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O que é o 996, este método de trabalho extremo popular na Silicon Valley e que chega agora a França?

Homem jovem sentado no escritório a trabalhar no portátil, com expressão preocupada e vista da Torre Eiffel ao fundo ao pôr d

Importado da China, o 996 está a transformar-se num lema extremo entre as startups da Silicon Valley.

Num momento em que a IA generativa está a virar do avesso o sector tecnológico à escala global, cada vez mais jovens profissionais na Silicon Valley estão a aderir a um ritmo de trabalho inspirado directamente na China - e altamente polémico.

996 na Silicon Valley: um modelo que se tornou ilegal na China

Na prática, o 996 significa trabalhar das 9:00 às 21:00, seis dias por semana, num total de 72 horas semanais. Este volume está muito acima das 40 horas previstas na legislação da Califórnia, onde, em princípio, as horas para além do horário normal devem ser pagas com majoração.

O conceito ganhou força na China durante a década de 2010, impulsionado por grandes nomes como Alibaba, Huawei e ByteDance. Apesar de ser apresentado como uma receita para acelerar o crescimento, rapidamente foi acusado de “escravatura moderna” e acabou por ser considerado ilegal pelo Supremo Tribunal em 2021.

Ainda assim, isso não impediu o reaparecimento da prática em São Francisco. De acordo com Ara Kharazian, economista na fintech Ramp, a utilização de cartões de crédito empresariais aumentou de forma clara ao sábado, ao meio-dia e à noite - um sinal de que muitos colaboradores estão a prolongar a semana no escritório.

Entre alguns jovens fundadores, a regra de vida é assumida sem rodeios: “sem drogas, sem álcool, 996, levantar pesado, correr longe, casar cedo, respeitar o sono, comer bife e ovos”. Para uns, é uma filosofia tão radical que se torna alvo de troça; para outros, está a tornar-se comum no ecossistema das startups - e, em certos círculos, quase um requisito para “fazer parte”.

O que explica esta mudança repentina?

A razão mais óbvia é a explosão da inteligência artificial. Para uma parte do sector, trata-se de uma revolução vivida como “a batalha das suas vidas”. Muitos jovens trabalhadores querem garantir a sua fatia antes da chegada de uma inteligência artificial geral (AGI), que poderá reorganizar por completo o tabuleiro económico e social. Outros, mais pragmáticos, receiam simplesmente que concorrentes - em São Francisco ou na China - estejam a trabalhar mais e acabem por dominar o mercado.

A este cenário junta-se a influência de figuras mediáticas e de investidores. Elon Musk, por exemplo, pediu aos trabalhadores do X que se tornassem “extremamente hardcore”. E há investidores que defendem que “sete dias por semana é a velocidade necessária para ganhar hoje”. A mensagem implícita é directa: abrandar pode significar ficar para trás - ou desaparecer.

Também pesa o modo como muitas startups operam: equipas reduzidas, ciclos de produto acelerados e pressão constante para lançar funcionalidades antes dos rivais. Neste contexto, o 996 surge como uma resposta “simples” para aumentar capacidade - mesmo que, na prática, transfira o custo para o tempo e para a saúde das pessoas.

O custo humano e os riscos do 996

Esta cultura, porém, não é gratuita. Investigadores sublinham que este tipo de modelo tende a excluir quem tem responsabilidades familiares, reforça a homogeneidade dentro do sector e aumenta a probabilidade de burnout. Além disso, na China, o 996 já foi associado a mortes relacionadas com excesso de trabalho, um alerta duro sobre até onde pode ir a normalização do sobre-esforço.

Há ainda um factor frequentemente ignorado: quando as semanas se estendem de forma permanente, a produtividade nem sempre acompanha. O cansaço acumulado afecta a qualidade das decisões, aumenta erros e pode deteriorar a criatividade - precisamente uma das vantagens competitivas mais valorizadas na tecnologia. Por isso, mesmo num ambiente obcecado por velocidade, a sustentabilidade do ritmo acaba por se tornar uma questão estratégica, não apenas de bem‑estar.

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