A Maserati e a Alfa Romeo preparam-se para voltar a trabalhar em conjunto, desta vez com o objectivo de criar um super-GT que dará origem a dois modelos novos - um por cada marca - e ambos de produção limitada. A prioridade, ao que tudo indica, será recuperar uma experiência de condução mais “crua” e directa, ancorada na tradição mecânica italiana, onde a hipótese de existir caixa manual é encarada como muito real.
Essa leitura ganha força a partir das declarações de Davide Danesin, director de engenharia da Maserati, à Autocar, durante o Festival da Velocidade de Goodwood, ao sublinhar que “há clientes que continuam à procura de automóveis puramente mecânicos”.
“Uma caixa manual é uma oportunidade. Não vejo isso em modelos de grande produção, mas porque não fazer um modelo especial com caixa manual? Não há razão para dizer nunca. Poderá ser a escolha certa para uma edição limitada de um carro.”
Davide Danesin, director de engenharia da Maserati
Caso se concretize, este regresso à chamada “essência italiana” seria um passo inédito na actual geração de modelos do universo Stellantis. Danesin foi claro ao indicar que a solução é tecnicamente possível e particularmente adequada para um automóvel pensado para puristas, precisamente por “assentar no espírito da marca”.
Base Maserati GranTurismo para o novo super-GT
O projecto continua em fase de avaliação, mas o cenário mais provável aponta para dois modelos distintos suportados por uma arquitectura comum, tudo indicando que a base escolhida será a do Maserati GranTurismo.
Isso abre a porta a um coupé (ou até um descapotável) de motor dianteiro, equipado com o conhecido Nettuno, um V6 de 3,0 litros, biturbo, com tecnologia de pré-câmara de combustão inspirada na Fórmula 1.
É precisamente essa tecnologia que permite à Maserati manter o MCPura (referido também como McPura) em produção apenas com motor de combustão, sem recurso a electrificação nem cortes de potência, e ainda assim preparar-se para a conformidade com a futura norma Euro 7.
No caso deste super-GT, porém, tudo indica que o Nettuno não se ficará pelos 557 cv anunciados no GranTurismo. Pelo contrário: a expectativa é que possa ultrapassar até os 630 cv debitados no MC20 - ou, mais especificamente, no McPura.
Além da potência, um super-GT deste perfil tende a ser definido por pormenores de engenharia que não se medem apenas em números: respostas mais imediatas, uma ligação mais transparente entre condutor e máquina e, se a caixa manual avançar, uma dose extra de envolvimento que hoje é rara em modelos contemporâneos. Numa edição limitada, este tipo de escolha faz ainda mais sentido, porque privilegia carácter e exclusividade em vez de compromissos de volume.
Modena, Motor Valley e a exclusividade Maserati e Alfa Romeo
Se o novo GT receber luz verde, a produção deverá acontecer em Modena, no “coração do Motor Valley”, como salientou Santo Ficili, responsável pelas duas marcas italianas, também em declarações à Autocar. A decisão seria, na prática, um “regresso a casa” com valor simbólico e com impacto directo na narrativa de proximidade histórica entre Maserati e Alfa Romeo.
A colaboração mais recente entre ambas passou pelo Alfa Romeo 33 Stradale e pelo Maserati MC20, mas este não foi, de todo, um caso isolado. Em Modena nasceram, por exemplo, automóveis como o Alfa Romeo 8C Competizione, que partiu da base do anterior Maserati GranTurismo. Foi também ali que se fez a produção do Alfa Romeo 4C.
Num mercado em que as séries limitadas são cada vez mais um laboratório de identidade, este formato permite às marcas arriscarem mais no desenho, nos materiais e na calibração dinâmica, sem a obrigação de agradar a todos. Para coleccionadores, um super-GT com esta origem - e com uma mecânica tão marcante como o V6 Nettuno - tende a ganhar valor não só pela raridade, mas também pelo contexto industrial e histórico em torno de Modena.
Quando pode chegar o super-GT?
Santo Ficili confirmou a intenção de voltar a promover colaborações Maserati–Alfa Romeo em projectos de edição limitada, tal como este super-GT, precisamente por ser um tipo de produto que oferece maior liberdade criativa e reforça uma ligação emocional à herança das duas casas.
Ainda não existem datas oficiais, mas há um enquadramento histórico que pode acelerar o calendário. Em 2026 assinala-se o centenário do Maserati Tipo 26, modelo de competição e, ao mesmo tempo, o primeiro automóvel da marca do tridente.
No ano seguinte, a Alfa Romeo lançava o 6C 1500, um automóvel que ajudou a definir a identidade da marca nessa época, deixando um legado relevante tanto em estrada como em pista.
Esta coincidência de efemérides dá ainda mais peso à ideia de um super-GT exclusivo, de produção muito limitada e claramente orientado para coleccionadores, capaz de celebrar, em simultâneo, a história e a engenharia italiana num produto de forte carga simbólica.
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