Os recursos minerais críticos prometem ocupar um lugar central na geopolítica do século XXI. Em Toronto, Marta Rivera, socióloga chilena, e Eduardo Zamanillo, engenheiro de minas espanhol, defendem que estes minerais já não podem ser vistos como simples matérias-primas. O livro que publicaram recentemente - com edições em inglês e em espanhol - tem um título provocador: “Morte à Mineração. Longa Vida à Mineração Geopolítica”. O que explica, afinal, o reforço do estatuto crítico de parte dos recursos guardados no subsolo do planeta?
Minerais críticos e a transição energética
“o que mudou é que o mundo deixou de depender apenas da geopolítica dos hidrocarbonetos. Hoje existe uma segunda camada na disputa global, que é a geopolítica dos minerais críticos. A transição energética não eliminou a vulnerabilidade energética. Deslocou parte dela para novos inputs, como o lítio, níquel, cobalto, cobre, nióbio e terras raras”, afirma ao Expresso David Moreira, diretor do Instituto Nacional de Terras Raras, sediado em Belo Horizonte, no Brasil. Segundo ele, trata-se de uma transição “para uma dependência mais complexa”.
Para David Abraham, especialista em terras raras - elementos indispensáveis a diversos produtos tecnológicos, mas especialmente difíceis de extrair e de refinar - e autor de “As Componentes do Poder”, “parece que houve uma aberração nos últimos 30 anos, quando o software usurpou o poder ao hardware”. Ainda assim, recorda ao Expresso, “mas desde o início dos tempos que o poder económico e militar coube àqueles que dominaram a tabela periódica”. A tabela reúne 118 elementos químicos conhecidos, e cerca de um quarto corresponde a minerais críticos e terras raras.
Do preço ao valor estratégico na mineração geopolítica
Também o próprio mercado de matérias-primas mudou de forma relevante. “Há uma verdadeira contradição nos mercados, pois eles tendem a tratar todos os materiais como mercadorias. Mas é melhor pensar nestes materiais críticos não como simples commodites, mas mais como produtos químicos especiais”, sustenta David Abraham.
A ambiguidade, explica, está no facto de um mesmo recurso poder acumular duas dimensões em simultâneo. “Um mineral crítico pode ter um preço no mercado de commodities e um valor estratégico ao mesmo tempo. A tensão entre estas duas lógicas vai moldar a próxima era. Trata-se de uma separação entre aqueles dois aspetos. Os preços até podem cair, enquanto o risco estratégico sobe. O preço no mercado apenas capta parte de uma realidade estratégica”, sublinham Marta Rivera e Eduardo Zamanillo.
Há um punhado de economias que estão a conquistar poder graças às matérias-primas críticas e à sua capacidade para as processar
Ao contrário das petromonarquias e de outras potências do “ouro negro”, “o domínio não se baseia apenas nas reservas, mas também e sobretudo na capacidade de transformação”, alerta Camille Reverdy, especialista do centro de estudos Bruegel, em Bruxelas. A refinação e a transformação industrial tornam-se, por isso, decisivas. “Os ganhadores serão os países capazes de integrar essas matérias críticas em cadeias industriais completas”, acrescenta a especialista francesa.
Estes recursos são determinantes para a inteligência artificial, as infraestruturas digitais, a transição verde, novos sistemas de defesa e até equipamentos banais do quotidiano. Sem minerais críticos, “digam adeus à modernidade”, avisou o especialista espanhol Juan Manuel Chomón, autor de “A Era das Terras Raras”.
Há organismos, como o Serviço Geológico dos Estados Unidos (United States Geological Survey), que enumeram seis dezenas de minerais críticos; outros delimitam o perímetro a quatro dezenas, incluindo 17 terras raras, o grupo da platina e um conjunto diverso que vai do mediático lítio ao cobalto, ao volfrâmio (em que Portugal viveu um período de ouro na 2ª Guerra Mundial) e ao níquel, passando pelo gálio, germânio, grafite, irídio, magnésio, manganésio, molibdénio, telúrio e titânio.
A hiperconcentração
Ao contrário do petróleo e do gás - mais espalhados geograficamente e dominantes há mais de um século na economia mundial -, os minerais críticos encontram-se concentrados em menos países. Ainda hoje, há cerca de uma centena de países produtores de petróleo. Já no universo dos minerais críticos, estima-se que existam cerca de 30 países com reservas, 11 identificados como produtores e um núcleo de cinco com posição dominante na refinação.
“O relatório de 2025 da Agência Internacional de Energia mostra até que ponto o sistema se tornou concentrado. A quota das três principais economias refinadoras para os minerais energéticos subiu de 82% em 2020 para 86% quatro anos depois, com cerca de 90% da oferta refinada vinda de um único fornecedor em alguns casos: Indonésia para o níquel e a China para o cobalto, grafite e terras raras”, afirmam ao Expresso Rivera e Zamanillo.
A China ganhou uma vantagem estratégica nos minerais críticos, mas outros países, como EUA e Arábia Saudita, querem ter uma palavra a dizer
Esta hiperconcentração abriu uma janela geopolítica para economias médias e pequenas, mas obriga a uma verdadeira ginástica estratégica. “A verdadeira questão para estes produtores é construir capacidade própria, tanto industrial como financeira, como diplomática, para negociar com múltiplos blocos sem se tornarem satélites de nenhum deles”, salienta Corina Lozovan, da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. “O resultado até pode ser uma teia de dependências emaranhadas”, acrescenta.
Para David Moreira, a lição essencial é clara: “ter reservas minerais sem tecnologia é apenas potencial; mas com conhecimento, indústria, capacidade de governação e diplomacia vira poder geoeconómico”.
Pequim antecipou-se, mas Washington está a acordar
Rivera e Zamanillo sublinham que a China se destacou por ter reconhecido esta relevância estratégica há 30 anos, antes da maioria dos restantes atores. “Pequim tratou os minerais como parte de uma estratégia industrial de longo prazo e construiu as suas capacidades nas etapas em que as matérias-primas se tornam mais do que isso, em que sofrem uma mutação para poder industrial”, referem. David Abraham concorda com o alcance dessa aposta: “No médio prazo, a China é a beneficiária da sua estratégia de desenvolvimento de uma cadeia de fornecimento estratégico”.
Ainda assim, David Moreira considera precipitado fechar o jogo. “A China tem uma vantagem estrutural muito grande. Foi fruto de uma estratégia de longo prazo. Mas eu não diria que o jogo está encerrado”, afirma. “O Mundo está a procurar a diversificação. Estados Unidos (EUA), União Europeia (UE), Japão, Coreia do Sul, Austrália, Canadá, Brasil, e ainda outros países, perceberam que a dependência excessiva de qualquer cadeia concentrada cria vulnerabilidade.”
Rivera e Zamanillo enquadram esta fase como uma mudança de natureza na própria atividade. “O que designamos como mineração geopolítica é o entendimento da mineração como um sistema de poder estratégico. É o ponto de inflexão em que a mineração se torna parte da arte de governar, incluindo a diplomacia”, acrescentam. Um dos exemplos apontados é a Arábia Saudita, que pretende transformar-se num polo de minerais críticos.
Em abril, os EUA anunciaram um plano de ação para os minerais críticos em conjunto com a UE. Em paralelo, Washington DC está a preparar uma zona comercial preferencial com cerca de 50 nações parceiras, com o objetivo de coordenar o preço destas matérias-primas críticas e aplicar tarifas (taxas alfandegárias) às economias que fiquem de fora. A intenção passa por “desmantelar a era da aquisição globalizada de baixo custo”, sublinha o analista Peter Cohan, a partir de Boston.
“Ironicamente, Trump está a prosseguir uma estratégia parecida com a China, de ativa participação do Estado norte-americano”, acrescenta Peter Cohan. A agência International Development Finance Corporation disponibilizou 600 milhões de dólares (mais de €510 milhões) ao consórcio Orion Critical Minerals. Só o Pentágono atribuiu mais de 3 mil milhões de dólares (€2,6 mil milhões) para financiar projetos mineiros nos EUA no lítio. E foi lançado o projeto Vault, com vista a assegurar uma reserva de emergência de dois meses, sustentada por um investimento de 12 mil milhões de dólares (€10 mil milhões).
Trump colocou a “captura” de países com abundância de matérias críticas no topo das prioridades geopolíticas. A Gronelândia tornou-se um caso emblemático. O Presidente norte-americano firmou também um acordo com a Ucrânia sobre minerais críticos em troca de apoio contra a invasão russa. Outras iniciativas recentes de Washington envolveram a República Democrática do Congo, o Brasil, o Cazaquistão e o Paquistão. A corrida está ao rubro.
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