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Cartas ao Diretor: transportes gratuitos no Porto, comédia e regulação do tabaco

Jovem sentado num transporte amarelo a escrever num caderno com vista para o rio e prédios ao fundo.

Transportes gratuitos no Porto

A Câmara Municipal do Porto merece aplauso por ter avançado com a gratuitidade dos transportes. O Porto é uma cidade onde grande parte das ruas - sobretudo no centro - não facilita uma convivência equilibrada entre as pessoas e os automóveis. De acordo com a IA, a CMP despende anualmente entre 4 e 15 milhões em obras de requalificação, numa tentativa de tornar o trânsito mais fluido.

Ao apresentar esta proposta, Pedro Duarte mostrou ter percebido que um problema coletivo não se resolve pela soma de “melhorias individuais” associadas ao carro. É uma abordagem política diferente, que importa reconhecer. Com 20 milhões, o montante estimado, poderemos retirar milhares de viaturas das ruas, evitar muitas toneladas de CO2 e, mantendo os mesmos arruamentos, viver com mais qualidade.

Ainda assim, tenho notado que o Metro está cheio durante grande parte do dia, pelo que é indispensável reforçar a oferta de transportes públicos. Para isso, é preciso coordenação com os concelhos vizinhos - e, nesse campo, continua a fazer falta a regionalização, sucessivamente adiada. O congestionamento não se resolve à escala de um concelho, nem com a desatenção distante do poder central, onde, infelizmente, não abunda gente capaz de pensar de outra forma.

José Cavalheiro, Matosinhos


Comédia, política e autoritarismo

No dia 23 de abril de 2026, Jimmy Kimmel, num sketch metacómico, dirigiu-se a uma Melania imaginada e afirmou que ela tinha o brilho de uma viúva expectante. Gostando-se ou não da piada, o direito de o dizer precede a própria república.

A primeira-dama veio a público sustentar que as palavras de Kimmel agravam a doença da política na América. Ao exigir que a comédia seja afastada da política, Melania não está a proteger o “bom humor”; está, antes, a alinhar com o gesto mais antigo do autoritarismo - como escreveu Graça Castanheira no “Público”. Quando convém à esquerda, classifica-se como piada; quando deixa de convir, passa a ser discurso de ódio.

Já que se fala de comédia, Mamdani arrisca-se a conquistar o prémio de melhor humorista de 2026, ultrapassando o seu antecessor e democrata Eric Adams. O primeiro, em janeiro, garantiu que os nova-iorquinos teriam transportes públicos gratuitos, congelamento de rendas sociais, creches gratuitas e mercearias públicas. Esta semana, decretou a bancarrota de Nova Iorque.

O segundo, em 2022, proclamou que Nova Iorque era um santuário para imigrantes e que todos seriam recebidos de braços abertos - e, em 2023, clamava por ajuda federal. O maior drama das nossas sociedades surge quando ‘humoristas’ como Mandami, Eric Adams, ou intelectuais de esquerda ligados às artes, chegam a qualquer posição de liderança: do alto da sua sobranceria moral, querem dar-nos lições de civismo e de dignidade, enquanto observam um mundo virtual.

Fernando Ribeiro, S. João da Madeira


Regulação do tabaco e liberdade

Li, como é habitual, a crónica de Ricardo Araújo Pereira com interesse e com um sorriso. Desta vez, porém, não consigo acompanhar a premissa perigosa de que parte. O raciocínio é engraçado e inteligente: se o Estado pode impedir a venda de tabaco a partir de uma certa geração de crianças, então porque não impedir também a venda de sofás? É absurdo; logo, toda a regulação é absurda.

O problema é que um sofá não é comparável ao tabaco. Caso contrário, por que razão investe a indústria do tabaco milhões a desenhar produtos cada vez mais apelativos e mais aditivos para adolescentes? Ou a financiar investigação que nega ou atenua os efeitos dos seus produtos? Ou a apostar em marketing experimental e a pagar a influenciadores? Ou a fazer lobbying ao mais alto nível? Se o objetivo fosse apenas deixar os adultos escolherem livremente se fumam, por que motivo investe tanto para que crianças e adolescentes não tenham essa liberdade?

A explicação é evidente. A indústria do tabaco sabe que a maioria dos adultos que ainda não é dependente já não se deixa capturar com facilidade pelas suas estratégias e pelos seus produtos. Sabe também que a dependência criada nessas idades é difícil de ultrapassar. Quem não começa a fumar aos 15 raramente inicia aos 35. O tabaco, de facto, não é como um sofá. Nem sequer é como a poluição ou a pobreza, que resultam de sistemas económicos ou de inação política e matam tanto ou mais do que o tabaco. O tabaco é um negócio milionário que, de forma deliberada, escolhe criar dependentes antes de estes compreenderem o custo.

Esta crónica, apesar de satirizar o absurdo, acaba por legitimar involuntariamente a ideia de que proteger crianças de uma captura deliberada é paternalismo. Mas a Lei Seca proibia a quem já bebia; a regulação do tabaco protege gerações que ainda não começaram. Não é a mesma coisa. E o Estado intervém repetidamente perante riscos graves. Não se trata de ser uma mamã excessiva: trata-se de escolher entre uma mamã que lucra com as nossas escolhas e uma mamã que pretende ajudar-nos a ser saudáveis.

Margarida Tavares, Médica da ULS São João e investigadora do ISPUP. Foi secretária de Estado da Promoção da Saúde do XXIII Governo Constitucional


Regras para envio de cartas

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