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Rodrigo Guedes de Carvalho, podcasts e o “podecaste”: no “Princípio da Inquietação”

Homem adulto a falar num microfone de estúdio, com auscultadores e caderno aberto à frente numa mesa de madeira.

Rodrigo Guedes de Carvalho e a minha resistência aos podcasts

Nunca tive um podcast, não tenho e, sinceramente, acho pouco provável vir a ter. Há duas razões essenciais: por um lado, não me vejo a manter emissões atrás de emissões, partindo do princípio de que a minha vida - ou a minha maneira de olhar para o mundo - interessará muito pouco a quem quer que seja; por outro, e em coerência com isso, tenho a sensação de que uma parte considerável dos podcasts é exactamente este exercício autoral que já roça o autoprazer. Aos meus ouvidos, perdoem-me a impaciência, são muitas mensagens e respostas a coisas e loisas que eu não perguntei.

O remédio é simples, dirão vocês - e com toda a razão. Não consumir. É o que faço quase sempre, normalmente depois de uma única escuta. E, curiosamente ligado ao que me traz hoje aqui, reencontrei há tempos um texto antigo a que nunca dei continuidade: um disperso, como se chama a estes pensamentos meio caóticos, anotados sem critério nem finalidade clara. Até me ocorreu somar um “e” ao fim de podcast, só para a palavra rimar melhor.

O “podecaste” (um disperso) que ficou por acabar

O texto dizia assim: “Não sei se já reparaste que eu tenho um podecaste. Ninguém o pediu, é verdade, mas eu… sabes como é… nem é cedo nem é tarde, está na hora porque lá fora de certeza vão gostar de saber que partilho a minha esperteza e bom senso. É imperioso que o mundo ouça o que penso. Não sei se já reparaste que eu agora tenho um podecaste. Onde falo imenso, afinal, sobre tudo o que está mal, sobre o que gosto e detesto, e em tudo sou modesto.

Tenho conselhos para todas as idades. Os novos, os velhos e até os fedelhos de boas maturidades. Porque hoje em dia os 60 são os novos 50, os 40 são os novos 20 e tais, e quem não tem mais de 19 ainda nem nasceu - até me comove. Escuta como sou pioneiro, sinto que sou o primeiro a dizer tantas coisas. Sou o domador do tempo que foge, sou o futuro hoje. Sou todo pelo próximo, tão-pouco pela minha pessoa. Sou tão boa pessoa, mas tão boa, que por vezes até me beijo na mão, e dou aula de auto-amor na próxima emissão. Não sei se já escutaste o meu espantoso podecaste. Eu nem queria, foi uma amiga que me disse - enfim - que o mundo precisa de mim. Sou arguto e astuto. Sou todo atento aos demais, tão inteligente e sensível, e outras coisas que tais. Partilho sentimentos e emotivos momentos a fingir-me preocupado. Não sei se já reparaste no meu podecaste. Sou uma reza em voz alta, eu é que levanto as questões que faziam falta, e invento o fogo e a roda outra vez. E ainda explico o que são todas as coisas que vês. E mais anuncio como originais coisas e loisas banais. Tudo o que já foi visto ou dito - é tudo isso que repito. Sou, sem assumir, plagiador de cliché. Aquele que não é mas finge que é, o primeiro com jeito para fazer o que ainda não foi feito. Vá lá, escuta o meu podecaste. Ensino-te a lidar com o que não superaste, ouve bem, ouve bem o que digo ao microfone do computador, sentadinho na cadeira onde computo a dor, essa dor tão tamanha que eu finjo que me dói na entranha, fica mais dramático, e empático, e é mais prático para seduzir o ouvinte.”

O convite para o podcast “Princípio da Inquietação”

E então aconteceu que, num destes dias bons e recentes, me chegou um convite improvável para ir a uma dessas emissões - que, hoje, quase sempre já vêm com o respectivo acompanhamento em vídeo, o que as deixa, de uma assentada, com um pé na velha rádio e o outro na televisão.

Cada vez mais me parecem tubos de ensaio de um amanhã em que cada pessoa terá o seu canal privado, de onde emitirá o que entende por entretenimento e o que entende por informação. É um cenário anunciado há muito, desde as primeiras distopias longínquas, ainda mais impressionantes por terem sido escritas num tempo em que a tecnologia era incipiente.

Disse que sim por conveniência e por curiosidade. Conveniência, porque a gravação seria exactamente no sítio onde eu já estaria, na data marcada, a ler ao microfone o meu romance para a versão em audiolivro. E curiosidade, porque o desafio era - literalmente - filosófico. Não é força de expressão: eram dois filósofos a perguntar a um jornalista e escritor se queria ir conversar com eles sobre o que viesse. Sobre o mundo que nos tocou e o lugar que nele ocupamos. E, no centro do tabuleiro, duas palavras: interrogação e verdade.

Nada de “como é o Rodrigo longe das câmaras?”, nada de “sente-se mais jornalista ou escritor?” ou “que conselho daria a um jovem?”. Foi uma hora luminosa, que muita falta me fazia

Não houve “como é o Rodrigo longe das câmaras?”, nem “sente-se mais jornalista ou escritor?”, nem “que conselho daria a um jovem que quer seguir o mesmo caminho?”. Foi uma hora clara, de que eu precisava muito - como uma massagem terapêutica em ombros cansados -, um desafogo para o ânimo e para a alma. Dois perguntadores e um respondedor acabaram baralhados no melhor sentido: plantou-se ali muito mais interrogação do que conclusão.

À cumplicidade já conhecida entre filosofia e literatura somou-se o jornalismo - que defenderei até ao fim da vida com a determinação de quem insiste que ele pode, deve e tem de ser discutido por quem ainda o pratica. O podcast já anda por aí; chama-se “Princípio da Inquietação” e só acolhe os mesmos que um grande escritor, um dia, descreveu: os que ainda não se curaram do espanto de existir.

Rodrigo Guedes de Carvalho escreve segundo a antiga ortografia

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