A transformação industrial do Grupo Renault está a acelerar: depois de o novo Twingo ter demonstrado que é possível conceber um automóvel em apenas 100 semanas, a próxima frente de inovação incide diretamente no fabrico. A meta é simples e ambiciosa - encurtar o tempo necessário para produzir cada unidade para 10 horas ou menos, porque, na indústria, cada minuto conta.
No âmbito do plano estratégico FutuREady, o construtor francês decidiu intensificar a automação com uma aposta tecnológica clara: robôs humanóides. A empresa anunciou que pretende integrar 350 robôs humanóides de nova geração nas linhas de produção já em 2027, com o objetivo de ganhar velocidade, flexibilidade e eficiência operacional.
FutuREady e robôs humanóides Calvin-40 nas linhas de produção
Os robôs chamam-se Calvin-40 e resultam de uma parceria com a francesa Wandercraft, na qual o Grupo Renault detém uma participação minoritária. Em vez de funcionarem como os tradicionais braços robóticos fixos, estas unidades foram concebidas para se deslocarem e atuarem em postos de trabalho pensados para pessoas, assumindo sobretudo tarefas pesadas, repetitivas ou de baixo valor acrescentado.
Thierry Charvet, diretor de produção e qualidade do Grupo Renault, caracteriza a iniciativa como um “verdadeiro avanço”, sublinhando que o essencial é a rentabilidade. Nas suas palavras, a prioridade não é o conceito de robô humanóide em si, mas sim “dispositivos de automação eficientes e de baixo custo, mesmo que se pareçam com humanos”.
Nesta fase, os Calvin-40 ainda estão em testes e, por enquanto, ficam limitados a operações simples, uma vez que a sua rapidez e destreza continuam aquém das de um operador humano. Ainda assim, o desempenho deverá progredir com a integração de Inteligência Artificial (IA), permitindo melhorar a perceção do ambiente, a tomada de decisão e a execução de tarefas.
O projeto Calvin é apenas o primeiro passo de uma família de soluções robóticas planeadas. O roteiro de industrialização contempla também o projeto Eve, centrado em exoesqueletos pessoais pensados para apoiar os operadores de linha, reduzindo esforço físico e fadiga em atividades exigentes.
Para que esta transição seja bem-sucedida, a componente humana terá igualmente de evoluir. A introdução de robôs humanóides e de ferramentas suportadas por IA tende a exigir formação contínua, redefinição de funções e novos perfis técnicos nas fábricas - desde manutenção e calibração até supervisão de sistemas e análise de dados de produção.
Em paralelo, a segurança ganha uma nova dimensão: com máquinas móveis a partilhar espaço com pessoas, torna-se crucial reforçar normas de circulação internas, protocolos de paragem de emergência e validações de risco por tarefa. A própria cibersegurança industrial passa a ter maior peso, uma vez que a conectividade necessária para monitorização e otimização em tempo real também pode aumentar a superfície de exposição.
Esta orientação acompanha um movimento que já se observa noutros fabricantes, como Tesla, Mercedes-Benz e BMW, que procuram nos robôs humanóides uma resposta para as exigências de flexibilidade e adaptação rápida na produção automóvel.
Garantir qualidade
Para assegurar que a redução do tempo de produção não compromete o resultado final, o Grupo Renault prevê instalar mais de mil pontos de controlo supervisionados por IA ao longo das etapas críticas do fabrico. Com este sistema, a empresa aponta a uma rastreabilidade muito mais detalhada de cada componente e a uma capacidade de reação praticamente imediata a qualquer alerta que chegue a partir da rede comercial.
“Graças à IA, o Grupo Renault pretende reduzir, para metade, o tempo de inatividade nas suas fábricas e diminuir o consumo de energia em 25%, o que representa uma redução global de 20% nos custos de produção”.
Comunicado do Grupo Renault
Cadeia de abastecimento mais resiliente e custos logísticos mais baixos
A estratégia industrial não se limita ao interior das fábricas. O Grupo Renault quer também intervir na cadeia de abastecimento, com o objetivo de cortar até 30% dos custos logísticos e aumentar a resiliência das operações.
Para o conseguir, planeia monitorizar digitalmente e em tempo real riscos potenciais em toda a cadeia de valor - desde fornecedores e unidades fabris até à rede de vendas e aos próprios clientes - antecipando ruturas, identificando fragilidades e ajustando fluxos de forma mais rápida e precisa.
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