Saltar para o conteúdo

Dois portugueses detidos por forças israelitas após interceção de flotilha humanitária para Gaza

Dois médicos com estetoscópios seguram um passaporte e uma caixa de primeiros socorros num barco no mar.

Detenção de Beatriz Bartilotti e Gonçalo Reis Dias

Dois cidadãos portugueses foram detidos por forças israelitas após a interceção, em águas próximas de Chipre, de várias embarcações de uma flotilha de ajuda humanitária que seguia em direcção à Faixa de Gaza. A operação militar, desencadeada esta segunda-feira para travar barcos que tinham saído da Turquia, levou também à detenção de um britânico e de dois espanhóis que se encontravam a bordo.

A Gaza Freedom Flotilla avançou com a informação, e o Expresso falou com familiares de Beatriz Bartilotti e Gonçalo Reis Dias - os dois portugueses visados - que confirmaram a detenção em águas internacionais. O Ministério dos Negócios Estrangeiros declarou estar a acompanhar o caso e indicou que as embaixadas portuguesas em Telavive, Nicósia e Ancara estão em prontidão para assegurar apoio consular aos cidadãos nacionais.

Segundo a emissora “Al Jazeera”, mais de 50 embarcações partiram do porto turco de Marmaris na semana passada, para a fase final de uma viagem que pretendia desafiar o bloqueio israelita a Gaza. A estação noticiou ainda que as forças israelitas intercetaram cerca de 20 barcos junto a Chipre e que perto de 100 ativistas terão sido detidos, sendo depois encaminhados para o porto israelita de Ashdod, onde seriam interrogados pelos serviços secretos israelitas. Para já, nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros - contactado pelo Expresso - nem os familiares dos médicos portugueses detidos confirmam esta versão.

Apoio consular e reacção da Ordem dos Médicos sobre os médicos portugueses

Num comunicado enviado à imprensa, a Ordem dos Médicos afirmou acompanhar com “bastante preocupação” a detenção de dois médicos portugueses no âmbito da missão “Sumud Global Flotilla”. A mesma nota refere que o bastonário manteve contactos com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, “tendo sido informado de que os dois médicos se encontram sob custódia das autoridades israelitas, devendo posteriormente ser repatriados para Portugal”.

A Ordem dos Médicos acrescenta que está a monitorizar a situação de forma contínua, em articulação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e com o Ministério da Saúde, a quem “solicitou a devida observância da legislação internacional, ao abrigo da Convenção de Genebra e das normas da Associação Médica Mundial, no sentido de acionar todos os mecanismos diplomáticos necessários ao regresso seguro dos dois cidadãos, assim como da garantia plena da integridade física e psicológica dos dois portugueses”.

“Os médicos devem ser protegidos e respeitados em todas as circunstâncias; nunca podem ser alvo de violência, intimidação ou qualquer forma de condicionamento, independentemente do contexto político ou militar”, sublinhou o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes.

Informações das famílias e percurso da flotilha

Francisca Bartilotti, irmã de Beatriz - médica de 30 anos - relata que os dois portugueses estavam há várias semanas no Mar Mediterrâneo e que, neste momento, o paradeiro é incerto. “Foram raptados hoje em águas cipriotas, por um barco do Exército israelita, em conjunto com outras dezenas de cidadãos de outros países: Espanha, Reino Unido, França, Austrália, Canadá, Estados Unidos…”

Beatriz seguiu a partir de Barcelona, enquanto Gonçalo se juntou ao grupo em Itália, perto de Nápoles. Ambos integram a Freedom Flotilla Coalition, que procurava, através da Global Summud, mobilizar a maior flotilha de sempre rumo a Gaza, com o objectivo de quebrar o bloqueio ao enclave. “Eram cerca de 50 os barcos que resistiram, os que ficaram após a primeira interceção, perto da Grécia; agora, a maioria terá sido intercetada”, explica Francisca.

A familiar diz ter falado com Beatriz e com Gonçalo ao início da manhã, mas deixou de obter respostas por volta das 9h (hora de Portugal Continental). “Já tinham avistado os barcos, que estavam muito perto deles, e já se previa que fossem intercetados. Entretanto, estão incontactáctaveis.”

O Ministério dos Negócios Estrangeiros, por sua vez, respondeu ao Expresso que “tem conhecimento de que dois cidadãos nacionais integravam a flotilha”, mas que, “até ao presente, nenhum dos cidadãos em causa contactou o Estado português”. Ainda assim, acrescenta, “as famílias já estabeleceram contacto com as autoridades portuguesas a fim de sinalizar a participação dos seus familiares”. O Governo remata que as embaixadas portuguesas em Telavive, Nicósia e Ancara “estão preparadas para prestar todo o apoio consular aos cidadãos nacionais”.

Viagem atribulada

O percurso até aqui tem sido marcado por percalços, e a detenção representa, até agora, o obstáculo mais significativo. De acordo com Francisca Bartilotti, os ativistas foram obrigados a interromper a navegação em várias ocasiões devido a avarias e a tempestades. “Na altura da primeira interceção, reuniram-se para definir os próximos passos e para se juntarem aos barcos que ainda estavam a caminho”, recorda, referindo-se à irmã, médica de família e trabalhadora humanitária que já participou em missões na Sérvia e em campos de refugiados na Grécia.

Francisca diz que Beatriz saiu de Barcelona com um princípio claro: “As nossas vidas são tão importantes quanto as vidas palestinianas.” E descreve Beatriz e Gonçalo como “cidadãos corajosos”, admitindo que o receio também existia. “Todos receberam treino e preparação para o momento em que possivelmente fossem intercetados. Há algum medo, porque estas ações têm sido deixadas impunes, mas há uma união tão grande entre as pessoas, e uma convicção tão forte, que acaba por sobrepor-se ao medo.”

Segundo a irmã, os participantes tiveram “treino psicológico e legal, face a ações de pessoas com armas, potencialmente violentas”, incluindo instruções sobre o que fazer “quando lhes pedissem para assinar documentos que não tivessem sido eles a escrever”. A organização explicou ainda que tipo de protecção podem solicitar e quais os direitos que lhes assistem.

Apesar disso, a ausência de informações impede Francisca de se sentir segura. “Contactámos as autoridades do Governo e responderam-nos que estão a acompanhar a situação, embora ‘acompanhamento’ me pareça um termo um pouco passivo”, critica.

“Às vezes fica a dúvida”

Sofia Miranda, companheira de Gonçalo Reis Dias - médico no Centro de Respostas Integradas no Porto Ocidental - descreve a incerteza com que está a lidar: “Estou assustada, e gostava que as autoridades competentes, como o Governo, me fizessem sentir mais segura. Percebo que possam estar a tentar resolver a situação, e, se for por isso... mas às vezes fica a dúvida. Eu quero acreditar que sim, porque é uma situação muito óbvia.”

Desde a última conversa, também por volta das 9h em Portugal Continental, diz ter poucos dados. “Nessa altura, fomos avisados de que havia a possibilidade de ocorrer uma interceção pelo Governo e o Exército israelitas enquanto eles se encontravam em águas internacionais, a 250 milhas náuticas [463 quilómetros] do destino final, que seria Gaza.” Sofia reforça que o propósito era “levar ajuda humanitária, tanto mantimentos quanto equipa médica” e acusa o Governo israelita de enquadrar estas iniciativas com malícia.

A médica afirma que, antes de deixarem de conseguir comunicar, o grupo começou a notar mais vigilância. “Eles começaram a ver mais drones e barcos militarmente equipados, e começaram a desconfiar disso. O próprio pedido de ajuda está comprometido, porque as comunicações são intercetadas pelo Exército, inclusive os pedidos de ajuda de rádio foram impossibilitados.” Sofia, que está a terminar o internato de psiquiatria no Hospital de Leiria, considera que o mesmo impulso que leva Gonçalo a trabalhar com pessoas em situação de dependência no Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) esteve na base desta decisão: ajudar.

“Eles são, obviamente, uma equipa não armada de ajuda humanitária. Por muito que o Governo israelita tente pintar estas ações humanitárias como grupos terroristas, são grupos humanitários não armados feitos por cidadãos que não conseguem ver o que está a acontecer em Gaza sem fazer nada e sem se pronunciarem”, insiste.

Sobre a motivação do companheiro, Sofia resume: “Queria chamar a atenção para o perigo de se normalizarem certos comportamentos, como os do Exército, e a falta de pronunciamento de certas autoridades em relação ao que está a acontecer.” E acrescenta: “Já tivemos exemplos na História que nos fazem hoje questionar como é que ninguém fez nada. Este é um momento destes.”

Entretanto, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, confirmou a interceção de uma nova "flotilha para Gaza", alegando que teria intenções maliciosas. O Exército israelita declarou que os participantes seriam “transferidos para um grande navio de carga”. Referiu-se a esse meio como “navio-prisão”, a partir do qual seguiriam para o porto israelita de Ashdod. Até ao momento, as autoridades israelitas não indicaram quantas pessoas foram detidas nem quantas embarcações foram efetivamente intercetadas.

Este artigo foi atualizado às 18:20, de 18-05-2026, para incluir o comunicado da Ordem dos Médicos.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário