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AFIA alerta: “A meta de emissões da UE para 2035 é inatingível”

Carro desportivo elétrico moderno branco estacionado em showroom com carregador elétrico e telas ao fundo.

A indústria automóvel europeia está sob uma pressão cada vez mais intensa e enfrenta mudanças profundas que obrigam a repensar, com urgência, a competitividade e a inovação no setor.

Esta ideia destacou-se como uma das mensagens centrais da 12.ª Automotive Industry Week, promovida pela AFIA - Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, que decorreu em Lisboa, de 4 a 6 de novembro.

Indústria automóvel europeia: competitividade e inovação sob ameaça

José Couto, presidente da AFIA, deixou um aviso direto: a Europa está a perder terreno face a concorrentes como a China. Segundo o responsável, os automóveis chegam ao mercado europeu com custos inferiores, tornando-se naturalmente mais apelativos para o consumidor. À medida que os novos concorrentes ganham quota de mercado, a Europa revela dificuldades em responder com instrumentos eficazes. Para Couto, a erosão da vantagem tecnológica colocou a indústria automóvel no verdadeiro “centro da tempestade”.

Matthias Zink, presidente da CLEPA, reforçou a mesma urgência e sintetizou o contexto geopolítico e industrial: os EUA avançam com incentivos, a China trabalha com planeamento de longo prazo e a Europa tende a responder com regulamentação. Na sua perspetiva, o peso burocrático trava investimento e capacidade de inovar, agravando a distância para outros blocos económicos. Ainda assim, defendeu que existe margem para recuperar, desde que a ação seja imediata.

Metas de 2035: emissões e competitividade em conflito

Walt Madeira, da S&P Global Mobility, considerou que as metas de emissões da União Europeia para 2035 são, na prática, inatingíveis. Apontou como fatores-chave o aumento do preço dos automóveis e a entrada de novos intervenientes com estratégias comerciais agressivas. De acordo com a sua leitura, o mercado europeu dá sinais de estagnação, enquanto o crescimento mais expressivo está concentrado na Ásia - com destaque para a China, cuja indústria segue uma visão sustentada no tempo.

Madeira acrescentou um indicador revelador da assimetria comercial: por cada veículo exportado pela Europa para a China, a China exporta dois para a Europa. E embora os automóveis chineses representem atualmente 6% do mercado europeu, alertou que essa percentagem deverá subir rapidamente. Na sua opinião, sem revisão das metas, a Comissão Europeia arrisca comprometer a competitividade do setor.

Também António Costa e Silva, ex-ministro da Economia, criticou a ideia de impor o fim dos motores de combustão interna em 2035. Defendeu que a redução de emissões não deve resultar de proibições tecnológicas, mas de um caminho progressivo e ajustado à realidade industrial, até se alcançar o objetivo definido.

Portugal no ecossistema europeu da indústria automóvel

A discussão sobre competitividade tem reflexo direto em Portugal. O setor de componentes automóveis equivale a 5% do PIB, representa 8,8% do emprego na indústria transformadora e assegura mais de 63 mil postos de trabalho diretos. A sua importância depende, em grande medida, da capacidade de exportação e da inovação tecnológica que sustente a diferenciação.

Do lado das vantagens estratégicas, Madalena Oliveira da Silva, presidente da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), destacou três pontos: talento altamente qualificado, eficiência produtiva e uma localização geográfica que facilita o abastecimento da Península Ibérica e de outros mercados europeus.

Ainda assim, a presidente da AICEP frisou que o talento, por si só, não basta. Para manter Portugal competitivo, são determinantes o investimento em I&D, a aceleração da inovação e uma aposta consistente na internacionalização. Jorge Castro, vice-presidente da AFIA, sublinhou a dimensão do contributo nacional para a cadeia europeia ao referir que 98% dos veículos produzidos na Europa integram componentes fabricados em Portugal.

Adaptação e transformação do setor

Na leitura de José Couto, a resposta passa por uma transformação estrutural do setor: investir em novos processos, novos produtos e novas soluções, preservando a exigência de qualidade e o foco na inovação. A eletrificação é um destino inevitável, mas deve caminhar lado a lado com metas exequíveis e políticas públicas que permitam à Europa - e a Portugal - competir de forma sustentável num mercado global onde China e EUA assumem crescente protagonismo.

A par da tecnologia, a capacidade de execução também depende de condições de contexto: custos energéticos competitivos, estabilidade regulatória e instrumentos de financiamento que suportem a reindustrialização e a modernização das fábricas. Sem estes fatores, o investimento tende a deslocar-se para geografias com maior previsibilidade e incentivos mais claros.

Outro elemento decisivo é a preparação da cadeia de valor para a transição: requalificação de trabalhadores, reforço de competências em eletrónica e software, e consolidação de práticas de economia circular (como reutilização e reciclagem de materiais). Estas medidas ajudam a reduzir dependências externas e a sustentar a inovação com impacto real na competitividade.

No encerramento, José Couto voltou a insistir no ponto principal: se a meta de 2035 se mantiver sem ajustamentos, será difícil cumpri-la sem penalizar a indústria. Para a AFIA, o caminho exige reflexão, adaptação e ação imediata, para que a indústria automóvel europeia e portuguesa continue a crescer e a criar valor.

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