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A BYD cresceu 162% e ultrapassou a Tesla na Europa.

Carro elétrico vermelho moderno em exposição interior com carregador ao lado, janelas grandes e edifícios ao fundo.

A grande rival da Tesla está a acelerar na Europa: as suas matrículas cresceram mais de 160% em termos homólogos, com um arranque de 2026 particularmente forte. Uma subida de três dígitos; já tinha visto algo assim?

A trajectória iniciada no final do ano passado mantém-se e nada parece travar a BYD, que desde que ultrapassou a Tesla em 2023 ganhou embalamento. Nesse ano, pela primeira vez, vendeu mais veículos eléctricos do que o fabricante norte-americano - e a sua ascensão está longe de terminar.

Segundo os dados mais recentes da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), a BYD matriculou 17 954 veículos no mercado europeu, contra 17 664 da Tesla. A diferença é curta, é verdade, mas pelo segundo mês consecutivo o gigante californiano fica “atrás” no retrovisor do construtor chinês. Já quando se olha para a evolução do volume de matrículas, o contraste é muito maior: +162,3% num ano para a BYD, contra +11,8% para a Tesla no mesmo período.

Nos dois primeiros meses de 2026, o fosso abre ainda mais: 36 069 matrículas acumuladas para a BYD, face a 25 753 para a Tesla, que cresce apenas 0,9% em termos homólogos. Bruxelas tinha apostado num enquadramento regulatório mais proteccionista para dificultar a entrada dos fabricantes chineses no Velho Continente, mas - pelo menos no caso da BYD - esse quadro não parece ter surtido grande efeito.

BYD na Europa: (de novo) no topo das matrículas

Antes de se tirar uma conclusão definitiva do duelo, há uma nuance importante que ajuda a explicar parte do fenómeno. A BYD joga em dois tabuleiros: vende veículos 100% eléctricos (EV), mas também híbridos plug-in (PHEV) e, ainda que em menor escala, híbridos (HEV). Isso aumenta mecanicamente o seu volume total de matrículas.

Ainda assim, num mercado em que o ranking é lido a partir das matrículas totais, esta distinção muda pouco o resultado final. Muitos compradores europeus que escolhem um BYD híbrido plug-in não são “clientes Tesla” à espera de uma alternativa - são, em grande medida, pessoas que a Tesla não consegue servir, porque não oferece este tipo de motorização. Enquanto a Tesla continuar focada exclusivamente no eléctrico (algo que dificilmente mudará), a BYD continuará a captar procura num segmento a que o rival californiano não tem acesso com a oferta actual.

Essa base de procura é tudo menos marginal. Hoje, os híbridos (apenas HEV) representam 38,7% das vendas na União Europeia, ao mesmo tempo que os modelos térmicos recuam: 30,6% de quota, contra 38,7% um ano antes. O mercado europeu está a migrar para soluções electrificadas em múltiplas formas, e a BYD - ao contrário da Tesla - está bem posicionada para competir em várias frentes em simultâneo.

A Tesla ganhou vantagem no 100% eléctrico, um terreno que ajudou a abrir e a consolidar, mas a BYD instalou-se nas margens do mercado que a Tesla não cobria. E essas “margens” continuam a pesar muito: os EV representam 18,8% do mercado europeu, o que significa que os segmentos electrificados fora do 100% eléctrico ainda têm um peso muito relevante. Resultado: a BYD consegue “varrer” mais clientes enquanto a Tesla disputa quota num espaço cada vez mais concorrido.

Crescer 162% num mercado a abrandar

O mais impressionante é que a BYD exibe este “troféu” dos +162% num contexto que não é, no geral, favorável ao sector automóvel. Pelo menos na Europa: as vendas totais de veículos, somando todas as marcas, caíram 1,2% nos dois primeiros meses de 2026 face ao ano anterior. Quando o volume global desce e um fabricante cresce a este ritmo, os clientes que ele ganha são inevitavelmente clientes que outros perdem. Com uma diferença acumulada de cerca de 10 000 matrículas em dois meses face à Tesla, não é preciso ter formação militar para perceber quem está a perder terreno.

Há também factores práticos que ajudam a explicar a aceleração. Ao combinar electrificação com uma oferta mais ampla (EV, PHEV e HEV), a BYD reduz o risco para quem ainda tem dúvidas sobre autonomia, rede de carregamento ou hábitos de utilização - especialmente para condutores que fazem trajectos mistos (cidade e auto-estrada) e querem flexibilidade. Em muitos mercados, essa “ponte” tecnológica é suficiente para desbloquear a compra, mesmo para consumidores que admiram a Tesla.

Além disso, a expansão de rede - importadores, pontos de venda, assistência e disponibilidade de produto - tende a pesar muito nas decisões de compra, sobretudo fora dos grandes centros. À medida que a presença da BYD se torna mais visível e o pós-venda ganha escala, a barreira de confiança baixa, e a marca transforma curiosidade em matrículas. Em 2026, a disputa já não é apenas sobre tecnologia: é também sobre cobertura comercial e capacidade de captar diferentes perfis de comprador dentro da electrificação.

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