No Ocidente, é habitual olharmos com desconfiança para empresas recém-chegadas que anunciam metas quase irreais, com projeções de crescimento exponencial e volumes de vendas que prometem colocá-las, em tempo recorde, no topo de qualquer indústria (mesmo quando, mais tarde, se venha a provar que tinham razão).
Foi assim na década de 1990 com as marcas automóveis sul-coreanas - Hyundai e Kia - quando começaram a afirmar-se, e é assim hoje com os construtores chineses, cujas vendas estão a disparar. Trata-se de um fenómeno explicado, em grande medida, pelo peso do seu mercado interno (com mais de 26 milhões de automóveis de passageiros matriculados por ano, é o maior do mundo) e, mais recentemente, pelos bons resultados obtidos noutros mercados.
A BYD tem pouco mais de duas décadas de história como fabricante de automóveis, mas está a quebrar recordes de crescimento e poderá, já este ano, tornar-se no terceiro maior construtor do planeta. As 5,5 milhões de unidades estimadas deverão ser suficientes para ultrapassar a Ford no pódio, ficando à sua frente apenas a Volkswagen e a líder Toyota.
Em 2025, consolidou também a subida a líder mundial entre fabricantes de automóveis elétricos, passando à frente da Tesla - 1,6 milhões de BYD nos três primeiros trimestres de 2025 contra 1,22 milhões da rival norte-americana, em queda desde que o seu líder errático reforçou as suas crenças de extrema-direita -, algo que já se adivinhava pelos resultados comerciais de ambas no último trimestre de 2024.
Há várias leituras possíveis para este sucesso, mas dois fatores sobressaem: por um lado, o facto de a China ser o maior mercado automóvel do mundo; por outro, a internacionalização das marcas domésticas estar finalmente a ganhar consistência, impulsionada pela transição para a era elétrica.
O domínio da tecnologia elétrica, a contratação de saber-fazer europeu em design e produção, o orgulho chinês em produtos nacionais de gama alta e a evolução do consumidor europeu para critérios mais racionais e ecológicos são vetores centrais para compreender a força atual da China neste setor.
Uma mulher de armas
Poucos preveriam que a jovem determinada Stella Li - que, no início deste século, percorria os EUA a convencer empresas de eletrónica a substituir baterias japonesas por alternativas chinesas (incluindo Nokia e Motorola) - viria a tornar-se uma das figuras mais influentes do gigante chinês.
Hoje, Stella Li conserva a mesma ambição e firmeza ao comandar a expansão internacional da BYD na Europa, como pessoa de confiança do presidente e fundador, Wang Chuanfu: “o mercado europeu é o mais importante para nós porque é onde estão os rivais e os clientes mais exigentes do mundo e tendo sucesso aqui, conseguiremos ter também noutras regiões”, afirma Li, com grande convicção.
A ideia faz lembrar a lógica de Frank Sinatra quando cantava “se eu conseguir vencer ali, consigo vencer em qualquer lugar”, ainda que, no seu caso, estivesse a referir-se à cidade de Nova Iorque.
O êxito da BYD no fabrico de baterias abriu caminho ao arranque da produção de automóveis, em 2003, num contexto em que surgiam na China muitas dezenas de novas marcas todos os anos - a maioria destinada a desaparecer. Aqui, porém, o desfecho foi outro.
Em 2024, as vendas globais da BYD atingiram 4,27 milhões de unidades (somando elétricos e híbridos de carregamento externo), o que a colocou como líder mundial no total combinado destes dois tipos de motorização, que na China são designados por NEV (sigla de “Veículos de Novas Energias”).
O desempenho do grupo nas várias áreas em que atua (transporte ferroviário, eletrónica, baterias e, naturalmente, automóveis, com 30 unidades de produção espalhadas pelo mundo) valeu-lhe a entrada na seletiva lista Forbes Global 500 (91.ª posição, quando era 436.ª três anos antes…). E os seus automóveis já são comercializados em nada menos do que 117 países.
A Europa na mira
Quando chegou ao continente europeu, há dois anos, era praticamente uma desconhecida: vendeu apenas 16 mil automóveis. Em 2025, deverá aproximar-se das 200 mil unidades, mais do dobro das matrículas registadas no ano passado.
O construtor ganhou especial visibilidade ao assumir-se como principal patrocinador do Campeonato Europeu de Futebol 2024. Foi um investimento enorme (entre os 30-50 milhões de euros) que dificilmente poderia ter sido suportado apenas pelo orçamento de comunicação da divisão europeia, então ainda numa fase inicial.
Um dos motores do sucesso da BYD no automóvel é a procura contínua de inovação tecnológica, como sublinhava o seu consultor sénior europeu, Alfredo Altavilla (ex-Stellantis): “nunca vi um fabricante de automóveis com 120 mil engenheiros, como a BYD tem. A empresa tem um nível de conhecimento tecnológico de propulsão elétrica muito superior ao de qualquer outra marca de gama alta. E é esse saber-fazer é o que define a sua superioridade”.
Todos os dias, a empresa regista dezenas de novas patentes (em média 45 por dia útil, num total de mais de 65 mil), que rapidamente chegam aos seus automóveis produzidos em série.
Entre os exemplos contam-se a bateria LFP “Blade”, o CTB (Célula-para-Carroçaria) - baterias integradas na carroçaria -, a tecnologia híbrida de carregamento externo DM-i (até 2100 km de autonomia no ciclo chinês CLTC), o sistema inteligente de controlo da carroçaria DiSus, várias plataformas (e-Platform 3.0, e4, DMO Super Hybrid), entre outras.
Tecnologia útil
As tecnologias referidas acima traduzem ganhos concretos face a muitos concorrentes e vão muito além de argumentos de promoção. Um caso é a plataforma e3 do Denza Z9 GT, que permite gerir todos os atuadores do veículo (travões, suspensão, motor e direção) com tempos de resposta de apenas 10 milésimos de segundo.
Na prática, isto possibilita que, se um pneu rebentar a alta velocidade (180 km/h), as rodas traseiras mantenham uma direção neutra e que o binário dos três motores seja ajustado. A travagem combinada e a direção traseira tornam ainda possíveis rotações de 360°. Há poucos meses, assisti a uma demonstração destas duas funcionalidades e os resultados foram convincentes.
De pequena fabricante de baterias à maior marca de automóveis elétricos do mundo, a BYD ultrapassou as próprias metas - como sugere o seu lema, Constrói os teus sonhos. E, agora, o mundo acompanha, entre o espanto e a curiosidade, tentando perceber se - ou quando - poderá tornar-se a marca automóvel n.º 1 do mundo.
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