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Emirados Árabes Unidos: a estabilidade do Dubai em choque com a guerra com o Irão

Homem árabe a olhar pela janela de um escritório com vista para arranha-céus e estrada movimentada em Dubai.

Na madrugada de 28 de fevereiro, enquanto circulavam as imagens das explosões gigantes em Teerão provocadas pela ofensiva americano-israelita contra o Irão, outras gravações - bem menos trágicas - ganhavam tração. Em plataformas como Instagram e TikTok, estrangeiros residentes no Dubai publicaram vídeos de rotinas luxuosas interrompidas, de repente, pelo estrondo das explosões associadas aos mísseis e drones lançados pelo Irão contra os Emirados Árabes Unidos. Houve quem filmasse edifícios a arder e colunas de fumo em diversos pontos da cidade. Outros limitaram-se a lamentar o incómodo de um aeroporto encerrado depois de uma explosão ter atingido um dos terminais e ferido quatro pessoas. Em vários hotéis de cinco estrelas, hóspedes foram conduzidos para parques subterrâneos e acabaram por passar a noite em colchões - os mesmos que, em dias normais, serviriam para apanhar sol junto à piscina. De apartamentos de luxo, também se registaram os riscos luminosos de mísseis a cortar o céu noturno.

Mais do que qualquer outro país do Golfo Pérsico, os Emirados Árabes Unidos vendem-se ao mundo como um refúgio de estabilidade e liberalismo económico numa zona marcada por crises. O Estado é, na prática, uma federação de sete pequenos emirados, com Abu Dhabi como capital. Uma passagem pelo Dubai - o mais global e mediático - chega para ouvir o entusiasmo de muitos expatriados atraídos pelo que descrevem como uma autocracia benevolente: pouca burocracia, salários competitivos, segurança total e um clima agradável.

A tensão central do país está, porém, na diferença entre o conforto que promove dentro de portas e a instabilidade que ajuda a projetar para fora. Há cerca de década e meia que se envolve em conflitos que têm contribuído para desestabilizar a região, com custos humanitários severos. Na Líbia, no Iémen e no Sudão, Abu Dhabi tem apoiado milícias associadas a crimes de guerra e a confrontos internos que fraturam Estados. Em regra, esse patrocínio surge em troca de acesso a matérias-primas e para assegurar controlo sobre pontos-chave do comércio marítimo. Não foram os Emirados Árabes Unidos a dar início a uma guerra com o Irão. Ainda assim, pela primeira vez desde que se tornou um dos países mais ricos do planeta, a realidade geopolítica - que esta monarquia do Golfo procura muitas vezes moldar de forma discreta - está a chocar de frente com a narrativa interna de prosperidade contínua.

Durante séculos, o território que hoje forma os Emirados Árabes Unidos funcionou como entreposto comercial. Entre o deserto e o Golfo Pérsico, pequenas comunidades costeiras sob distintos xeques viviam do tráfego marítimo, da pesca e da apanha de pérolas. Para proteger as rotas de ataques de pirataria locais, o império britânico negociou tratados com esses líderes e, a partir de 1820, passou a exercer controlo político e militar sobre a área. Aos chamados Estados da Trégua foi imposta uma camada de colonialismo que, sem interferir excessivamente na vida quotidiana, preservava as famílias dominantes e assegurava os interesses britânicos.

Esses acordos mantiveram-se por mais de um século. Sob tutela de Londres, estes territórios delegavam decisões relevantes de política externa e comercial, recebendo em troca acesso a uma rede de portos. A relação ajudou a evitar que as pequenas monarquias do Golfo Pérsico fossem absorvidas por potências vizinhas - sobretudo pela Arábia Saudita, quando a família Al-Saud iniciou a unificação da península arábica durante a I Guerra Mundial. Nas décadas seguintes, continuaram como pontos modestos de passagem e negócio em rotas marítimas estratégicas. Em 1950, por exemplo, o Dubai tinha 20.000 habitantes e Abu Dhabi menos de 5000. Já em meados do século XX, os xeques dos vários emirados começaram a reunir-se para articular a governação regional.

A independência da Índia e a perda do controlo do Canal do Suez aceleraram a retirada britânica da zona. Num esforço para cortar despesa pública, Londres anunciou em 1968 que abandonaria os pequenos Estados do Golfo em 1971. Nesse ano, seis dos sete Estados da Trégua formalizaram uma união política e fundaram os Emirados Árabes Unidos. Ras al-Khaimah, o sétimo emirado, aderiu à federação no ano seguinte. Ao lado, Catar e Barém seguiram o caminho da soberania.

Explosão Económica

À entrada do século XXI, os Emirados Árabes Unidos já se afirmavam como potência regional, com aspirações muito superiores à sua dimensão territorial. Alimentado pelas receitas do petróleo e do gás, Zayed bin Sultan Al Nahyan apostou fortemente em infraestruturas. A expansão acelerada da Emirates e a atividade no porto de Jebel Ali consolidaram o Dubai como plataforma de comércio e finanças entre Europa, África e Ásia. A criação de zonas industriais de livre comércio e o desenvolvimento de um sector de serviços financeiros atraíram capital para logística, comércio internacional e, mais tarde, imobiliário, trazendo empresas da região e de fora dela.

Em paralelo, o país começou a adquirir concessões em terminais portuários por todo o mundo, apoiando-se no fundo soberano Dubai World e na empresa de logística DP World. Essa malha de portos abrange hoje mais de quarenta países, incluindo Reino Unido, Canadá, Brasil, Jibuti, Moçambique, Índia, Bélgica, China, Filipinas, Indonésia ou Coreia do Sul. Com isso, os Emirados garantiram presença em corredores marítimos críticos, como o Canal do Suez, o estreito de Ormuz e o estreito de Bab El-Mandeb, porta de entrada para o Mar Vermelho.

O resultado foi, em particular para o Dubai, a construção de um horizonte económico menos dependente da energia. Além disso, ao controlar infraestrutura portuária em escala global, os Emirados aumentaram o seu peso geopolítico. Foi também no início do século XXI que se tornou evidente, para Abu Dhabi, a necessidade de investir influência em Washington, tanto pela supremacia económica dos Estados Unidos como pela multiplicação de bases militares americanas no Médio Oriente.

Depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque - em que dois dos atacantes eram cidadãos dos Emirados -, esse esforço intensificou-se. O episódio levou a liderança a apertar o cerco a quaisquer manifestações de conservadorismo islamista dentro das fronteiras e a aprofundar a cooperação de segurança e defesa com os EUA. Com o tempo, diplomatas em Washington trabalharam para reforçar a imagem do país como centro económico e, em simultâneo, como exemplo de moderação diplomática.

Ainda assim, Abu Dhabi não se limitou ao eixo ocidental. Ao mesmo tempo que se projetava na região, estreitou laços com China, Rússia e Índia. E, ainda hoje, evita alinhar-se de forma exclusiva nas grandes crises diplomáticas, como a invasão da Ucrânia pelo exército russo. “Num mundo multipolar, os Emirados conseguiram seguir uma política com vários parceiros, que reduz a dependência numa só potência”, conta ao Expresso Ibrahim Jalal, investigador do Middle East Institute, sedeado em Washington.

A capacidade de manter esta rede de alianças foi sustentada por recursos extraordinários. Com uma produção diária de 2,5 a 3 milhões de barris de petróleo por dia e cerca de 5,6 mil milhões de metros cúbicos de gás natural, os Emirados Árabes Unidos estão entre as grandes potências energéticas. A fatia maior dessa riqueza concentra-se em Abu Dhabi. Porém, como a população é reduzida, os recursos têm sido distribuídos com relativa facilidade pelos sete emirados. Quando a crise financeira de 2008 ameaçou empurrar o conglomerado Dubai World para a falência, foi Abu Dhabi que avançou com os 10 mil milhões de dólares necessários para resgatar a empresa - e, em grande medida, o próprio Dubai.

A Primavera Árabe

As revoltas populares de 2011 e o caos que se seguiu na região alarmaram os Emirados Árabes Unidos e outros reinos do Golfo. A queda de regimes autoritários na Tunísia, no Egito e na Líbia - estruturas que pareciam indestrutíveis - expôs a vulnerabilidade comum. Depois de anos a cultivar proximidade com Washington, Abu Dhabi sentiu-se traída quando Barack Obama deixou cair o Presidente egípcio Hosni Mubarak ao fim de semanas de protestos. A inquietação aumentou no ano seguinte, com a eleição de Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Em eleições no Egito, na Tunísia, em Marrocos e na Jordânia, o ciclo das revoltas árabes reforçou o islão político em toda a região.

Nas monarquias do Golfo, a resposta aos protestos combinou mais despesa pública, uma repressão ainda mais dura da liberdade de expressão e um apelo constante à estabilidade monárquica. Ainda assim, as autoridades dos Emirados perceberam o risco que a vaga de sublevações colocava à sua legitimidade. Nos anos seguintes, em conjunto com a Arábia Saudita e com o que restava do sistema de Hosni Mubarak, os Emirados passaram a integrar o núcleo das forças contrarrevolucionárias. “Foi depois de ver esse período de instabilidade que os Emirados Árabes Unidos viram várias oportunidades de intervir pela região”, conta ao Expresso Anas Abdoun, analista de política e economia regional. “Era um país pequeno com enorme poderio financeiro que poderia influenciar os acontecimentos no terreno.”

No Barém - país de maioria xiita governado por uma elite sunita -, milhares de pessoas saíram para exigir o fim da monarquia de Hamad bin Isa Al-Khalifa. A 14 de março, cerca de mil soldados sauditas e 500 polícias dos Emirados Árabes Unidos desembarcaram na ilha para travar a revolta. Nesse mesmo mês, a mais de quatro mil quilómetros, aviões dos Emirados juntaram-se à campanha aérea da NATO para apoiar os rebeldes líbios na queda de Muammar Kadhafi. Abu Dhabi encarou a intervenção como oportunidade para aprofundar relações com países da NATO e, ao mesmo tempo, influenciar as milícias que disputariam o pós-Kadhafi.

O Iémen acabou por se fragmentar, com fações a dominar regiões distintas; no sul, Abu Dhabi financiou e treinou milícias

A partir de 2014, Abu Dhabi aproximou-se do general Khalifa Haftar, antigo quadro do regime de Kadhafi que passara anos exilado nos Estados Unidos e colaborara com os serviços secretos americanos. Instalado no Leste, Haftar, através do seu Exército Nacional da Líbia, derrotou vários grupos islamistas em Benghazi e arredores e consolidou depois um regime autoritário concorrente ao poder sediado em Trípoli. Desde então, os Emirados Árabes Unidos, com Egito e Rússia, têm fornecido apoio logístico e militar, incluindo durante a tentativa falhada de tomar Trípoli entre 2019 e 2020. A Líbia mantém-se, até hoje, dividida entre dois governos.

Quando protestos populares, galvanizados pelo exército, ameaçaram o Governo eleito de Mohamed Morsi no Egito, Abu Dhabi esteve entre os primeiros a apoiar o golpe de Abdel Fattah El-Sisi, no verão de 2013. Depois, Emirados e Arábia Saudita investiram milhares de milhões de dólares para sustentar a nova ditadura militar. Na Síria, a atuação de Abu Dhabi oscilou. Com a população nas ruas contra Bashar al-Assad, os Emirados apoiaram grupos armados que enfrentariam as forças do regime. “Quem mata o próprio povo não pode ficar no poder”, disse em 2014 o xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum, líder do Emirado do Dubai, e vice-presidente e primeiro-ministro do país. Em conjunto com Arábia Saudita, Catar e Estados Unidos, Abu Dhabi enviou dinheiro e armas para a oposição síria, privilegiando o Exército Livre da Síria e outros grupos seculares.

A subida de milícias islamistas na guerra civil síria, contudo, arrefeceu esse apoio. Quando a força aérea russa interveio para salvar Assad em setembro de 2015, Abu Dhabi acolheu positivamente a operação. Moscovo apresentou os bombardeamentos como direcionados apenas ao Estado Islâmico, mas atingiu repetidamente forças da oposição secular, zonas civis e hospitais. Com a ajuda da aviação russa, de conselheiros militares iranianos e de combatentes do Hezbollah, o regime de Bashar al-Assad resistiu, sobreviveria à guerra e deixou o país devastado.

No final de 2018, os Emirados tornaram-se o primeiro Estado da região a normalizar relações com o regime sírio, reabrindo a embaixada em Damasco. O sinal - assumir que Bashar al-Assad permaneceria no poder - empurrou outros países a readmitirem o presidente na Liga Árabe. A aposta, porém, falhou. Nos anos seguintes, tentativas de mediar um compromisso entre regime e oposição não avançaram. Em finais de 2024, uma ofensiva rebelde liderada pelo grupo islamista Hayat Tahrir al-Sham, liderado por Ahmed al-Sharaa, saiu de Idlib, no norte da Síria, e derrubou o regime em poucas semanas.

Guerra Civil Sudanesa

É no Sudão, talvez, que a projeção externa dos Emirados Árabes Unidos se revelou mais danosa. Desde abril de 2023, a guerra entre o exército sudanês liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan e as Rapid Support Forces (RSF), força paramilitar chefiada pelo general Hamdan Dagalo, tem-se prolongado. Em dois anos, o conflito matou mais de 150 mil pessoas e forçou 12 milhões a deslocarem-se. Multiplicam-se sinais de apoio dos Emirados às RSF, acusadas de crimes de guerra. Pouco após o início da guerra, um painel de especialistas do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) detetou mais de oitenta voos de cargueiros entre o Aeroporto Internacional de Abu Dhabi e o pequeno aeroporto de Am Djarass, no leste do Chade. O painel recolheu testemunhos segundo os quais esses voos transportaram armamento, munições e equipamento médico para as RSF.

De acordo com o relatório do Conselho de Segurança, o material seria depois encaminhado pela fronteira até ao Darfur e entregue ao grupo paramilitar. Entre o armamento enviado às RSF estariam metralhadoras, drones e mísseis antiaéreos. Também a Amnistia Internacional divulgou que, após um ataque das RSF, foram encontradas no terreno bombas inteligentes largadas por drones de fabrico chinês, e que esses drones teriam sido fornecidos pelos Emirados Árabes Unidos. O envio de armas para o Sudão - e em particular para o Darfur - contraria o embargo de armas renovado pela ONU em setembro de 2025.

Segundo a ONU e várias investigações jornalísticas, é igualmente através dos Emirados Árabes Unidos que empresas criadas e controladas pelas RSF fazem circular fundos para sustentar a guerra e escoam ouro extraído ilegalmente das minas sob controlo da milícia no Sudão, para ser ‘lavado’ no mercado aurífero do Dubai. Outros indícios, como passaportes de cidadãos dos Emirados encontrados entre destroços de veículos militares depois de confrontos em Omdurmã, sugerem a presença de adidos militares de Abu Dhabi no conflito. Reportagens em meios de comunicação colombianos indicaram ainda que, através dos Emirados - com recurso a bases no Leste da Líbia e em Bosaso, na Somália -, dezenas de mercenários colombianos foram enviados para o Sudão para treinar e combater ao lado das RSF. Estas investigações revelaram vídeos desses mercenários a darem instrução militar a crianças que lutam pelas RSF.

Apesar do volume de provas, indícios e depoimentos, Abu Dhabi rejeita qualquer apoio militar às RSF e afirma que os voos para o Chade transportavam apenas ajuda humanitária.

O Sudão tem grande importância para os Emirados Árabes Unidos. O comércio ilegal de ouro sudanês beneficia ambos os lados e uma eventual solução do conflito pode abrir caminho a mais um porto no Mar Vermelho. Abu Dhabi não é o único ator externo: Irão, Rússia e Egito também enviaram armas e apoio logístico. Ainda assim, a participação na guerra volta a desfazer a imagem construída dos Emirados como interveniente responsável. Sobretudo depois das imagens do massacre levado a cabo pelas RSF na cidade de El-Fasher, no Darfur, em outubro de 2025, onde milhares de civis foram mortos pelos paramilitares.

Esta política externa de intervenção abre portas a recursos, mas por vezes parece ter raízes mais fundas. “O Sudão é um caso onde uma intervenção rápida permitiu aos Emirados assegurar o acesso às minas de ouro”, explica Anas Abdoun. “Mas há também uma questão de ideologia: como país pequeno é mais fácil influenciar os acontecimentos na região se outros territórios estiverem divididos ou destabilizados. E os Emirados Árabes Unidos podem fazer isso porque não têm que responder à sua própria opinião pública”.

Um operador discreto

A combinação de um sistema político autoritário com investimento em bem-estar económico e qualidade de vida reduz o incentivo à contestação. Nos Emirados não existe, na prática, um debate interno sobre a política externa. E, apesar de enviar conselheiros militares, forças especiais e armamento para diferentes teatros, o país recorre sobretudo a milícias locais ou a mercenários estrangeiros. Isto liga-se, em parte, à sua demografia: embora conte 11 milhões de residentes, a população autóctone não vai além de 1,5 milhões. Com uma base nacional tão pequena, as forças armadas ficam limitadas face ao número de países em que atua, e a tolerância pública para baixas militares tende a ser baixa.

O músculo financeiro serve, muitas vezes, para colmatar a ausência de um grande exército. Quando o xeque Ahmed bin Juma al-Maktoum, de 78 anos - membro da família real do Dubai - foi raptado no Mali com dois colaboradores, Abu Dhabi ativou rapidamente a sua máquina diplomática. O xeque Ahmed bin Maktoum operava no Mali na exportação de ouro e outros minerais para os Emirados. Os três homens foram capturados pelo Jama’t Nusrat al-Islam wal-Muslimin, grupo ligado à Al-Qaeda no Sahel. Os Emirados enviaram negociadores e terão pago pelo menos 20 milhões de dólares para garantir a libertação, em outubro de 2025, financiando assim o grupo extremista que ameaça derrubar o Governo de Bamaco.

Em finais de abril, há pouco mais de duas semanas, os Emirados Árabes Unidos comunicaram que saíam da OPEP e da OPEP+

A inexistência de escrutínio interno também facilitou a adesão de Abu Dhabi aos Acordos de Abraão, que em 2020 levaram vários países a estabelecer relações diplomáticas com Israel. O entendimento, promovido pela administração Trump (que ofereceu contrapartidas a cada signatário), procurou reduzir tensões e reforçar a legitimidade de Israel sem enfrentar, de forma substantiva, a ocupação israelita de território palestiniano. Embora rejeitado por grande parte das populações árabes, o pacote incluiu Emirados Árabes Unidos, Barém, Marrocos e Sudão.

Para Abu Dhabi, a normalização com Israel veio oficializar uma ligação que já funcionava nos bastidores. O passo serviu também para preservar uma relação sólida com Washington. O aumento do turismo, bem como a cooperação comercial e em defesa, trouxe ganhos aos Emirados.

Mas a aparente falta de desconforto perante as operações militares israelitas em Gaza, que já causaram dezenas de milhares de mortos, consolidou a perceção de Abu Dhabi como ator pragmático, mas sem bússola moral. Apesar de figurar entre os maiores doadores de ajuda humanitária em Gaza (quando as autoridades israelitas permitem a entrada de bens), os Emirados raramente evidenciaram grande incómodo com o massacre de civis. “Os Emirados foram o primeiro país a assinar os Acordos de Abraão, e tentaram convencer outros na região a juntarem-se”, comenta Anas Abdoun. “E mesmo durante o genocídio em Gaza, não tiveram necessidade de mudar a sua política em relação a Israel”.

A disputa com Riade

Ainda assim, a credibilidade regional de Abu Dhabi parece cada vez mais fragilizada - em particular perante a Arábia Saudita. Se, desde o final de fevereiro, ambos se encontraram no mesmo campo perante a ofensiva iraniana contra infraestruturas energéticas no Golfo, a realidade é que, na véspera do início da guerra, Abu Dhabi e Riade estavam em clara divergência.

A relação bilateral atravessa o seu momento mais difícil. Apesar disso, na última década, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita caminharam lado a lado em vários dossiês. Quando Mohammad bin Salman começou a ganhar protagonismo a partir de 2015, Mohamed bin Zayed, líder dos Emirados, tornou-se uma espécie de tutor político. Bin Salman, vinte anos mais novo, viu no modelo do vizinho um guião aplicável ao seu reino. Foi Abu Dhabi, aliás, que convenceu Riade a avançar com o bloqueio regional ao Catar em julho de 2017, devido ao apoio assumido de Doha a grupos islamistas na região.

No plano interno, Riade replicou diversas reformas que os Emirados vinham a implementar há mais de duas décadas. Ao tentar aproximar-se do vizinho menor, a Arábia Saudita começou, também, a pôr em causa o estatuto económico regional dos Emirados. Uma das novas regras determinou que multinacionais que quisessem contratos com o Estado saudita teriam de instalar a sede regional no reino a partir de 2025.

Foi, talvez, no Iémen que a articulação entre os dois países se mostrou mais determinante. Explorando o vazio criado pelas revoltas árabes, os hutis - grupo islamista xiita apoiado pelo Irão - avançaram em 2014 e conquistaram o norte e o oeste do país, incluindo Saná.

Em reação, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos iniciaram em março de 2015 uma campanha de bombardeamentos para recolocar no poder Abd Rabbuh Mansur Hadi, afastado pelos hutis. A operação deveria durar semanas, mas prolongou-se por anos. Estimativas da ONU indicam que a guerra no Iémen matou pelo menos 377 mil pessoas até 2022, com a maioria das mortes associada à fome e ao colapso da infraestrutura de saúde.

Os hutis resistiram e ganharam força a partir de 2023, num contexto de guerra regional e de ataques repetidos a navios comerciais no Mar Vermelho.

Com o tempo, o Iémen dividiu-se ainda mais, e diferentes fações passaram a dominar áreas distintas. Abu Dhabi treinou e financiou milícias no sul, com destaque para o Conselho de Transição do Sul, movimento separatista que procura a independência do Sul do Iémen. Porém, as metas de Abu Dhabi e de Riade afastaram-se. Para os Emirados, a presença no Iémen não serve apenas para travar os hutis xiitas, mas também para limitar o peso do Partido Islah, milícia islamista apoiada pela Arábia Saudita. A longo prazo, Abu Dhabi pretende manter influência sobre Adem, ponto adicional na sua rede estratégica de logística portuária.

A convivência ambígua entre Riade e Abu Dhabi rompeu, de vez, em finais de 2025. Cerca de 10 mil combatentes do Conselho de Transição do Sul, antes circunscritos a Adem e áreas próximas, lançaram ofensivas para leste e passaram a controlar quase todo o leste do Iémen até à fronteira com Omã. Forças apoiadas pelos Emirados desafiaram, no terreno, a primazia saudita.

Não é coincidência que este avanço contra interesses de Riade tenha ocorrido semanas depois de uma visita do líder saudita a Washington. Em novembro de 2025, Mohammad bin Salman procurou convencer Donald Trump a pressionar os Emirados Árabes Unidos a abandonar o apoio às RSF no Sudão. No Iémen, Abu Dhabi aproveitou a ocasião para ajustar o equilíbrio.

Já no início de 2026, Ahmed Altuwaijri, académico saudita, publicou um artigo de opinião a criticar a proximidade entre o Governo dos Emirados Árabes Unidos e Israel. Altuwaijri acusou Abu Dhabi de ser o “cavalo de Troia de Israel no Médio Oriente, alinhando-se frequentemente com o estado hebraico em detrimento dos seus parceiros árabes. Influente e próximo do Governo, Altuwaijri foi também membro do Conselho Shura, uma assembleia de conselheiros que sugere leis e ajuda o monarca saudita a governar. Um artigo semelhante numa publicação saudita não seria publicado sem a aprovação do palácio.

O texto tornou visível a rutura entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. No Sudão, no Iémen, na Somália e noutros cenários, os dois países situam-se agora em lados opostos e defendem projetos diferentes para a região. E, se Riade parece ter suportado por algum tempo a crescente divergência de Abu Dhabi, a paciência saudita já se tinha esgotado muito antes do início da guerra com o Irão.

Adeus OPEP e o fim da guerra

Em finais de abril, há pouco mais de duas semanas, os Emirados Árabes Unidos anunciaram que iriam sair da OPEP e da OPEP+, o bloco que reúne alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo. Abu Dhabi justificou a decisão com a situação no estreito de Ormuz, num movimento que ameaça aprofundar o conflito com a Arábia Saudita e reduzir a capacidade de Riade para influenciar os preços da energia.

Hoje, os Emirados Árabes Unidos encontram-se encurralados entre a ameaça iraniana e a pressão de Washington e Telavive para entrarem militarmente no conflito. Seja qual for o desfecho, a reputação do país já sofreu. “As monarquias do Golfo, e em especial os Emirados Árabes Unidos, propagaram esta narrativa de que há um Médio Oriente do Norte, que é instável, e um Médio Oriente do Sul, que é ordeiro e previsível”, conta Anas Abdoun. “O Irão, ao atacar estes países, rasgou esta narrativa.”

A recuperação da imagem demorará mais do que a própria guerra. Para além de tranquilizar turistas e residentes sobre a segurança, Abu Dhabi terá de convencer os vizinhos de que continua a ser um aliado fiável. No plano interno, a gestão de perceção arrancou cedo: semanas depois do início do conflito, as autoridades começaram a deter e multar quem partilhasse ou publicasse imagens de ataques iranianos em território nacional.

Foi também por essa altura que vários influenciadores baseados no país divulgaram vídeos de propaganda. Cada um mostrava tarefas banais num Dubai pacificado e idílico, acompanhadas pela frase, “Vives no Dubai, não tens medo?”. Mas todos terminavam de forma idêntica: surgia a imagem do líder, Mohamed bin Zayed, seguida da frase, “Não, porque eu sei quem nos protege”.

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