O luxo moderno das notícias de 24 horas
Apesar de serem frequentes as críticas dirigidas aos canais noticiosos, o ciclo informativo de 24 horas é, na prática, um privilégio típico dos nossos tempos. Muitas dessas críticas acabam por revelar uma espécie de ingratidão perante uma abundância que, ainda há pouco, não imaginaríamos vir a ter. Poder acompanhar o que acontece no mundo minuto a minuto, a qualquer hora, ser surpreendido por notícias de última hora e, pelo meio, ver a urgência do presente misturada com a tarefa difícil de o comentar, acaba por moldar a forma como pensamos os acontecimentos quotidianos.
Foi Ted Turner - que morreu a 6 de maio, em casa, perto de Tallahassee, na Florida - quem mais decisivamente inventou o modelo de notícias 24 horas. Numa entrevista à “Time”, perguntaram-lhe se a repetição ao longo do dia não diminuía o valor das notícias. Turner respondeu que sucedia o inverso: quanto mais se repetia, mais as pessoas queriam aprofundar. Percebeu cedo que a abundância, em vez de satisfazer, podia alimentar a insatisfação.
Dos outdoors em falência à TBS
Robert Edward Turner III nasceu a 19 de novembro de 1938 em Cincinatti, no Ohio. Era filho de Robert Jr., um homem do Mississípi cuja família vivia do cultivo do algodão, e de Florence Rooney, herdeira de uma cadeia de mercearias. O futuro Ted Turner estudou na McCallie School, uma academia militar de topo. Já na Universidade de Brown, onde não se destacou, acabaria expulso depois de ser apanhado com uma mulher no seu quarto no dormitório.
Quando o pai, aos 53 anos, endividado e a lutar com uma depressão, se suicida na casa da família em Savannah, Ted tinha 24 anos e fica sem rumo. Além do choque, herda uma empresa de outdoors que estava à beira da falência. Os amigos do pai tentam persuadi-lo a vender, mas Ted Turner opta por manter o negócio. Em paralelo, compra uma estação de televisão de Atlanta, batiza-a de WTCG e usa os outdoors para promover a estação. Ainda assim, nada parecia correr bem: as dívidas acumulavam-se e a televisão não dava sinais de gerar lucro. Mesmo assim, insiste, avança e compra uma equipa de basebol, os Atlantic Braves. Passa os jogos na WTCG e anuncia a programação nos próprios outdoors.
Aos 53 anos, o pai, endividado e a braços com uma depressão, suicida-se na casa de família em Savannah. Ted tinha 24 anos e fica perdido
De chapéu de cowboy e com uma confiança ostensiva, decide transformar o dinheiro desse passo arriscado em novo risco: investe em equipamento mais sofisticado para ampliar o alcance do sinal da estação através de um satélite. A estação passa a chamar-se TBS e fica disponível por cabo em todo o país. A TBS - Turner Broadcasting System aposta em desporto e em filmes antigos, ou clássicos, que podiam ser exibidos a baixo custo. A partir de 1976, a vida de Ted Turner muda consideravelmente. Combativo e ferozmente competitivo, era também um velejador talentoso e, ao longo da década de 70, entre dívidas, excessos, casamentos e divórcios, vence várias competições de vela.
A CNN, a Guerra do Golfo e o retrato de Ted Turner
Em 1980, lança a CNN, um canal de notícias de 24 horas com sede em Atlanta, e, em menos de dois anos, cria a CNN Headline News, com actualizações de meia em meia hora. A proposta parecia revolucionária pela sua voracidade informativa, mas o projecto entra rapidamente no vermelho: nos primeiros dois anos perdia dois milhões de dólares por mês. À partida, parecia não ter hipótese perante gigantes como a CBS, a NBC ou a ABC.
Em meados da década de 80, amplia o império e compra a MGM e a sua colecção de filmes e desenhos animados antigos, assegurando conteúdos para mais um canal, o TNT. Volta, contudo, ao ciclo da dívida e é forçado a vender pouco mais de um terço do seu negócio.
Encher um dia inteiro com notícias mostrou-se mais difícil do que parecia, e a falta de pivôs experientes agravava o desafio. Foi nesse contexto que surgiram figuras como Lou Dobbs ou Larry King, que contribuíram muito para a afirmação da estação. Depois, irrompe a Guerra do Golfo. A cobertura permanente da Guerra do Golfo seria premiada, tal como o próprio Ted Turner, escolhido Homem do Ano pela revista “Time” em 1991. A partir do final da década de 90, transforma-se também num dos maiores filantropos do país, doando milhares de milhões para a defesa do ambiente.
Ted Turner é muitas vezes retratado como alguém excessivo e sem escrúpulos, capaz de adoptar posições políticas contraditórias conforme o que melhor servia os seus interesses empresariais. Numa entrevista a Piers Morgan, em 2012, surge sorridente e a contar que vivia com quatro namoradas ao mesmo tempo, depois de três divórcios. Diz que só se apaixonou duas vezes na vida: uma delas pela actriz Jane Fonda, com quem esteve casado na década de 90, e por “outra pessoa”. E, de um momento para o outro, a conversa torna-se séria e ele parece perder-se no que está a dizer.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário