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O pontificado de Leão XIV: paz, unidade e rigor canónico

Homem vestido de papa sentado a escrever numa folha num escritório ensolarado com jornal e livro religioso na mesa.

Ao longo dos últimos doze meses, multiplicaram-se as leituras de especialistas que tentam decifrar, em cada gesto e em cada frase do Papa, qual é a sua linha de governação e em que medida se distingue do seu predecessor. Leão XIV, porém, não lhes tem dado respostas fáceis.

Se Francisco começou a marcar distâncias em relação a Bento XVI logo na varanda de São Pedro, Leão tem preferido uma postura menos exibida. No caso de Francisco, o próprio estilo funcionava como programa; no pontificado atual, essa equivalência não é tão imediata.

Os primeiros tempos foram, em grande parte, de continuidade: seguiram-se dossiês e iniciativas lançadas por Francisco, entre os quais o Jubileu da Esperança. Até a estreia nas deslocações internacionais - à Turquia - correspondia a um compromisso herdado. Ainda assim, esse momento pode ser lido como a verdadeira “descolagem” do pontificado de Leão, já que o Papa acrescentou, por decisão própria, uma passagem pelo Líbano.

Amor à paz irrita Trump

Um exemplo revelador tem sido a sinodalidade. A palavra foi, durante anos, um eixo discursivo do pontificado de Francisco. Leão começou por a repetir com regularidade, mas foi usando o termo cada vez menos, até ao ponto de convocar para outubro de 2026 um encontro de bispos - um exercício elementar de sinodalidade - sem pronunciar uma única vez a expressão.

Pelo menos duas prioridades ficaram claras logo na primeira aparição pública de Leão XIV, em 8 de maio de 2025: paz e unidade. Naquela noite, pediu “uma paz desarmada e desarmante”. Foi em coerência com esse apelo que condenou os ataques ao Irão, o que desencadeou uma reação furiosa de Donald Trump e originou um choque diplomático raro entre o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) e o primeiro Papa oriundo desse país.

Mais tarde, Leão XIV precisou que a posição da Igreja não se confunde com pacifismo, uma vez que permanece válido o direito à autodefesa. O que está em jogo é a ideia de guerra justa, um tema exigente e ainda em ajustamento num mundo marcado por armas nucleares e drones.

O Papa defende que a unidade da Igreja não deve centrar-se apenas em questões da moral sexual

O trabalho em prol da unidade interna tem sido mais discreto, mas não menos relevante. No plano internacional, o Papa limita-se a apelos à consciência; dentro da Igreja, porém, dispõe de autoridade real, e a forma como a exerce pode consolidar pontes ou, pelo contrário, derrubá-las.

Alemães vs. Pio X

Leão enfrenta dois focos de tensão. Por um lado, há bispos alemães a promover bênçãos para casais homossexuais; por outro, os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X (SSPX), ou lefebvrianos, que ameaçam ordenar bispos sem autorização de Roma, arriscando uma excomunhão formal e imediata.

Nos dois casos, o Papa tem combinado firmeza com reserva. Poucos dias depois de os bispos alemães anunciarem que avançariam com as bênçãos - garantindo que a decisão resultava de diálogo com Roma -, o Vaticano divulgou a resposta do prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé ao episcopado alemão, rejeitando a proposta.

Interpelado sobre o tema numa conversa com jornalistas, no regresso da viagem a África, Leão reafirmou a recusa do Vaticano em abençoar uniões irregulares, mas acrescentou que a unidade da Igreja não deveria ficar prisioneira de debates sobre moral sexual e que insistir publicamente no assunto poderia alimentar a desunião. Quanto ao relacionamento com os tradicionalistas, tem recusado negociar diretamente com a liderança da SSPX, em reação à inflexibilidade do grupo, que sustenta não poder aceitar as inovações vindas de Roma, tornando estéril qualquer tentativa de entendimento.

Em paralelo, Leão tem procurado aproximar-se de tradicionalistas plenamente em comunhão com Roma. Deu orientações discretas no sentido de maior tolerância para a celebração da missa no rito antigo e enviou mensagens a iniciativas litúrgicas, como a já célebre peregrinação de Chartres, que em 2025 juntou 19 mil pessoas e este ano atingiu o limite máximo de 20 mil.

A mensagem que parece emergir de Roma é dupla: a herança do Concílio Vaticano II não se negocia, mas há espaço na Igreja para quem se identifica mais com as formas antigas. Quem, no entanto, insistir em manter ligações a grupos que rejeitam o Concílio pode acabar formalmente excluído.

Um Papa mais severo

Uma das distinções mais visíveis entre Leão e o seu antecessor está no modo como lida com matérias canónicas. Embora muitos católicos considerem o Código de Direito Canónico algo secundário, trata-se de uma ferramenta decisiva para garantir ordem e justiça no interior da Igreja. Durante o pontificado de Francisco, sucederam-se atropelos jurídicos, a ponto de, recentemente e de forma inédita, o próprio tribunal do Vaticano ter declarado nulo um rescrito do Papa argentino.

Francisco agia, não raras vezes, por impulso e convicção pessoal, o que o levava a enredar-se em situações delicadas e a proteger figuras de conduta questionável, como o seu substituto, o cardeal Peña Parra, que admitiu num tribunal londrino ter cometido fraude financeira e tentou reverter ilegalmente a condenação de um padre por abusos sexuais.

O perfil de atuação do atual Papa tem-se mostrado mais duro, como ilustra o caso da Igreja Caldeia, de rito oriental e em comunhão com Roma. Quando Hana Shaleta, um dos bispos ao serviço da comunidade iraquiana nos EUA, foi detido por suspeitas de desviar centenas de milhares de dólares para sustentar uma família secreta e pagar visitas a um bordel mexicano, Leão não aguardou pelo desfecho nos tribunais: afastou-o de imediato das suas funções, mas não se ficou por aí.

Shaleta tinha sido uma escolha pessoal do cardeal Raphael Sako, patriarca da Igreja Caldeia, que sempre o protegeu. A renúncia de Sako foi anunciada ao mesmo tempo que a do bispo detido.

Resta saber se o Papa aplicará igual firmeza a todos os casos de alegada má prática episcopal. A resposta poderá surgir em breve, já que um dos processos a decorrer em julgamento em Roma envolve o bispo português D. Carlos Azevedo.

Continuidade no ecumenismo

No diálogo ecuménico e inter-religioso, a continuidade em relação a Francisco é evidente. Durante a visita a África, Leão XIV entrou numa mesquita e reuniu-se com líderes muçulmanos e, há pouco tempo, recebeu em audiência a primeira arcebispa de Cantuária, figura de referência espiritual da Igreja Anglicana.

Uma das diferenças mais notórias entre Leão e Francisco é o rigor com que trata temas canónicos

Apesar das críticas de muitos católicos mais conservadores, a audiência não teve um significado distinto daquele que têm as reuniões com os arcebispos de Cantuária desde a visita de Michael Ramsey a Paulo VI, em 1966, e também não difere da audiência que Francisco concedeu à líder da Igreja Luterana da Suécia, Antje Jackelén.

Fica, por fim, a promessa - feita no arranque do pontificado - de uma abordagem direta ao problema da inteligência artificial. A inquietação do Papa (e, na verdade, de toda a Igreja) é estrutural: como poderá a dignidade humana resistir a sistemas massivos de videovigilância, circuitos de decisão autónoma, drones voadores assassinos e algoritmos cada vez mais intrusivos?

Há um ano que se espera pela posição do Papa sobre esta matéria. A expectativa deverá terminar a 15 de maio, com a publicação da encíclica “Magnifica humanitas”, um título que, por si só, funciona como manifesto.

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