Saltar para o conteúdo

Renault converte fábrica para produzir drones militares

Homem com óculos de proteção manuseia drone num atelier automóvel com robôs industriais ao fundo.

Mais de cem anos depois de ter produzido tanques para a Primeira Guerra Mundial, o Grupo Renault confirma um regresso pontual à produção militar, numa fase em que a indústria europeia é instada a contribuir para o reforço das capacidades de defesa.

Fábrica de Le Mans vai fabricar até 600 drones para o Ministério da Defesa francês

A unidade do Grupo Renault em Le Mans, que hoje emprega cerca de 1500 trabalhadores e fabrica aproximadamente 1,3 milhões de componentes de chassis por ano, passará a produzir até 600 drones destinados ao Ministério da Defesa de França.

O projecto recebeu luz verde interna a 10 de fevereiro, após validação pelos trabalhadores, e será desenvolvido em parceria com a Turgis Gaillard, empresa especializada no sector da defesa. Entre os equipamentos associados a esta colaboração encontra-se o drone AAROK.

A decisão surge na sequência do apelo do Presidente Emmanuel Macron para o reforço das capacidades militares francesas, num contexto marcado pela guerra na Ucrânia e por preocupações crescentes quanto à estabilidade geopolítica internacional.

Grupo Renault e drones militares: saber-fazer automóvel ao serviço da defesa

De acordo com a Renault, o envolvimento neste programa apoia-se no seu saber-fazer em desenvolvimento, industrialização e produção em série de produtos tecnológicos, bem como na capacidade de assegurar controlo rigoroso de qualidade, custos e prazos.

A empresa sustenta ainda que a produção de drones em Le Mans - e, eventualmente, em Cléon, unidade dedicada ao fabrico de grupos motopropulsores - não deverá comprometer os planos de investimento na actividade automóvel. Ao mesmo tempo, o grupo frisa que não pretende posicionar-se como um actor de peso no sector da defesa, apresentando esta iniciativa como uma resposta circunstancial às necessidades actuais.

Para viabilizar esta transição industrial, é expectável que parte dos processos seja adaptada à realidade do sector militar, com ênfase na rastreabilidade, na certificação e em rotinas de verificação mais exigentes. Também a formação das equipas tende a ganhar relevância, sobretudo em áreas como integração de sistemas, testes e conformidade.

Em paralelo, a cooperação entre indústria automóvel e defesa levanta questões adicionais - desde regras de exportação e restrições associadas a tecnologia de dupla utilização até requisitos de cibersegurança e protecção de propriedade intelectual. São dimensões que, embora menos visíveis, influenciam prazos, custos e a própria organização das cadeias de fornecimento.

Indústria automóvel europeia mobilizada para equipamento de defesa

Esta iniciativa enquadra-se num movimento mais amplo observado nos últimos meses: a indústria automóvel francesa e europeia tem sido chamada a colaborar no desenvolvimento e na produção de equipamento militar, de forma total ou parcial.

A Valeo participa num pacto de drones de defesa que reúne cerca de uma centena de empresas. Já a Fonderie de Bretagne prepara-se para fabricar invólucros metálicos destinados a munições.

Fornecedores automóveis procuram novas fontes de receita no sector da defesa

Num cenário de abrandamento prolongado da produção automóvel, vários fornecedores têm procurado diversificar e abrir novas linhas de negócio. Empresas como a Schaeffler e a Valmet Automotive - conhecida por produzir modelos para marcas como a Porsche e a Mercedes-Benz - estão a alargar actividades associadas a aplicações militares, desde componentes electrónicos para drones até ao fabrico de veículos blindados.

Outros grupos mantêm uma postura mais cautelosa. A ZF já tem operações relacionadas com transmissões para aplicações militares, embora representem uma fatia limitada das receitas. A Mahle, por sua vez, fornece sistemas de arrefecimento, aquecimento e componentes de motor destinados ao sector da defesa.

Por fim, a Bosch, através de subsidiárias como a Bosch Rexroth, mantém presença nesta área, mas sem a colocar no centro da sua estratégia.

Uma ligação histórica: da produção do tanque FT aos blindados em França

Apesar de poder surpreender alguns, a ligação da Renault à produção militar não é nova. O construtor participou no fabrico de equipamento militar ao longo das duas guerras mundiais, incluindo o tanque FT.

Actualmente, a Renault Trucks - já fora do perímetro do Grupo Renault - continua a produzir veículos blindados para o exército francês.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário