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Não está a ver mal. Este carro tem pneus iluminados

Carro desportivo dourado com design aerodinâmico e asa traseira exposto em stand elegante.

Alguma vez pensou num automóvel com pneus iluminados? É precisamente isso que torna o The Golden Sahara II tão memorável: um exemplar único, criado nos anos 50 com uma visão declaradamente virada para um futuro que, na época, parecia distante.

Por detrás deste projeto esteve George Barris, designer e construtor celebrado por assinar vários carros para televisão e cinema - incluindo o Batmóvel da série televisiva dos anos 60. O financiamento coube a Jim Street, e a base escolhida foi tudo menos convencional: um Lincoln Capri de 1953 (versão coupé sem pilar central) que tinha sofrido um acidente e ganhou uma segunda vida como peça de vanguarda.

Hoje, depois de ter passado pelos holofotes e por décadas de esquecimento, o The Golden Sahara II vai novamente chamar atenções: será levado a leilão pela Mecum a 20 de setembro.

Das origens ao conceito: o primeiro Golden Sahara (1954)

Antes de existir o Golden Sahara II, houve o The Golden Sahara, revelado em 1954. Para o seu tempo, o automóvel já era um catálogo de ousadia: incluía travagem automática com sensores e direção eletrónica, duas ideias que pareciam retiradas de um protótipo do futuro.

O visual também não passava despercebido. O conjunto destacava-se por linhas futuristas e por uma pintura com aplicações em ouro e um acabamento tipo diamante, pensados para brilhar sob luz intensa em exposições e eventos.

No habitáculo, o luxo era levado ao extremo com um bar com frigorífico, televisão, rádio, gravador de fita e telefone. E, apesar do espetáculo tecnológico e estético, a mecânica manteve-se fiel ao doador: o motor V8 da Lincoln e a transmissão automática permaneceram.

Exibições, notoriedade e retorno do investimento

O impacto foi imediato. O The Golden Sahara percorreu múltiplos eventos e concessionários, funcionando como montra itinerante de inovação e extravagância - e ajudando a justificar o custo do projeto.

A construção tinha representado 25 mil dólares, um valor verdadeiramente elevado para a época. Para se ter uma noção, um Cadillac Eldorado novo, então considerado um automóvel de luxo, custava menos de 8 mil dólares.

Golden Sahara II (1956): mais ouro, mais tecnologia e pneus iluminados

Jim Street não quis ficar pela primeira versão. Pediu a George Barris uma reformulação profunda e, em 1956, surgia o Golden Sahara II, ainda mais teatral e avançado.

Entre as mudanças visuais estavam novos faróis duplos verticais, “barbatanas” traseiras e mais aplicações em ouro. Mas foi no capítulo das funcionalidades que o modelo entrou em território quase ficcional para a década: incluía funcionamento à distância, controlo por voz e portas com abertura automática.

Pneus iluminados Goodyear Neothane no The Golden Sahara II

Apesar de todas as inovações, nada captou tanto a atenção como os pneus iluminados Goodyear Neothane. Fabricados em poliuretano translúcido, eram iluminados a partir do interior, com o sistema de luz instalado nas jantes. À noite, o resultado era impressionante.

E não se tratava apenas de um truque para impressionar: a Goodyear defendia a solução como forma de aumentar a visibilidade do veículo e até de permitir que os próprios pneus fossem usados como indicadores de mudança de direção (“piscas”).

Na década de 50, este tipo de projetos ajudou a moldar a cultura dos “carros de exposição”, em que estética, criatividade e tecnologia eram tão importantes como a ficha técnica. O Golden Sahara II é um dos exemplos mais emblemáticos desse período, por conseguir unir espetáculo visual e ideias funcionais numa única peça.

Guardado durante décadas

O interesse no The Golden Sahara II cresceu rapidamente e o automóvel chegou mesmo ao cinema: foi estrela no filme “Cinderfella” (1960), protagonizado por Jerry Lewis.

No entanto, no final dos anos 60, Jim Street deixou de o exibir. A partir daí, o carro ficou fora do olhar público durante cerca de 50 anos, até que reapareceu em 2018, quando foi comprado em leilão por 385 mil dólares (329 mil euros) por Larry Klairmont.

Restauro, nova tecnologia de iluminação e presença em museus

Depois da aquisição, Klairmont avançou com o restauro do Golden Sahara II (trabalho realizado em 2018 pela Speakeasy Customizações e Clássicos), incluindo a recuperação do seu elemento mais icónico: os pneus iluminados.

A Goodyear também participou no processo, mas com uma abordagem técnica diferente da original. Em vez dos pneus translúcidos da época, os pneus passaram a ser sólidos, e a iluminação foi atualizada para LED, garantindo maior fiabilidade e facilidade de manutenção.

O automóvel chegou a ser mostrado na Europa, no Salão de Genebra de 2019, mas passou a maior parte do tempo entre o Museu Automóvel Martin e o Museu Automóvel Petersen.

Em restauros deste tipo, o maior desafio costuma ser equilibrar autenticidade e segurança/funcionamento: preservar o aspeto e a experiência originais, sem depender de soluções frágeis ou impossíveis de manter. A atualização para LED ilustra bem essa lógica - manter o impacto visual, mas com tecnologia contemporânea.

Leilão pela Mecum a 20 de setembro: valor por anunciar

A Mecum não divulgou o valor estimado para o leilão, mas a expectativa é clara: tudo aponta para que o preço final ultrapasse o montante atingido em 2018. Para colecionadores, trata-se de uma oportunidade rara de adquirir um exemplar único que combina história do “custom”, presença em cinema e uma lista de tecnologias muito à frente do seu tempo.

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