Há decisões diplomáticas que parecem saídas de um velho princípio de reciprocidade: “olho por olho, dente por dente”.
Ainda há pouco tempo, viajar com um passaporte azul com a águia americana significava, em muitos destinos, entrar quase sem fricção. Essa facilidade já não é garantida no Paquistão. Sem impor um bloqueio total, Islamabad mudou de atitude e, em janeiro, apertou as regras de entrada para quem vinha de dezenas de países - incluindo os Estados Unidos.
Até aqui, o país mantinha um programa de “visto gratuito à chegada” para cidadãos de 125 nacionalidades. Na prática, em minutos era possível obter autorização para permanecer até 90 dias, com um processo simplificado que desapareceu tão depressa quanto surgiu.
Paquistão: visto e Pak ID deixam de ser “entrada grátis”
Para os viajantes abrangidos, bastava usar o telemóvel e abrir a aplicação Pak ID. Entre alguns cliques e a leitura do passaporte, o procedimento ficava resolvido - e, sobretudo, sem custos.
A partir de agora, para quem tem passaporte americano, o caminho é outro: a própria aplicação encaminha o utilizador para o processo clássico de pedido de visto. Isto significa um pedido mais manual, com preenchimento detalhado do itinerário, envio de documentos comprovativos e pagamento de taxa.
Entrar passa a ter custo - e, para americanos, mais caro
Com o novo regime, foi criada uma taxa de 35 dólares para 124 das nacionalidades anteriormente abrangidas. Já para cidadãos dos Estados Unidos - e também canadianos e britânicos - a taxa sobe para 60 dólares.
Além do preço, há uma mudança operacional relevante: deixa de existir a flexibilidade de múltiplas entradas associada ao percurso simplificado via Pak ID. O novo visto passa a ser, em regra, de entrada única, com um prazo de tratamento de sete dias. Na prática, se um viajante americano precisar de sair do Paquistão durante a viagem (por exemplo, para seguir para a China ou para a Índia), o visto deixa de ser válido; para regressar, terá de pagar novamente 60 dólares e aguardar mais uma semana.
Islamabad não explicou publicamente por que motivo existe este “tarifário premium” aplicado a estas três nacionalidades. Ainda assim, o contraste é evidente face ao discurso de Shehbaz Sharif em agosto de 2024, quando o primeiro-ministro defendia o alívio no regime de vistos, afirmando que isso “ajudaria a tornar o Paquistão um destino atractivo para investimento e turismo”. Ao que parece, a estratégia de atracção tem limites - sobretudo quando a relação diplomática azeda.
O que muda na prática para quem viaja
Para quem está a planear uma visita, a nova regra obriga a maior margem de segurança: reservar voos com escalas arriscadas, prever saídas temporárias por motivos profissionais ou até lidar com alterações de rota passa a ter impacto directo em custo e tempo. Também cresce a importância de alinhar datas de alojamento e provas de viagem com o pedido de visto, já que o processo clássico tende a ser mais exigente na documentação.
Impacto no turismo e na economia local
Este tipo de ajustamento pode ter efeitos colaterais no sector: operadores turísticos, hotéis e serviços associados beneficiam de entradas mais simples e rápidas. Quando o acesso fica mais caro e menos flexível - especialmente para mercados com maior capacidade de gasto - é provável que parte da procura seja desviada para destinos concorrentes da região, reduzindo a previsibilidade para quem investe no turismo no Paquistão.
O outro lado do America First
O Paquistão passa, assim, a integrar um grupo de países que começam a reagir às políticas migratórias mais duras associadas a Donald Trump e à linha do America First. De acordo com esta dinâmica, os Estados Unidos terão alargado restrições que já afectam 39 países, num nível de fecho de fronteiras sem precedentes recentes.
E há mais um ponto a alimentar a leitura de retaliação: Washington terá suspendido a emissão de vistos de imigração (cartões verdes) para cidadãos de 75 países - incluindo o Paquistão. Neste contexto, o endurecimento paquistanês deixa de parecer apenas uma alteração técnica e passa a soar a resposta política.
Noutros casos, a reciprocidade foi ainda mais directa. Países como o Chade, o Níger, o Burquina Faso e o Mali terão interrompido por completo a emissão de vistos para americanos, numa lógica de “se nos fecham a porta, também fechamos a nossa”.
Este é um dos efeitos colaterais do America First, uma ideia de pendor populista com raízes no início do século XX, que Trump reactivou logo no primeiro mandato em 2017. A mesma abordagem voltou a empurrar tarifas aduaneiras para cima este ano, contribuindo também para encarecer o custo de vida do americano médio.
É verdade que, de um lado, Washington tenta proteger empregos e aliviar a pressão sobre orçamentos internos. Mas, do outro, este proteccionismo “à moda antiga” desgasta a imagem internacional do país numa altura em que os EUA precisariam de projectar influência - seja para contrariar a China, seja para acompanhar o surgimento de novos polos tecnológicos na Ásia. Ainda assim, a opção parece ser um afastamento gradual.
Por isso, não surpreende que surjam medidas de reciprocidade, mesmo quando partem de países sem grande peso global. Muitas vezes, estas decisões geram efeito de arrastamento: quando um Estado endurece contra Washington, outros observam e ganham incentivo para fazer o mesmo. E, se o Tio Sam lhes fecha a entrada, não faltará quem esteja disposto a abrir alternativas - Pequim ou Moscovo incluídas - oferecendo facilidades de acesso e investimento sem lições de moral nem as restrições migratórias tão frequentes do outro lado do Atlântico.
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