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COAN 2025–2026: actividade sustentada, mas com uma lacuna crítica no combate de asa fixa

Piloto em fato de voo com capacete na mão em frente a dois aviões e um helicóptero numa pista de aeroporto.

Um levantamento preparado pela Zona Militar e pela Stratbridge sobre a composição do Comando de Aviação Naval (COAN) para 2025–2026 traça o retrato de uma organização que encerrou o ano com 2.152 horas de voo acumuladas - 7% acima do objectivo anual e um avanço expressivo face às 1.343 horas registadas em 2024. Ainda assim, o quadro geral de capacidades evidencia tensões estruturais típicas de uma força que perdeu as suas últimas plataformas de combate de asa fixa sem um substituto visível no horizonte imediato.

Inventário e capacidade: entre a renovação na patrulha e a ausência no ataque aeronaval

Ao entrar em 2026, o COAN mantém atividade operacional real, confirmada por indicadores como horas de voo e dias de exercícios. Contudo, a componente de combate permanece com um vazio que nenhuma das plataformas actualmente disponíveis consegue colmatar, criando uma lacuna com impacto directo na capacidade de dissuasão e na resposta a cenários de alta intensidade no ambiente marítimo.

Exploração e patrulhamento marítimo: o eixo mais sólido da Aviação Naval do COAN

O segmento com maior dinamismo e com perspectivas mais claras é o de exploração e patrulhamento marítimo. A Esquadrilha Aeronaval de Exploração opera os P-3C Orion, com destaque para a integração de um segundo exemplar proveniente da Noruega, apresentado oficialmente na Estação Aeronaval Militar de Aeroparque em novembro de 2025. Este avião junta-se ao P-3C que já se encontrava em serviço.

Em conjunto, estas duas unidades transferidas da Noruega representam a renovação mais concreta do inventário aeronaval em anos recentes e constituem a plataforma prioritária para: - vigilância marítima; - controlo da Zona Económica Exclusiva (ZEE); - apoio a operações conjuntas.

Em paralelo, a Esquadrilha Aeronaval de Vigilância Marítima assegura a operação de Beechcraft B-200, nas variantes Super King Air e TC-12B - aeronaves de menor porte, orientadas para reconhecimento e vigilância costeira.

Por outro lado, o encerramento do ciclo do S-2T Turbo Tracker - abatido oficialmente em 2025, após mais de seis décadas de serviço, tendo o 2-AS-23 sido o último exemplar em condição de voo - retirou do inventário uma plataforma que já não acrescentava capacidade operacional efectiva, apesar de continuar a absorver recursos de sustentação.

A asa rotativa assegura a maior parte do esforço operacional

A componente de helicópteros é, hoje, a principal responsável pela continuidade da operação diária do COAN.

A 1.ª Esquadrilha Aeronaval de Helicópteros opera os Eurocopter AS555SN Fennec, incluindo um aparelho que participou no exercício UNITAS LXVI, embarcado no ARA La Argentina (D-11) durante 80 dias de desdobramento em mar alto.

Já a 2.ª Esquadrilha Aeronaval de Helicópteros mantém em serviço os Sikorsky SH-3H Sea King e os S-61T Titan, helicópteros de maior porte orientados para: - operações anti-submarinas; - busca e salvamento; - apoio anfíbio.

A idade desta frota - com os Sea King introduzidos entre 1973 e 1987 - coloca-a inevitavelmente como um dos pontos mais sensíveis no planeamento futuro.

A completar o quadro, a Escola de Aviação Naval sustenta a instrução básica com os Beechcraft Turbo Mentor.

2.ª Esquadrilha Aeronaval de Caça e Ataque: o impasse do Super Étendard (SEM) e a provável retirada

A nota negativa, arrastada há anos, é a situação da 2.ª Esquadrilha Aeronaval de Caça e Ataque. Esta unidade opera - ou, com maior rigor, deveria operar - os Super Étendard e os Super Étendard Modernisé (SEM).

Os cinco SEM adquiridos à Marinha Nacional de França não realizaram qualquer voo de ensaio desde a sua chegada ao país. O problema central é conhecido: a condição dos cartuchos pirotécnicos dos assentos ejectáveis Martin-Baker, um componente sem o qual as aeronaves não podem ser declaradas aeronavegáveis.

As diligências para alcançar uma solução alternativa - seja por desenvolvimento nacional ou recorrendo a outros fornecedores - não evoluíram o suficiente para desbloquear o impasse. Ao longo de 2025, os SEM deixaram de ser referidos pelas autoridades da força e não constaram dos relatórios de gestão enviados ao Congresso. De acordo com a informação divulgada pela Zona Militar, este silêncio aponta para uma decisão de abate/retirada, que deverá abranger também os Super Étendard originais, nenhum dos quais voa há mais de uma década.

Se esta baixa se concretizar, o COAN ficará sem capacidade de ataque aeronaval de asa fixa, uma ausência para a qual não existe substituto previsto no curto prazo.

Sustentação, formação e prontidão: factores que pesam tanto quanto as plataformas

Para além da disponibilidade de aeronaves, a prontidão do COAN depende de um equilíbrio delicado entre manutenção, cadeia logística, certificações e formação de tripulações. O reforço das horas de voo é um indicador positivo, mas tende a exigir investimentos consistentes em sobressalentes, ferramentas, formação técnica e planeamento de ciclos de manutenção - sobretudo em frotas envelhecidas, onde o risco de indisponibilidade cresce com o tempo.

Outro aspecto relevante é a interoperabilidade: programas como o dos P-3C Orion ganham valor quando integrados com sistemas de comando e controlo, partilha de dados e coordenação com meios navais e aéreos, potenciando a vigilância marítima e o controlo efectivo da ZEE. O desafio, aqui, não é apenas operar a plataforma, mas garantir que ela se mantém plenamente integrada em operações conjuntas e combinadas.

Perspectiva para 2026: três variáveis que moldam o futuro do COAN

O balanço no início de 2026 é o de uma força que continua a voar e a participar em exercícios, mas cuja arquitectura de capacidades apresenta um vazio no combate impossível de ignorar. Três factores deverão condicionar decisivamente o rumo do COAN: 1. consolidação do programa P-3C Orion como pilar da vigilância e patrulhamento marítimo; 2. definição do futuro dos Sea King, pela sua importância operacional e pela idade da frota; 3. decisão sobre a substituição do Super Étendard/SEM, sob pena de a Aviação Naval permanecer sem uma componente de ataque de asa fixa.

Infografia: equipa Zona Militar e Stratbridge com dados até fevereiro de 2026. Informação recolhida periodicamente e publicada em anuários específicos.

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