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Lobo selvagem filmado a usar uma ferramenta: descoberta científica surpreendente.

Lobo de pé na água com um pau na boca, capturando um peixe num rio rodeado de pedras e árvores.

Os lobos terão competências cognitivas que temos subestimado? As imagens deste vídeo podem muito bem servir de evidência.

A utilização de ferramentas no reino animal é extraordinariamente rara; as espécies que podem reivindicar essa capacidade contam-se pelos dedos de uma mão. Entre elas estão os grandes símios, os golfinhos (sobretudo Tursiops aduncus), alguns corvídeos (gralhas e corvos), os elefantes e até certos invertebrados, como o polvo-comum (Octopus vulgaris) ou o chamado caranguejo-boxeur (Lybia tessellata).

No caso dos carnívoros terrestres selvagens, este tipo de comportamento nunca tinha sido documentado - até este ano, graças a uma descoberta vinda diretamente da Colúmbia Britânica (Canadá). Pela primeira vez, uma loba-cinzenta (Canis lupus) foi apanhada em flagrante a roubar uma armadilha/cesto de caranguejos para obter o que estava no interior. Em termos etológicos, trata-se de um comportamento que pode ser associado à utilização de uma ferramenta: o animal não “usa” o objeto pelo que ele é, mas pelo que lhe permite alcançar. A cena, extremamente rara, foi filmada na íntegra e motivou inclusive um estudo publicado a 17 de novembro na revista Ecology and Evolution.

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Lobos-cinzentos e utilização de ferramentas: “pesca ao lobo” feita pelo próprio lobo

Há vários anos, equipas de biólogos trabalham em colaboração com a nação Heiltsuk (povo tribal indígena da Colúmbia Britânica) com o objetivo de erradicar as populações de caranguejo-verde (Carcinus maenas). Trata-se de uma espécie invasora oriunda da Europa, sem lugar nestas costas remotas, uma vez que desequilibra o ecossistema local. Para o controlo, são submersos cestos/armadilhas em águas profundas para capturar os animais - dispositivos que se julgavam fora do alcance de predadores terrestres.

O mistério começou quando os cientistas perceberam que várias armadilhas eram repetidamente encontradas na praia, com o isco e os caranguejos desaparecidos. A primeira hipótese foi a de que um carnívoro marinho as estaria a pilhar. Nada indicava que um animal terrestre pudesse ser responsável, até porque os cestos nunca ficam visíveis na maré baixa. Além disso, eram colocados de forma estratégica, a vários metros da linha de costa, para impedir que qualquer oportunista de quatro patas os conseguisse alcançar.

A resposta surgiu com a instalação de câmaras em maio de 2024. As gravações mostram uma loba a nadar até ao flutuador da armadilha, a agarrar a bóia com a boca e a puxá-la até à praia. Já em terra, puxa com paciência a corda até trazer a armadilha para a superfície, acabando depois por roer a rede para chegar ao isco.

Kyle Artelle, biólogo e um dos autores do estudo, descreveu a reação ao ver o vídeo: “Não queria acreditar no que estava a ver quando revimos as imagens”. Para ele, num lobo selvagem trata-se de “um comportamento inacreditável”, sobretudo porque a loba não parecia esfomeada - pelo contrário, aparentava estar plenamente consciente do que fazia.

Ou seja, não se tratava de um ato de desespero por falta de presas. Os cestos eram, muito provavelmente, uma fonte de alimento de acesso fácil. Do ponto de vista evolutivo, qualquer estratégia que permita obter recursos com menor custo energético tende a ser favorecida, em particular num carnívoro sujeito a elevadas exigências metabólicas. Artelle resume a sequência de forma clara: “Viu um flutuador, sabia que estava ligado a uma armadilha. Sabia como trazê-la para a praia para aceder à comida… É um comportamento mesmo inteligente, mesmo sofisticado”.

Lobos: grandes incompreendidos? Inteligência do lobo selvagem sob nova luz

Para os dois autores, isto é, nada mais nada menos, do que “a primeira utilização potencial de uma ferramenta num lobo selvagem”. Desde o final do século XIX (com os textos de Ernest Thompson Seton, entre outros), sabe-se que o lobo tem uma inteligência particular, comparável à dos cães. A sua inteligência social só foi documentada de forma robusta nas décadas de 1950 e 1960, graças ao trabalho de biólogos como o Dr. David Mech. Já os estudos especificamente cognitivos sobre a espécie só ganharam corpo muito mais tarde (aproximadamente entre 2000 e 2010). Ainda assim, nunca tinha sido incluída entre os animais capazes de se servir de ferramentas.

É possível que esta loba seja um caso singular e que os outros indivíduos não apresentem o mesmo comportamento; os próprios autores admitem que não sabem se os seus pares desenvolveram idêntica destreza. Ainda assim, avançam uma explicação plausível: esta população vive de forma muito isolada e tem contacto humano muito limitado, o que poderá permitir maior liberdade para experimentar.

Num ambiente tão tranquilo, um animal consegue testar diferentes ações sem ser interrompido, aprendendo por repetição e tentativa-e-erro. É provável que a loba tenha manipulado várias vezes a corda e o flutuador, repetindo a manobra até conseguir o resultado desejado. Sem uma ameaça imediata, teria tempo para se focar na resolução do “problema” colocado pela armadilha de caranguejos - e resolvê-lo por si própria.

Este vídeo poderá levar biólogos e etólogos a revisitar a questão da inteligência do lobo selvagem, pelo menos em certas populações. Se estes animais conseguem compreender uma cadeia causal deste tipo (“agarrar o flutuador → tensionar a corda → deslocar a armadilha → comida acessível”), então talvez a sua cognição seja mais avançada do que se supunha. E mesmo que se confirme que foi apenas esta loba a desenvolver tal “talento” para o furto, isso não diminui o caráter excecional do fenómeno. Pelo contrário: quando um indivíduo consegue inovar sozinho, isso sugere que as predisposições cognitivas necessárias já existiam na espécie, mesmo que só se manifestem raramente.

Do ponto de vista científico, um registo como este também reforça a importância de combinar observação direta com monitorização por vídeo em estudos de comportamento: certos atos são tão episódicos e contextuais que, sem evidência visual contínua, podem passar despercebidos - ou ser atribuídos ao animal errado.

Por fim, há também uma implicação prática para projetos de conservação e controlo de invasoras. Programas destinados a reduzir o caranguejo-verde podem ter interações inesperadas com a fauna local, criando oportunidades alimentares “fáceis” para predadores oportunistas. Ajustar a colocação das armadilhas, os materiais das redes e os procedimentos de recolha pode ajudar a cumprir o objetivo ecológico sem incentivar comportamentos de risco - tanto para os animais como para o trabalho em campo.

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