O Governo alemão quer imprimir maior velocidade à adoção de carros elétricos. Nesse sentido, anunciou o reforço do programa de incentivos à compra de veículos elétricos na Alemanha, com a intenção de corrigir a trajetória das vendas e alinhá-las com as metas fixadas pela UE.
O novo pacote de apoios, avaliado em 3 mil milhões euros até 2029, dirige-se a agregados familiares com rendimento anual tributável até 80 mil euros. O esquema prevê incentivos entre 1500 e 6000 euros por viatura, variando conforme o tipo de motorização, a composição do agregado e o escalão de rendimento.
Em termos de dimensão, o Executivo calcula que a dotação global chegue para subsidiar até 800 mil veículos ao longo de todo o programa. Ainda assim, vários especialistas ouvidos pela Notícias Automóveis Europa consideram que a medida poderá produzir efeitos bastante diferentes dos pretendidos por Berlim.
Uma bolha na procura
Benjamin Kibies, analista sénior da Dataforce, estima que os incentivos acrescentem cerca de 60 mil matrículas de veículos elétricos em 2026, contribuindo para que os construtores evitem multas por emissões de CO₂.
Apesar disso, alerta para o caráter passageiro do efeito. “Vai gerar um impulso que não é sustentável”, afirmou, salientando que os subsídios tendem a desviar o mercado do seu funcionamento normal, antecipando decisões de compra e originando quedas acentuadas quando os apoios acabam.
Stefan Bratzel, do Centro de Gestão Automóvel, partilha a mesma leitura. Para o académico alemão, os incentivos são “um fenómeno de curto prazo”, insuficiente para resolver fragilidades estruturais do setor. O passado recente, acrescenta, sustenta esse argumento: quando a Alemanha terminou de forma abrupta o programa anterior em 2023, as vendas de elétricos recuaram 27% em 2024, antes de voltarem a subir no ano passado.
Vender carros com o dinheiro dos contribuintes
Um dos aspetos mais discutidos do novo modelo é a neutralidade do ponto de vista industrial. Ao contrário do que acontece noutros países europeus, a Alemanha decidiu não excluir veículos produzidos fora da Europa, o que abre caminho a modelos fabricados na China.
Para Ferdinand Dudenhöffer, diretor do Centro de Investigação Automóvel, o resultado é inequívoco. “Quem ganha é a BYD e outros construtores chineses, além de marcas generalistas europeias como a Peugeot e a Citroën. Mas não os fabricantes alemães”, disse à Notícias Automóveis Europa. E foi mais longe: “Estamos a convidar importadores a vender carros na Alemanha com dinheiro dos contribuintes.”
Desvalorização dos carros usados
Este contexto aumenta a pressão sobre os construtores alemães - Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz - numa fase já sensível, marcada por custos industriais elevados e margens mais apertadas no processo de transição para a eletrificação. Kibies acrescenta que o programa também pode acelerar a “erosão dos valores residuais”, um impacto particularmente delicado num mercado de usados elétricos que continua vulnerável.
A VDA - Associação da Indústria Automóvel Alemã -, pela voz da sua presidente Hildegard Müller, advertiu que estes incentivos deveriam igualmente ter em conta os veículos usados. Em declarações à publicação, Müller defendeu que o impacto no mercado de segunda mão deve ser analisado em 2027, lembrando que “os automóveis usados também podem desempenhar um papel importante na eletrificação e no cumprimento das metas climáticas”.
A decisão de incluir híbridos de carregamento externo (PHEV) também motiva críticas. O analista sustenta que, em emissões reais, estes modelos asseguram apenas cerca de 15% de redução de CO₂ face a um automóvel médio a gasolina ou gasóleo, colocando em causa a eficácia climática do apoio.
Apostar em custos de utilização mais baixos
Kibies sublinha ainda uma frente que, na sua perspetiva, está a ser pouco apoiada: o preço da eletricidade e do carregamento em postos públicos. Garantir que carregar um carro elétrico fica mais barato do que abastecer um automóvel convencional “ajudaria simultaneamente o mercado de novos e usados” e, num plano mais abrangente, “resolveria um dos principais obstáculos à produção” industrial na Alemanha.
Importa recordar que, com ou sem incentivos, todas as marcas automóveis terão de reduzir de forma substancial as suas emissões até 2028. Caso falhem esse objetivo, enfrentarão multas que podem ascender às centenas de milhões de euros. Algumas marcas admitem, inclusive, suspender a venda de certos modelos - mesmo havendo procura - para não ultrapassar a meta estabelecida pela UE.
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