“Que sentido faria estar agora a vincular o país a uma estratégia para daqui a três anos no que tem a ver com o CDS? Isto não faz sentido nenhum!” No primeiro discurso no 32º Congresso do CDS, que decorre este fim-de-semana em Alcobaça, o presidente do partido, Nuno Melo, procurou travar a pressa e a ambição de maior autonomia expressas nas três moções estratégicas alternativas à sua. Ainda assim, nas horas seguintes, sucederam-se no palco intervenções que oscilaram entre pedidos de rumo e nitidez, avisos sobre o risco de diluição do CDS e até referências a um verdadeiro “dilema existencial” para o partido.
A sequência de intervenções levou o presidente do Congresso, José Manuel Rodrigues, a intervir já ao início da noite, dirigindo-se aos subscritores das três moções alternativas - e, em particular, à Juventude Popular - para que evitassem levar os textos a votação, permitindo que o líder saísse deste Congresso reforçado. "Tenho a legitimidade de quem esteve 25 anos a fazer oposição ao PSD e agora faço parte de um governo regional de coligação", afirmou José Manuel Rodrigues, também líder do CDS Madeira, que tinha iniciado este Congresso a pedir, ele próprio, um “caminho” próprio para o CDS.
Entretanto, a JP e o militante Hugo Gonçalves acabaram por retirar a sua moção, num Congresso que, ainda assim, expôs fissuras dentro da estrutura juvenil. “O que defendemos é que o partido se prepare para a votos sozinho”, afirmou a líder da JP, Catarina Marinho, clarificando que não pretendem o fim da AD, mas sim um maior peso do CDS na coligação. “Sentimos que a nossa voz foi ouvida”, acrescentou, já depois da meia-noite, ao anunciar a retirada da moção "Tempo de decidir" por ter encontrado “abertura” de Nuno Melo para acolher propostas dos jovens.
Quem manteve a moção foi Nuno Correia da Silva, que recolheu oito votos favoráveis para a sua “Liberdade em movimento”. Já a moção de Nuno Melo, "Tempo de Futuro", registou 14 abstenções e foi aprovada por “larguíssima maioria”, como comunicou José Manuel Rodrigues.
Lealdade e identidade
Sem colocarem em causa a vitória de Nuno Melo, as três moções alternativas convergiram num ponto: defendem que o CDS deve começar já a preparar o ciclo eleitoral seguinte que, cumprindo-se a legislatura, incluirá eleições europeias, autárquicas e legislativas em 2029. E insistem que o partido precisa de ir a votos sozinho para provar o seu valor. Melo rejeitou esse caminho: “Vamos vincular o partido a três anos numa outra estratégia quando só levamos um ano de governo e a nossa luta deve ser pelo sucesso do governo. Isto faz sentido?”, questionou ao fim da manhã.
Ao aproximar-se a noite, surgiu resposta no plenário. “Estratégia é isso mesmo, é pensar para lá do longo prazo. O resto é tática”, contrapôs o congressista Miguel Passos Morgado. Recordou que a última vez em que o CDS integrou um governo de legislatura aconteceu porque afirmou a sua posição, remetendo para Paulo Portas que, em 2013, se demitiu a meio do Governo Passos, acabando por obter um reforço do partido no Executivo e por inverter algumas políticas.
Na mesma linha, acrescentou: "Há momentos na vida dos partidos em que continuar como se nada se passasse não é prudência, é cegueira. A questão decisiva é saber se o CDS ainda quer ser alguma coisa“. A ideia subjacente: o CDS tem de demonstrar que continua a ter uma razão própria para existir.
Houve, porém, quem discordasse do diagnóstico: “Não há nenhum crise de identidade", respondeu outro congressista. Para este, o problema é outro: "o que existe é uma crise de coerência que é a distância gritante entre o que o partido diz que é e aquilo que o partido faz”. E lançou o desafio: "Que coerência tem um partido que se diz pela vida, mas vota contra as baixas a 100% para doentes oncológicos?"
Também depois do apelo de José Manuel Rodrigues, o tema da perda de influência regressou. “Está à vista de todos uma continua perda de influência. O espaço do CDS está vazio e urge que voltemos a marcar presença“, disse Pedro Contreiras, da JP. ”Temos de deixar de ser um partido de parceira", acrescentou, terminando com "um pelo desesperado para que o partido volte a recuperar a sua identidade."
Em Alcobaça, Manuel Monteiro, que se deslocou ao Congresso para apoiar Nuno Melo e defender a “lealdade” dentro da AD, admitiu, ainda assim, que o partido deve manter a chave no bolso para, quando necessário, avançar sozinho. E Catarina Araújo, vice-presidente da Câmara do Porto, deixou uma frase-síntese: “Lealdade não é abdicar da nossa identidade”. Diogo Moura, vereador em Lisboa, reforçou o mesmo ponto: “Não me sinto diluído no PSD nem na IL”.
Agradecimentos a Melo pela sobrevivência
Enquanto se multiplicavam discursos de apoio à moção da Juventude Popular - com apelos à diferenciação e à apresentação do partido a votos em nome próprio - também se foi formando uma sucessão de agradecimentos a Nuno Melo por ter contribuído para o regresso do CDS ao Parlamento e ao Governo. O tom mais elevado surgiu com Vasco Becker-Weinberg, ex-eurodeputado, que atribuiu ao presidente do CDS a "maior transformação política de um partido em democracia em Portugal" por ter levado o CDS da quase extinção a um grupo parlamentar de dois na Assembleia da República, como se, no mesmo período, o Chega não tivesse passado de 13 para 60 deputados.
Nem todos partilharam o mesmo optimismo. “O partido ainda não está a salvo“, avisou o ex-deputado Hélder Amaral, defendendo ainda que ”o CDS não precisa de ter nenhuma afirmação de identidade".
O deputado João Almeida recusou “seguir a cartilha” que ouviu a muitos congressistas e preferiu focar-se no “futuro” em vez “do passado e do PSD”. “Nós existimos para dar combate às esquerdas”, definiu. Daí, atacou o PCP, a quem apontou um “divórcio com a realidade” por se colocar “do lado da Rússia” e “de Maduro” em vez “da Ucrânia e dos presos políticos”. E deixou um recado ao PS: se o partido “acha que sondagens são votos”, o país “tem memória”, tanto da falência financeira de 2011 como da “falência identitária de 2023” causada pela “política das portas abertas”.
Num discurso em que elogiou Nuno Melo e a sua “governação exemplar numa área que é do CDS”, João Almeida mostrou indignação com o caso do fugitivo em Ponte de Sor e criticou a incapacidade da Justiça em dar resposta ao processo de José Sócrates. Sublinhou ainda que o CDS sempre teve “sensibilidade” para as preocupações do dia-a-dia e apontou duas como prioritárias: custo de vida e combustíveis. “Não podemos ficar neutros ou fingir que não acontece”, advertiu.
“Congresso da JP”
Com a noite a avançar, as intervenções de jovens congressistas continuaram a dominar. "Se pretendem uma JP insonsa, apática, calada, garanto que não será com esta JP“, afirmou Marta Raimundo, vice-presidente da juventude, observando que, para alguns, parecia que o problema do partido era a simples existência de uma moção da JP.
Antes dela, outro jovem já tinha resumido o argumento: ”O CDS esbateu-se e se esse esbatimento não fosse notório não seria assunto deste congresso“, apelando, como tantos outros, a um ”CDS com voz própria".
Com o prolongar dos trabalhos, ficou igualmente claro que as tensões internas na Juventude Popular persistem, depois de uma militante ter tentado impugnar a eleição da lista de delegados da jota ao Congresso. Já perto das 23h, Enide Menezes - que nas eleições de 2025 foi a principal oponente à actual líder, Catarina Marinho - pediu a palavra para defender Nuno Melo pela “coragem” de ter assumido o partido no seu pior momento e por ter demonstrado “responsabilidade, trabalho e um profundo sentido de Estado”.
“É fácil falar quando o partido está a crescer, o dificil foi estar cá quando os outros deixaram de aparecer e vestir a camisola do CDS e da JP”, declarou. E dramatizou: se AD perder maioria, "o que vem a seguir é um governo socialista ou pior populista. O país “precisa do CDS unido”. Assim, e por “não ter memória curta”, deixou claro que não se revê na moção apresentada pela Comissão Política Nacional da JP e sublinhou que “o CDS não precisa deste ruído” com a jota.
A “lamentação” deste “ruído” - que chegou à comunicação social na semana anterior - repetiu-se em várias intervenções, levando um congressista mais velho a questionar se a reunião magna do partido se estava a transformar num congresso da JP. A réplica surgiu pouco depois: Rodrigo Leitão, dirigente nacional da JP, criticou quem tenta converter o Congresso numa “lavandaria rápida”. E concluiu que, sendo o debate de ideias bem-vindo, “pela JP fala quem para isso foi mandatado”.
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