Saltar para o conteúdo

Portugal estuda bioetanol de vinho com E-Tinto e E-Branco e Manuel Bobine volta ao centro do debate

Homem abastece carro com líquido vermelho numa bomba de combustível numa vinha ao pôr do sol.

A proposta ainda não recebeu confirmação oficial. Ainda assim, fontes próximas dos setores energético e agrícola referem que o plano já entrou numa etapa inicial de conversações com várias adegas nacionais, com o objetivo de perceber se existe disponibilidade - e margem de adaptação - para passarem a produzir combustível.

As mesmas fontes indicam que o dossiê está a ser articulado entre o Ministério da Agricultura e Mar e o Ministério do Ambiente e Ação Climática, embora exista a intenção de o colocar sob tutela direta do Ministério das Infraestruturas, que assumiria a implementação operacional da estratégia.

O objetivo? Independência energética

A meta estratégica é inequívoca: reforçar a independência energética de Portugal através do aproveitamento de recursos endógenos. Num país com uma longa tradição vitivinícola, a valorização de excedentes de vinho e de subprodutos da vinha apresenta-se como uma solução improvável à primeira vista, mas apontada como tecnicamente possível.

Este cenário ganha peso num período especialmente delicado para os mercados energéticos. A intensificação do conflito no Irão e a instabilidade no Médio Oriente voltaram a pressionar as cotações do petróleo, com impacto direto no preço dos combustíveis na Europa - e, por arrasto, em Portugal.

Do vinho ao depósito

Do ponto de vista técnico, a proposta assenta na produção de bioetanol, um combustível já usado em diferentes mercados internacionais. A particularidade estaria na matéria-prima: em vez de milho ou cana-de-açúcar, o processo recorreria a uva.

A lógica industrial não é totalmente alheia às adegas. A fermentação alcoólica surge como o ponto de contacto mais óbvio, seguindo-se a necessidade de ajustar as etapas de destilação e de purificação para chegar a um combustível que cumpra as especificações exigidas pela indústria automóvel.

E-Tinto e E-Branco: os novos combustíveis nacionais

Um dos elementos apontados como mais inovadores passa pela criação de categorias de combustível distintas, ajustadas não só à origem da matéria-prima, mas também ao tipo de motor.

De acordo com fontes técnicas, estão a ser consideradas duas classificações centrais, com nomes assumidamente nacionais: E-Tinto e E-Branco (E-Vermelho e E-Branco para os mercados internacionais).

O E-Tinto seria direcionado para motores diesel. A fundamentação técnica está associada à maior presença de compostos fenólicos, taninos e matéria orgânica nas uvas tintas. No decurso da conversão e da refinação, estes componentes poderão favorecer um combustível com maior densidade energética e melhores características lubrificantes - atributos importantes em motores de ignição por compressão.

Já o E-Branco seria pensado para motores a gasolina. Aqui, a menor carga de compostos estruturais das uvas brancas permitiria obter um bioetanol mais leve e mais puro, com uma combustão mais regular e previsível. Trata-se de um perfil mais compatível com motores de ignição por faísca, nos quais a estabilidade da combustão é determinante para o desempenho e para as emissões.

Manuel Bobine tinha razão

Para algumas pessoas, a ideia não é exatamente inesperada. Entre elas está Manuel Bobine, inventor português e autor do primeiro motor a vinho tinto do mundo, cujo protótipo foi revelado há alguns anos, em exclusivo, na Razão Automóvel.

Na ocasião, Manuel Bobine sustentava que o vinho poderia ser utilizado diretamente como combustível, dispensando processos complexos de refinação. A tese foi recebida com ceticismo, mas este novo enquadramento poderá voltar a colocá-la no radar - e até projetar o motor para um patamar mais relevante no setor.

Questionado pela Razão Automóvel, Manuel Bobine não escondeu a forma como encara a situação: “Eu sempre disse que era o futuro, ninguém me levou a sério e isso deixa-me magoado com o meu país.”, afirmou, reagindo ao cenário em estudo. Perante o contexto atual, há quem interprete a sua visão como uma antecipação improvável do momento que se vive.

Se a iniciativa avançar, entre a tradição e a inovação, o vinho poderá estar prestes a assumir uma nova função na economia nacional. A decisão será tomada hoje, até às 23h59, do dia 1 de abril de 2026.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário