas esta experiência também serviu para evidenciar uma mudança mais funda na sociedade portuguesa. O voluntarismo - entendido não só como disponibilidade para ajudar, mas como predisposição real para participar de forma desinteressada na vida coletiva - parece estar a encolher. E não apenas dentro da política partidária: também nas associações académicas, nas coletividades locais e nos movimentos cívicos.

Mobilizar pessoas para tarefas que pedem dedicação continuada e que não oferecem retorno imediato, visibilidade individual ou uma utilidade curricular óbvia tornou-se progressivamente mais difícil.

Perdeu-se, em parte, a noção de que pertencer a uma comunidade traz responsabilidades. A participação deixou, muitas vezes, de ser encarada como dever cívico e passou a funcionar segundo uma lógica estritamente transacional: cada compromisso é pesado antecipadamente em função do benefício pessoal que pode produzir.

Há poucas décadas, milhares de portugueses reservavam uma fatia relevante do seu tempo para associações locais (bandas filarmónicas, bombeiros voluntários, mordomias, etc), clubes recreativos (motociclismo, futebol, caça, etc), organizações estudantis e juventudes partidárias. Faziam-no não por esperarem reconhecimento ou projeção futura, mas porque percebiam que uma comunidade só opera quando há disponibilidade para assumir encargos comuns. Existia, naturalmente, ambição individual, mas ela convivia com uma cultura de serviço e de compromisso coletivo que hoje parece cada vez mais frágil - ao mesmo tempo que a ambição pessoal se intensifica.

Vivemos numa sociedade cada vez mais individualizada, imediatista e funcionalizada, onde quase tudo tende a ser avaliado pela sua utilidade direta. A ligação duradoura transformou-se em exceção e o sacrifício sem interesse próprio passou, por vezes, a ser interpretado como ingenuidade.

Hoje, demasiadas vezes, a pergunta já não é "como posso ajudar?", mas "o que ganho com isto?".

O impacto na democracia e nas estruturas juvenis

As consequências desta mudança não são pequenas. Nenhuma democracia saudável se sustenta apenas com profissionais da política, tal como nenhuma associação resiste sem voluntários, e nenhuma comunidade prospera quando todos ficam à espera de que sejam “os outros” a carregar o esforço necessário. Quando o espírito de participação se desgasta, não são só as organizações que ficam mais pobres: a própria cultura democrática perde densidade.

As estruturas juvenis partidárias também não escapam a esta tendência. Em diversos casos, o debate de ideias vai cedendo lugar à gestão antecipada de percursos, à valorização da proximidade aos centros de decisão, ao cálculo de equilíbrios internos e a sucessões definidas à partida. Quando isto acontece, a política perde parte da sua capacidade transformadora e passa a ser apenas mais um mecanismo de reprodução social.

A reflexão central é esta: uma sociedade em que ninguém está disposto a fazer seja o que for sem receber algo em troca é uma sociedade que, inevitavelmente, vai perdendo o sentido de comunidade, de pertença e de responsabilidade coletiva. Recuperar esse impulso não depende apenas da política, mas dificilmente existirá boa política sem ele.

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