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Este quadriciclo tem uma coisa fundamental que mais nenhum tem

Carro elétrico compacto branco com detalhes laranja à carga numa estação de carregamento interior moderna.

Em 2012, a Renault fez algo pouco comum no segmento dos citadinos: pegou nas “regras” do costume, baralhou-as e apresentou um veículo que parecia vir de outra categoria. Foi assim que apareceu o Renault Twizy.

A receita era simples e apelativa: um elétrico divertido, prático e muito fácil de conduzir. O problema é que trazia limitações difíceis de ignorar - logo à cabeça, a falta de portas e de janelas, que transformava um dia de chuva num verdadeiro convite para deixar o Twizy em casa.

Ainda assim, nunca deixei de ter um fraquinho por ele. E, sempre que o experimentei, ficava com a mesma sensação: bastava somar ar condicionado, janelas e portas para aquele conceito se tornar uma solução urbana mesmo convincente. A espera foi longa (mais de uma década), mas a Renault decidiu finalmente atacar esses pontos com o novo Mobilize Duo.

Vale a pena fazer esta viagem ao passado, porque o Twizy é o antecessor direto do Duo - um modelo pensado e produzido sob a alçada da Mobilize, a marca de mobilidade do Grupo Renault.

Mobilize Duo: visual mais futurista do que o Citroën Ami

Posicionado contra propostas como o Citroën Ami e o Microlino, o Mobilize Duo tem proporções equilibradas e uma presença que não passa despercebida - tal como acontece com os seus concorrentes. Um dos elementos que mais chama a atenção são as portas de abertura vertical, ao estilo Lamborghini, além das rodas bastante expostas, que reforçam o ar “industrial” do conjunto.

A ligação ao Twizy nota-se, mas o Duo parece uma interpretação atualizada e, sobretudo, mais centrada na sustentabilidade. Exemplo disso são os para-choques, produzidos a partir de uma única peça de plástico, e a opção por luzes de mudança de direção iguais entre si, estratégia que ajuda a reduzir custos e a simplificar a lista de componentes.

Apesar dessa racionalização, a Mobilize garante que não sacrificou a robustez: o quadriciclo assenta numa estrutura em aço, revestida por painéis de carroçaria em plástico.

E já que o tema é segurança, há um dado diferenciador: este é o único quadriciclo do mercado a disponibilizar um airbag. Soma-se ainda um cinto de segurança de três pontos para o condutor e travões de disco nas quatro rodas.

Habitáculo simples, mas pensado para o dia a dia

Por dentro, o salto face ao Twizy é enorme. O ambiente é direto e fácil de perceber, exatamente como se pede num veículo deste género - com vocação tanto para utilizadores particulares como para operadores de partilha de veículos.

O volante e vários botões físicos são imediatamente familiares, porque são os mesmos que encontramos em modelos da Renault e da Dacia.

Tal como no Citroën Ami, não existe sistema de infoentretenimento integrado. Em alternativa, há um suporte para telemóvel (à direita do volante), pensado para usar navegação e ouvir música ou podcasts.

Em termos de espaço, não há milagres. Quem mais “paga a fatura” é o passageiro traseiro: a solução mantém o esquema 1+1, tal como no Twizy. À frente, o espaço não é o maior motivo de crítica - o ponto menos conseguido é mesmo o banco, que não chega a ser desconfortável, mas também não oferece apoio digno desse nome.

As janelas também ficaram aquém: infelizmente, não descem por completo. Para quem quiser elevar o conforto, existe a opção de ar condicionado, um extra que aqui faz todo o sentido e que, na prática, quase parece indispensável.

Quanto à perceção de qualidade, os materiais têm um toque e um aspeto económicos, o que é esperado neste tipo de proposta. Ainda assim, o interior beneficia de um bom jogo de cores, com apontamentos em laranja, que ajudam a disfarçar essa simplicidade.

Plataforma nova, duas versões e uma abordagem racional

Antes de falar da condução, convém olhar para a base técnica. Apesar de partilhar cerca de 10% dos componentes com o antigo Twizy, o Duo estreia uma plataforma totalmente nova. Além disso, a gama divide-se em duas versões, escolhidas consoante o tipo de utilização pretendida.

Versão Categoria Velocidade máxima Carta/idade (Portugal)
Duo 45 Neo Quadriciclo leve (L6e) 45 km/h Licença AM (a partir dos 16 anos); não exige carta de ligeiros
Duo 80 Evo Quadriciclo pesado (L7e) 80 km/h Exige carta de condução de ligeiros (B1/B)

Independentemente da versão, o Duo utiliza sempre o mesmo motor elétrico, o mesmo que a Renault aplica no sistema de híbrido ligeiro do Austral. Já a bateria vem do Renault 5, embora aqui seja usado apenas um módulo, com 10,3 kWh de capacidade útil.

O número pode parecer modesto, mas faz sentido para o tamanho e peso do veículo: a autonomia anunciada vai até 161 km, ou seja, mais do dobro do Citroën Ami.

No carregamento, há duas opções: pode ligar-se a uma tomada doméstica, com a ligação colocada no capô, ou optar por tomada Tipo 2, compatível com a maioria dos pontos de carregamento públicos.

Em cidade: fácil de conduzir e com sensações honestas

Ao sentarmo-nos ao volante, a impressão inicial é de simplicidade: tudo acontece sem complicações. A direção é mais pesada do que seria de esperar, e a suspensão tem um acerto relativamente firme; tirando isso, a aprendizagem é imediata e a utilização é muito intuitiva.

Não passei muito tempo a conduzi-lo - por isso não faz sentido fechar um veredito definitivo -, mas deu para perceber um ponto importante: pela leveza do conjunto, a sensação ao volante é de que se circula mais depressa do que os números indicam.

Na versão 80 (foi a única que experimentei), a velocidade máxima não me parece um entrave; pelo contrário, acaba por ser um dos trunfos do Duo, sobretudo quando o comparamos diretamente com o Citroën Ami.

Não tive oportunidade de o colocar à prova em subidas, mas no pequeno percurso disponível a resposta pareceu progressiva e a aceleração suave. O aspeto menos positivo foi o ruído aerodinâmico: o som do vento entra com facilidade na cabine, independentemente do ritmo.

Em trajetos curtos, isto dificilmente será um problema. Porém, se a ideia for fazer deslocações na ordem dos 30 km a 40 km, é provável que essa exposição ao ruído se torne mais cansativa.

O mais relevante é que o comportamento é previsível e linear, duas qualidades particularmente importantes num veículo que, muitas vezes, vai estar nas mãos de condutores mais jovens.

A firmeza da suspensão nota-se em pisos degradados, e os bancos não ajudam muito a filtrar as irregularidades. A direção, como já referi, também exige mais esforço em manobras apertadas. Ainda assim, o conforto global é mais do que aceitável para um quadriciclo com prioridades claramente urbanas.

Equipamento: pontos fortes onde conta

O Duo distingue-se pela lista de equipamento disponível: entrada sem chave, volante aquecido, banco do condutor aquecido, Bluetooth, carregamento por tomada Tipo 2 e USB-C. E, acima de tudo, volta a destacar-se no essencial: continua a ser o único quadriciclo no mercado com airbag.

Numa lógica de mobilidade urbana, há ainda vantagens que tendem a pesar na decisão: dimensões compactas que facilitam estacionar, maior agilidade no trânsito e a possibilidade de funcionar bem como veículo de segunda viatura - ou como solução principal para quem vive e circula quase sempre dentro da cidade.

Também vale a pena enquadrar o Duo como produto de frota: para empresas e operadores de partilha, a padronização de componentes e a construção pensada para reduzir complexidade podem traduzir-se em manutenção mais previsível e maior controlo de custos ao longo do tempo.

Preços e disponibilidade

Em alguns mercados europeus, o Mobilize Duo já pode ser encomendado. Em França, os valores começam nos 9990 € para o 45 Neo e nos 12 500 € para o 80 Evo.

Fica acima do Citroën Ami, que em Portugal começa nos 8490 €, mas posiciona-se bem abaixo do Microlino (a partir de 17 990 €) e do XEV Yoyo (desde 17 250 €).

Para já, o Mobilize Duo ainda não está à venda em Portugal, embora seja expectável que venha a ser lançado no nosso mercado mais à frente.

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