No 32º Congresso do CDS, que decorre em Alcobaça e deverá servir para a reeleição de Nuno Melo, as moções alternativas têm surgido mais como espaço de debate interno do que como desafios formais à liderança.
Quando subiu ao palco para apresentar a sua moção de estratégia global, o ex-deputado Nuno Correia da Silva sublinhou o papel destes encontros partidários: "Os congressos são uma oportunidade para comparar, avaliar. São o lugar nobre para o confronto de ideias". Disse ainda que tenciona levar a sua moção a votação e apresentar uma lista ao Conselho Nacional, mas deixou claro que não alimenta expectativas quanto a uma candidatura à liderança - só avançaria se a sua moção vencesse.
Moções alternativas no Congresso do CDS em Alcobaça
Durante a defesa da moção estratégica global “Tempo de Decidir", a presidente da Juventude Popular (JP), Catarina Marinho, fez questão de delimitar o alcance político do documento. Como primeira subscritora, frisou que não se apresenta como candidata à liderança do partido e que a JP não quer acabar com a coligação AD e não vê o PSD como “inimigo”. “Somos parte do Governo e bem”, afirmou, defendendo que o congresso deve concentrar-se no futuro do CDS e da democracia-cristã.
“a nossa moção é para discutir estratégias e não lideranças”, insistiu. Ainda assim, a JP marca distância face à trajectória actual do partido, “não porque seja mau, mas porque precisa de mais energia, mais presença, mais vontade”.
De forma transversal, as várias moções alternativas convergem num objectivo: reforçar a autonomia do partido e começar a preparar um cenário em que o CDS concorra sozinho às eleições dentro de três anos. Na apresentação da sua moção, Nuno Melo considerou que três anos é “muito tempo”, lembrando que a política tem atravessado ciclos curtos e que, até às próximas legislativas, o CDS ainda terá pelo menos mais um congresso.
Foi também neste contexto que Hugo Gonçalves, autor de outra moção estratégica global, contrapôs: “O futuro não cai do céu, prepara-se a conquista-se”. Na sua intervenção, apelou a um “CDS que pensa, prepara, propõe e aparece, não se contenta em existir”. Alertou que o mandato será “extremamente difícil” e poderá conduzir a três desfechos possíveis: irrelevância, estagnação ou um crescimento digno. Defendeu como caminho desejável um “CDS com identidade, sem medo do futuro”, que não seja apenas uma “memória para explicar aos filhos”, mas uma casa com espaço para voltar a entrar.
Na última intervenção da apresentação das moções alternativas, Hugo Gonçalves reforçou a ideia de diferenciação: “Não temos de imitar o Chega para sermos ouvidos. Não temos de copiar a IL para sermos modernos. Não temos de nos dissolver no PSD para sermos útil”.
“Falta de audácia”, acusam os jovens
Pela Juventude Popular, o retrato do CDS-PP assenta num ponto crítico: diagnóstico ao CDS-PP é de “falta de audácia”. “É tempo de devolver o orgulho aos nossos militantes, de oferecer uma alternativa real e de decidir ser CDS-PP”, afirmou Catarina Marinho.
Para a dirigente, essa ambição implica iniciar já a preparação para “concorrer autonomamente a eleições, porque a AD é muito boa para Portugal, mas um CDS-PP forte é ainda mais” - sustentando ainda que “um partido político pensa-se a longo prazo”.
Prioridades políticas e valores defendidos pela JP
No plano das propostas, a JP elencou como áreas prioritárias a educação, a reforma laboral e fiscal, a justiça e a revisão constitucional. “Queremos de verdade e de uma vez por todas afastarmo-nos do socialismo”, frisou.
A par das políticas, Catarina Marinho insistiu na necessidade de reafirmação identitária: “Os valores são a única bússola que impede um partido de se perder no caminho para o poder”. A ambição traçada para o CDS passa por ser a “principal força alternativa que quer ser maioritária” e a “grande casa das direitas”. Para que esse objectivo se concretize, concluiu, “queremos mais transparência, normalizar o escrutínio interno, mais formação política, o Caldas aberto e o CDS de portas abertas”.
Correia da Silva aponta ausências nas presidenciais
A ideia de que o CDS pode ser "mais" foi igualmente defendida por Nuno Correia da Silva. Reconhecendo que o PSD “é o nosso aliado” e que nem sempre essa ligação é devidamente valorizada, sustentou, contudo, que o CDS pode ser mais nesta coligação, como afirmou na apresentação da sua moção.
No capítulo presidencial, foi directo: “Não estivemos presentes nas eleições presidenciais”. Recordou que o CDS não apresentou candidato próprio, que aguardou uma eventual decisão de Paulo Portas e que, após hesitações, acabou por apoiar Luís Marques Mendes. "Fazia-nos lembrar um passaro de péssima memória que atentou contra o nosso partido“, afirmou, num apelo à memória dos tempos das maiorias absolutas de Cavaco Silva - período em que Mendes foi ministro - quando o CDS ficou reduzido ao ”partido do táxi", com quatro deputados.
Já no plano parlamentar, o antigo dirigente - que recordou o tempo da liderança de Manuel Monteiro - disse não compreender a votação do CDS contra o pagamento a 100% das baixas a doentes oncológicos. Considerou necessário “recuperar as bandeiras do partido” que, tendo sido o partido dos contribuintes e dos pensionistas, deveria ser, nas suas palavras, “o partido dos produtores”.
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