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O surto de Ébola é um risco para Portugal?

Funcionária de saúde com máscara entrega documento a dois viajantes numa zona de chegadas no aeroporto.

O surto de Ébola é um risco para Portugal?

A hipótese de a infeção chegar a Portugal é muito baixa, mas não é nula. O principal cenário de risco passa pela entrada no país - ou noutro território onde o vírus não circula - de viajantes já infetados. Ao longo dos anos, o Ébola esteve na origem de vários surtos; alguns registaram um número de vítimas muito superior ao observado na estatística atual. Ainda assim, nunca foi identificado qualquer doente em território nacional.

Que países estão a ser afetados neste momento?

Neste momento, a infeção tem como ‘epicentro’ a província de Ituri, na República Democrática do Congo, numa zona particularmente marcada por conflitos e por outras epidemias (por exemplo, também de febre amarela). Como não existem ligações aéreas no país, a disseminação do surto tem ocorrido por via terrestre e já foram confirmados, em laboratório, casos no Uganda.

O ponto de situação oficial - da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) - contabiliza 336 casos suspeitos, 88 mortos e nove casos laboratorialmente confirmados em, pelo menos, três zonas da província de Ituri, além de dois casos no Uganda (um fatal), igualmente confirmados por análise laboratorial até ao momento. Com este enquadramento, o Ruanda é também considerado em risco muito elevado.

A OMS declarou o surto como uma Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional. O que significa?

A decisão foi anunciada no passado dia 17 pelo diretor-geral da OMS, atendendo às características do surto. Desde logo, porque a estirpe de Ébola envolvida - Bundibugyo - não dispõe de vacina e é a primeira vez que surge com grande expressão.

A taxa de positividade verificada nas primeiras amostras recolhidas foi muito elevada: oito resultados positivos em 13 amostras provenientes de diferentes áreas de Ituri. Já esta terça-feira, Tedros Ghebreyesus disse estar “profundamente preocupado com a escala e a velocidade” da infeção, sublinhando que, pela primeira vez, fez a declaração antes mesmo de convocar o comité de emergência. Essa convocatória foi feita esta terça-feira e tem como objetivo avaliar o surto.

Perante o alerta da OMS os países devem agir?

Uma emergência sanitária internacional implica que os países em risco - e, de forma imediata, os mais próximos - reforcem medidas como vigilância, deteção e capacidade de tratamento, entre outras. Embora o vírus permaneça, por agora, circunscrito a dois países africanos, pode alastrar a qualquer momento devido às deslocações.

Um exemplo recente: um médico norte-americano que se encontrava na zona foi transferido para a Alemanha para receber tratamento e, com ele, também os restantes profissionais que tiveram contacto próximo.

E o que está a fazer Portugal?

Ao Expresso, a Direção-Geral da Saúde (DGS) esclarece que, “perante declarações de Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional (PHEIC) pela OMS, Portugal, como a maioria dos países não diretamente afetados, reforça a deteção precoce de casos potencialmente importados”.

Na prática, isto significa que “são atualizadas as medidas de preparação e resposta já existentes, em alinhamento com as recomendações do ECDC, no que se refere a viajantes e regressados dos países afetados” e que “reforça-se, igualmente, a capacidade laboratorial para detetar casos, e dos serviços (hospitais de referência) que podem receber e tratar casos suspeitos”. Entre os recursos mencionados estão o laboratório do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge e o do Hospital Curry Cabral, em Lisboa.

Está a ser preparada informação para quem entra no país e para as equipas médicas?

“A DGS está a reforçar a informação aos profissionais sobre a definição de caso, procedimentos gerais, entre outros.” No terreno, trata-se de intensificar a informação que já se encontra em vigor desde 2019, incluindo a orientação 003 de 20/07/2019.

Além das medidas da OMS, o ECDC ativou o Grupo de Trabalho para a Saúde da UE. Qual é a participação de Portugal?

Segundo a DGS, “enquanto Estado-Membro, participa nos diferentes reportes que são efetuados pelo ECDC. No que respeita à EU Health Task Force, Portugal é um dos países ativos dessa rede do ECDC, que visa avaliar a magnitude (incidência, prevalência, mortalidade, vias de transmissão), transcendência (grupos de mais vulneráveis ou de maior risco, bem como a perceção de risco) e vulnerabilidade (capacidade dos serviços de detetar, reportar, testar, tratar, prevenir e controlar a situação), incluindo a possibilidade de mobilização de equipas de resposta do ECDC e da OMS para apoio aos países afetados”, explica a DGS ao Expresso.

Como se transmite o Ébola?

A transmissão ocorre através do contacto com secreções, vómito, fezes, urina, suor, fluidos corporais, sangue ou até com roupas, por exemplo, pertencentes a pessoas infetadas. O material biológico contaminado é altamente infecioso, sobretudo o sangue.

O período de incubação do vírus situa-se entre sete a dez dias e a transmissibilidade só existe na fase sintomática, ou seja, quando a pessoa começa a manifestar os primeiros sinais. A febre é, habitualmente, o primeiro sintoma, mas podem também surgir:

  • dor de cabeça;
  • vômito;
  • fraqueza intensa;
  • dor abdominal;
  • diarreia;
  • sangramento nasal;
  • vômito com sangue.

Qual é o tratamento para o Ébola?

Existem quatro variantes do vírus - Zaire, Sudan, Tai Forest e Bundibugyo (a atual) - e o tratamento disponível é de suporte, isto é, focado em aliviar sintomas. Para a variante Zaire existem duas vacinas e alguns tratamentos específicos; a Sudan tem uma vacina em ensaio; e as restantes, menos frequentes, continuam ‘a descoberto’ tanto na prevenção como no tratamento.

De forma geral, e sem apoio atempado, a taxa de mortalidade oscila entre os 80% a 90%.

Faz sentido rastrear os viajantes com origem em zonas de risco elevado?

Por agora, o risco é considerado relevante sobretudo para quem esteve no Congo ou no Uganda - onde existem casos confirmados - ou ainda em países vizinhos, como o Ruanda. No entanto, para que o rastreio fosse realmente eficaz, seria necessário proceder a análises ao sangue e apenas quando a pessoa já estivesse sintomática, isto é, quando existe um número detetável de cópias do vírus em circulação. Na prática, seria um processo complexo e com resultados incertos.

E limitar as viagens para África?

O Ministério dos Negócios Estrangeiros já aconselhou que se evite a "realização de viagens não essenciais" à República Democrática do Congo. Numa nota publicada no Portal das Comunidades Portuguesas, refere que "foi identificado um surto de Ébola na região de Ituri, no leste do país, correspondente à variante Bundibugyo, contra a qual não existe vacina nem tratamento eficaz", sendo totalmente "desaconselhada a realização de viagens não essenciais e mesmo estas devem ser rodeadas de precauções e medidas de segurança excepcionais".

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