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Eleições regionais andaluzas: derrota do PSOE não muda planos de Pedro Sánchez e PP depende do Vox

Pessoa a votar numa urna transparente com bandeiras da Andaluzia e Espanha ao fundo e mais eleitores na fila.

Os resultados das eleições regionais andaluzas de domingo, 17 de maio, foram um revés evidente para o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, centro-esquerda, no governo em Espanha), mas não deverão mexer nos planos do primeiro-ministro Pedro Sánchez para o que falta do mandato. De acordo com fontes socialistas, não está em cima da mesa antecipar legislativas, promover uma remodelação ministerial ou desencadear alterações relevantes na direção partidária.

A votação na Andaluzia - comunidade que o PSOE governou durante 37 anos, até 2019 - fecha um ciclo de quatro eleições regionais e ajuda a desenhar o caminho até às legislativas, que deverão ocorrer antes do final de 2027. Em maio desse ano realizam-se autárquicas em toda a Espanha, em simultâneo com eleições regionais em dez comunidades autónomas e cidades. E não é de excluir que a equipa de Sánchez, a quem cabe convocar eleições, acabe por ponderar concentrar essas idas às urnas num “superdomingo”.

Vitória prevista do PP na Andaluzia, mas com surpresas

As regionais andaluzas - com uma participação de 64,8% dos eleitores, 8,6 pontos percentuais acima das anteriores, em 2022 - trouxeram inesperados. O PSOE viu encolher a sua representação, perdendo dois dos 30 deputados que detinha, e registou o pior resultado de sempre na região: 22,7%. Já o Partido Popular (PP, centro-direita) ganhou de forma folgada - 41.6%, mais 18 pontos do que os socialistas -, mas falhou a maioria absoluta que ambicionava, ficando a dois lugares (caiu de 58 para 53).

Para continuar a liderar o governo regional, Juan Manuel Moreno Bonilla (PP) terá de entender-se com o Vox, partido de extrema-direita que, apesar de se manter decisivo, parece ter chegado a um patamar de estagnação: somou apenas mais um lugar (13,8% e 15 deputados). A força liderada por Santiago Abascal permanece indispensável para formar maiorias, como já acontece na Extremadura, Aragão e Castela e Leão. Moreno Bonilla, coerente com a imagem de moderado e pragmático, recebeu o desfecho com serenidade. “Procurávamos a nota máxima, mas contentamo-nos com o ‘muito bom’”, comentou esta manhã em Madrid, ao participar na reunião da direção nacional do seu partido.

Na Andaluzia, a extrema-direita obteve o valor mais baixo entre as quatro eleições deste ciclo. Em Castela e Leão, tinha alcançado 18,9%; em Aragão, 17,9%; e na Extremadura, 16,9%.

O editorial de segunda-feira do “El País”, intitulado “O Momento da Verdade”, sublinha várias leituras do resultado. “A abordagem de Moreno não conseguiu atrair votos suficientes de outros partidos, manter uma maioria absoluta ou eliminar o Vox da equação dos potenciais acordos parlamentares”, escreve o diário madrileno. “O risco para Alberto Núñez Feijóo [líder nacional do PP] é aprender com a Andaluzia que a moderação deve ser abandonada e que não há alternativa senão negociar com extremistas ou imitar os seus métodos e ideias. Feijóo já hesitou demasiado na sua relação com a extrema-direita, e nunca definiu claramente linhas vermelhas, como fizeram outros líderes do centro-direita europeu.”

A leitura é próxima da que surge no editorial do concorrente “El Mundo”, que afirma: “Moreno não perdeu as eleições, mas perdeu parte do capital político construído em torno de uma fórmula autossuficiente de moderação, estabilidade e gestão eficaz. Sete anos no poder cobraram o seu preço, a participação eleitoral não lhe foi favorável e um Parlamento com mais partidos concorrentes dificulta a conversão de uma ampla vitória em maioria absoluta. O resultado é que o PP perdeu votos e lugares em comparação com 2022. O modelo andaluz mantém-se sólido, mas já não pode ser apresentado como totalmente exportável para o resto de Espanha sem reconhecer as suas limitações”.

Consolo no PSOE não silencia críticos internos

Apesar do desaire, no interior do PSOE instalou-se, paradoxalmente, algum alívio. O objetivo socialista era - e foi atingido - impedir que o PP segurasse a maioria absoluta. Isso deixa Moreno Bonilla mais vulnerável, sobretudo perante as exigências previsíveis do Vox, parceiro provável e, ao que tudo indica, inevitável. Além disso, as sondagens internas que circulavam na sede socialista apontavam para um cenário ainda mais negativo do que o obtido por María Jesús Montero, antiga vice-primeira-ministra e ministra das Finanças, e figura próxima de Sánchez.

Ainda que a candidata tenha somado mais 130 mil votos face a 2022, recuou em percentagem e não conseguiu mobilizar os 580 mil eleitores que votaram nas legislativas de 2023, mas ficaram de fora das regionais andaluzas do ano anterior.

A forma como o PSOE caiu no seu antigo bastião levou comentadores como Luis Barbero a escrever no “El País”: “Os socialistas parecem estar a pagar um preço elevado pela imagem de Sánchez de constante capitulação aos separatistas, devido à sua posição precária no Congresso, que enfraquece as suas estruturas regionais”. Barbero converge com a leitura de figuras socialistas habitualmente críticas do secretário-geral e chefe do Governo, como Emiliano García-Page, que governa Castela La Mancha com maioria absoluta.

Para García-Page, “o objetivo de Sánchez é ignorar a situação e esperar por outro golpe de sorte, como em 2023”, numa alusão aos entendimentos com independentistas catalães e bascos que viabilizaram a investidura do primeiro-ministro. Também Carlos Martínez, dirigente regional do PSOE que obteve um bom resultado há mês e meio em Castela e Leão, admite que o partido precisa de um processo de autocrítica.

No mesmo sentido, Lucía Méndez, comentadora política do “El Mundo”, escreve: “Há um movimento que está farto de perder eleições, e muitas pessoas que veem os seus empregos ameaçados. Haverá exigências de prestação de contas”.

Surge uma nova esquerda andaluza: Adiante Andaluzia

À esquerda do PSOE, a coligação Adiante Andaluzia (AA) foi a grande surpresa ao eleger oito deputados, quadruplicando a bancada obtida em 2023. Criado em 2018 por Teresa Rodríguez, antiga líder do Podemos (esquerda populista), o movimento quase não dispõe de estrutura fora de Cádis, mas encontrou eco com propostas de cariz reformista e um discurso de nacionalismo andaluz, recolhendo 10% dos votos. O líder regional do AA, José Ignacio García, atribui-se o mérito de “ter feito o PP perder a sua maioria absoluta”.

O avanço da AA acabou por ensombrar a outra plataforma progressista regional, Pela Andaluzia, que junta a Somar - parceira do PSOE no Governo espanhol -, o Podemos e a Esquerda Unida, entre outras pequenas formações. Essa frente mantém os seus cinco lugares no parlamento regional.

No total, a direita continua a concentrar uma parcela significativa do poder, com 68 assentos, apesar de ter perdido quatro relativamente à legislatura anterior; já a esquerda, que tinha 37 lugares, passa a 41. As quebras dos dois maiores partidos, PP (dois deputados) e PSOE (cinco), acabaram por favorecer o Vox (um) e o AA (seis). A votação ficou também marcada por mais 320 mil eleitores.

Do lado do PP, mesmo sem clima de euforia, os resultados são vistos como “mais um passo” num percurso que “inevitavelmente” conduzirá Feijóo à Moncloa, sede do Governo espanhol. O secretário-geral do PP, Miguel Tellado, questionou publicamente o que mais terá de acontecer para que “Sánchez se demita” e marque eleições.

Nas fileiras de Moreno Bonilla, pelo menos nas primeiras horas após o ato eleitoral, não existe uma linha fechada para lidar com as condições que o Vox colocará. Entre as exigências deverá estar a consagração, por escrito, do princípio da “prioridade nacional”, hoje transformado em palavra de ordem do partido de Abascal. É também provável que o Vox reclame uma vice-presidência e vários cargos ministeriais no futuro executivo autonómico.

Moreno Bonilla preferia um entendimento que lhe permitisse governar em minoria; contudo, segundo a maioria dos analistas ouvidos pelo Expresso, essa via será muito difícil de concretizar. E, garantem fontes próximas de María Jesús Montero, está fora de hipótese uma abstenção do PSOE na investidura do candidato do PP para travar a influência do Vox no governo regional.

A antiga governante deverá, em breve, abdicar do lugar no Parlamento nacional para passar a liderar uma oposição “construtiva” ao PP na Andaluzia e tentar recuperar “o mais depressa possível” a posição que o partido de Felipe González e Alfonso Guerra já ocupou na maior região de Espanha.


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