A Caixa Geral de Depósitos (CGD) registou um lucro de €397 milhões no primeiro trimestre do ano, foi anunciado esta sexta-feira. Face ao período homólogo, a evolução foi de apenas 1%, num trimestre já marcado pelo efeito da descida das taxas de juro do Banco Central Europeu (BCE). Ainda assim, o aumento da atividade e a alienação do BCA em Cabo Verde ajudaram a mitigar parte desse impacto.
Na apresentação dos resultados, em Lisboa, o presidente executivo, Paulo Macedo, considerou que o banco “vive hoje um dos melhores momentos da sua história”. Para além do desempenho em resultados, a administração destacou os rácios de robustez, que se mantêm em patamares confortáveis mesmo depois de contabilizada a dedução dos dividendos de €1250 milhões a distribuir ao Estado - o único acionista - referentes a 2025.
Contributo de Portugal e do negócio internacional para o lucro da CGD
No resultado líquido consolidado, a atividade em Portugal contribuiu com €348 milhões, menos €10 milhões do que no mesmo período do ano passado. Já a operação internacional somou €49 milhões, com um “crescimento relevante” explicado sobretudo pelo desempenho em Moçambique, via BCI - uma unidade que, no trimestre homólogo, tinha sido “fortemente penalizado pelas imparidades”, como sublinhou o administrador financeiro da CGD, António Valente.
Crescimento do crédito e dos recursos impulsiona a atividade doméstica
Considerando apenas o mercado doméstico, a CGD indica que o volume de negócios aumentou 6% até março, para €158 mil milhões, o máximo de sempre. Paulo Macedo atribuiu esta evolução sobretudo à produção de crédito - “designadamente à habitação, mas também às empresas” - e ao reforço dos recursos.
No final de março, a carteira de crédito a clientes situava-se em cerca de €53,4 mil milhões, acima dos €48,8 mil milhões do período homólogo. No detalhe: o crédito à habitação cresceu 10%, para €29 mil milhões; o financiamento às empresas avançou 4%, para €22,8 mil milhões; e o crédito ao consumo aumentou 11%, para €1,4 mil milhões.
Rácio de crédito malparado da Caixa está no nível mais baixo de sempre
“Continuamos a financiar uma em cada três casas que os jovens compram em Portugal. No caso das empresas, verificamos uma trajetória com valores superiores ao mercado, destacando-se os sectores da agricultura, imobiliário e construção, indústria transformadora, comércio, alojamento e restauração”, apontou Paulo Macedo. Sobre a qualidade dos ativos, acrescentou que o rácio de crédito malparado (NPL) está no “nível mais baixo de sempre, com um novo mínimo de 1,38%”.
Do lado dos recursos, o total subiu também, avançando 3% para €78,9 mil milhões, com a maior parcela aplicada em depósitos. Quanto às comissões cobradas aos clientes, o montante manteve-se praticamente estável: €119 milhões, mais 1%. Para o CEO, trata-se de uma alteração residual, atendendo a que o negócio cresceu acima desse ritmo. “Isto aconteceu depois de termos dito que não aumentávamos preçários. Somos o único banco em Portugal que o faz há quatro anos”, realçou.
Margem financeira recua com o efeito das taxas de juro
À semelhança do que aconteceu em três dos maiores bancos, as receitas de juros da CGD diminuíram. A margem financeira - diferença entre os juros recebidos no crédito e os juros pagos nos depósitos - atingiu €616 milhões em termos consolidados, uma descida de 3% face ao primeiro trimestre do ano passado.
O principal contributo para esta queda veio do negócio internacional, em resultado de variações cambiais negativas. Em Portugal, registou-se também uma redução, de 2%, para €493 milhões.
Os números agora divulgados surgem num momento em que o setor bancário português começa a sentir de forma mais nítida o impacto da descida das taxas de juro, após vários anos de lucros beneficiados pela subida do custo do crédito. Ainda assim, os principais bancos continuam a apresentar níveis elevados de rendibilidade e eficiência.
Guerra no Médio Oriente vai ser determinante para os lucros de 2026
Confrontado com as perspetivas para o desempenho anual - depois de a CGD ter encerrado o ano passado com um lucro recorde de €1,9 mil milhões - Paulo Macedo admitiu não estar pessimista quanto aos resultados do banco para 2026. Contudo, deixou uma condição: que não se verifique um agravamento da guerra no Médio Oriente.
O gestor referiu que, neste trimestre, os resultados já sentiram a evolução negativa da margem financeira e acrescentou que será sempre esse o fator com maior peso. As contas, por outro lado, beneficiaram das mais-valias de €19 milhões com a venda do banco em Cabo Verde. Sobre o BCI em Moçambique, o CEO afirmou que “gostaria de manter a maioria, desde que seja também essa a vontade das autoridades moçambicanas”.
Os jornalistas voltaram a questionar o banco sobre a garantia pública no crédito à habitação destinada a jovens até aos 35 anos, e o presidente executivo reiterou que a medida “tem um propósito e serve várias famílias”, mas sublinhou que “não pode, nem deve” ser a única resposta para o problema da falta de habitação.
”A garantia do Estado deve cessar quando não houver procura”, disse, ao comentar um eventual fim do instrumento, acrescentado: “Sempre fomos líderes no crédito à habitação. Estou mais preocupado se as medidas que foram aprovadas reunem consenso e dão origem a mais construção de habitação. Deve dar-se prioridade às medidas que têm efeito na oferta.”
Entrando em pormenores - e numa altura em que o Banco de Portugal (BdP) já alertou para o aumento significativo do risco no crédito à habitação no ano passado associado à garantia pública - Paulo Macedo contrapôs com os dados da instituição, assegurando que, nos empréstimos concedidos pela Caixa ao abrigo da iniciativa, o “incumprimento é baixíssimo, independentemente de o rendimento ser de nove mil ou 1500 euros”.
“O facto de os jovens terem emprego é o fator decisivo e Portugal está há uns anos em níveis históricos de baixo desemprego”, rematou.
No encerramento da conferência, o CEO disse estar satisfeito por assinalar os 150 anos do banco público com estes resultados no arranque do ano: “Os clientes preferem-nos e os clientes não são tolos, comparam preços, prazos e necessidades de garantia. É bom ver que a Caixa é maioritária no crédito à habitação para jovens e também nas empresas."
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