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Xavier Martinet define a estratégia da Hyundai Motor Europe na Europa

Carro elétrico branco moderno Hyundai Euro Lead estacionado em sala de exposição com janelas grandes.

Xavier Martinet é um profundo conhecedor da indústria automóvel europeia. Depois de quase 30 anos no Grupo Renault - onde chegou a vice-presidente de Marketing, Vendas e Operações da Dacia - aceitou o convite de José Muñoz, CEO global da Hyundai Motor Company, para assumir o comando da Hyundai Motor Europe.

Desde janeiro de 2025, é a partir de Offenbach, na Alemanha, que Xavier Martinet orienta a estratégia europeia da marca sul-coreana. Numa entrevista exclusiva à Razão Automóvel, abordámos o que significa liderar num período exigente, a pressão da concorrência chinesa, a nova filosofia de design Arte do Aço e a decisão da Hyundai de reforçar a presença nos segmentos B (utilitários) e C (familiares compactos) nos próximos anos.

A conversa começou com uma provocação da nossa parte: “com tudo o que está a acontecer na Europa e no setor automóvel, que péssimo momento para aceitar a liderança de uma marca”, disse eu, minutos antes da apresentação do novo Hyundai Conceito Três.

Discordo completamente . É nos momentos difíceis que podemos desafiar as organizações. Quando tudo corre bem, ninguém quer mudar. Há muito potencial por explorar na Europa, e o momento é o certo.

Xavier Martinet, CEO da Hyundai Motor Europe

Crises e oportunidades de crescimento

Na perspetiva do gestor francês, os períodos de crise abrem espaço ao avanço. Quando a pressão sobe, surgem - segundo ele - as condições certas para transformar: “no conforto, quase ninguém muda”. E recorda um marco histórico para sustentar a ideia: “Em 1975 lançámos o Pony, o primeiro automóvel totalmente desenvolvido pela Hyundai. Cinquenta anos depois, o grupo está entre os três maiores construtores do mundo, com mais de sete milhões de unidades vendidas”.

Para Martinet, este percurso acelerado - de produtor local a referência global em poucas décadas - mostra como a Hyundai tem, no seu ADN, a capacidade de se adaptar e de ultrapassar obstáculos. Mesmo sendo hoje o terceiro maior construtor a nível mundial, e apesar do progresso consistente na Europa, admite que ainda existe margem significativa para crescer:

Estamos no Top 3 nos Estados Unidos, no Top 2 na Índia. A pergunta é: porque não na Europa? Há mercados onde estamos no Top 5 e outros onde nem entramos nos 15 primeiros. Isso mostra o potencial que temos.

Xavier Martinet, CEO da Hyundai Motor Europe

No seu entendimento, a Hyundai pode repetir no “velho continente” os resultados obtidos noutros territórios, desde que consiga ler com precisão o que o cliente europeu procura e mantenha uma execução coerente nos vários segmentos e canais comerciais.

Na Europa, a marca soma atualmente 4,5% de quota no canal particular, mas fica-se pelos 3,3% no canal de frotas.

Pão, manteiga e obsessão pelos clientes

Para os próximos anos, a Hyundai tem uma prioridade inequívoca: os segmentos B (utilitários) e C (pequenos familiares), o núcleo duro do mercado europeu. Martinet explicou o plano e deixou clara a ambição:

Vamos lançar três modelos de segmento B nos próximos dois anos. Um será totalmente elétrico e os outros terão motorizações híbridas. São carros pensados de raiz para a Europa, desenhados e desenvolvidos pelos nossos centros técnicos e de design na Alemanha.

Xavier Martinet, CEO da Hyundai Motor Europe

Na visão do CEO, não há caminho para crescer na Europa sem uma base forte no segmento B e, igualmente, no C. “São o pão e a manteiga do mercado”, afirmou, insistindo várias vezes numa ideia que orienta a sua abordagem: “foco no cliente“. “Temos de perceber como vivem e o que esperam os nossos clientes. Não basta cumprir, temos de seduzir. O primeiro carro vende-se na concessão, mas o segundo vende-se no pós-venda” terminou.

Parte dessa capacidade de sedução deverá ficar mais evidente já na próxima geração de modelos da Hyundai. Minutos depois da nossa conversa, Martinet apresentou a nova linguagem de design da marca, chamada Arte do Aço, e estreada no novo Hyundai Conceito Três. Um protótipo que, dentro de um ano e meio, já estará a circular nas estradas:

Elétricos, naturalmente. Mas com calma…

Na Europa, a orientação da Hyundai não passa por uma única tecnologia, mas por um leque alargado de soluções. Martinet considera essencial que a marca disponibilize elétricos, híbridos, híbridos recarregáveis e até hidrogénio.
“Não estamos a dispersar-nos, estamos a preparar-nos. O mercado pode ir numa direção ou noutra. Temos de estar prontos para responder”.

Ainda assim, defende que os reguladores europeus devem manter margem de flexibilidade: “A eletrificação é o caminho certo, mas não pode ser imposta apenas com penalizações. Os clientes não estão a avançar tão rápido quanto a legislação.”

A meta está bem definida: até 2027, todos os modelos Hyundai vendidos na Europa terão, no mínimo, uma variante elétrica ou híbrida. “O consumidor deve poder fazer a sua escolha”, sustenta Martinet.

“Não temos razões para ter medo” dos chineses

A questão inevitável são as marcas chinesas, que têm entrado na Europa com posicionamentos de preço muito agressivos. Perante esse cenário, a resposta do CEO foi inequívoca: “Há 10 anos seríamos vulneráveis. Hoje, não temos razões para ter medo,” respondeu-nos o CEO da Hyundai Motor Europe.

A Hyundai de há 10 ou 15 anos seria muito mais vulnerável. Na altura, compravam-nos sobretudo porque éramos acessíveis. Hoje, os clientes compram a Hyundai pelo design, pela tecnologia e pela qualidade. Isso torna-nos muito mais fortes.

Xavier Martinet, CEO da Hyundai Motor Europe

Para Martinet, os construtores chineses colocam pressão sobre todo o setor, mas a Hyundai está “mais bem preparada do que muitos concorrentes”. E chamou a atenção para uma vantagem que, diz, muitas vezes passa despercebida: a integração vertical.

Ao contrário do que acontece com alguns fabricantes, a Hyundai domina diretamente uma parte substancial da cadeia de valor. Produz o seu próprio aço e fabrica a maioria dos componentes utilizados nos seus automóveis.

Durante a crise de fornecimento, conseguimos reagir mais depressa que outros construtores. Ganhámos meio ponto de quota de mercado porque tínhamos capacidade interna para resolver problemas que bloquearam os concorrentes.

Xavier Martinet, CEO da Hyundai Motor Europe

Essa autonomia - da siderurgia às unidades de produção e até à logística - ajudou a Hyundai a ser mais resistente quando a indústria enfrentou escassez de semicondutores e disrupções globais. Agora, os obstáculos mudaram: da chegada de novos rivais chineses ao enquadramento regulatório europeu.

Ainda assim, a linha para a Europa está traçada: investimento forte nos segmentos B e C, autonomia industrial, uma linguagem de design mais arrojada e uma estratégia multi-tecnologia. O primeiro modelo desta nova Hyundai, sob a liderança de Xavier Martinet, chega já em 2027.


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