Estudo com 231 rapazes de 18 e 19 anos
Um estudo conduzido por investigadores do ISPA – Instituto Universitário concluiu que jovens com perspetivas mais tradicionais sobre masculinidade referiram mais comportamentos de delinquência. A investigação envolveu 231 rapazes com 18 e 19 anos.
Em comunicado, o investigador Afonso Borja-Santos, do Centro William James para a Investigação/ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, aponta que "O comportamento delinquente de homens jovens pode estar associado, não só às experiências de adversidade vividas na infância, mas também às normas de masculinidade ensinadas aos rapazes".
Normas de masculinidade tradicionais e delinquência juvenil
Segundo o docente, os dados obtidos "sugerem que a forma como os rapazes são socializados pode desempenhar um papel importante na compreensão da delinquência juvenil".
Na análise estatística, a adesão a normas masculinas tradicionais mostrou, no modelo, "um poder preditivo comparável ao das experiências de adversidade na infância, um dos fatores de risco mais reconhecidos na literatura científica sobre a delinquência".
Borja-Santos explica que "Estas experiências de adversidade na infância e a conformidade com as normas masculinas explicaram, em conjunto, 19,4% da variação nos comportamentos de delinquência", sublinhando que a intenção desta análise "não é responsabilizar ou estigmatizar rapazes ou homens, mas sim questionar normas sociais que lhes são impostas desde cedo".
Nesta investigação, entende-se por normas tradicionais de masculinidade "às expectativas sociais e culturais sobre como rapazes e homens 'devem' comportar-se para serem vistos como masculinos". O psicólogo ilustra essa masculinidade tradicional com "mostrar coragem através da tomada de risco, esconder emoções, evitar pedir ajuda, valorizar a força física, aceitar a violência como forma de afirmação, procurar demonstrar domínio sobre os outros ou muitas parceiras sexuais". E deixa o alerta de que estas normas "não são características naturais ou inevitáveis dos homens, mas padrões aprendidos através da socialização".
Já os comportamentos de delinquência, no âmbito do estudo, "referem-se a infrações como furtos, destruição de propriedade, condução sem carta, porte de arma ou venda de drogas".
Sexualidade no estudo e maior flexibilidade da masculinidade
No mesmo trabalho, cerca de metade dos participantes indicou algum nível de atração por pessoas do mesmo sexo. O investigador considera que isto é "compatível com tendências observadas noutros países ocidentais" e que "reforça a ideia de que a masculinidade entre os jovens pode estar a tornar-se mais flexível". Como acrescenta: "Este resultado é particularmente relevante por se tratar de uma amostra exclusivamente masculina. Ainda assim, está alinhado com tendências observadas noutras sondagens realizadas em países ocidentais, que apontam para uma maior abertura na forma como as gerações mais jovens descrevem a sua sexualidade".
A inclusão da dimensão da sexualidade na investigação "ajudou a perceber como os jovens se posicionam perante normas tradicionais de masculinidade, que historicamente associavam 'ser homem' à heterossexualidade, à rejeição do feminino e à distância face à homossexualidade". O investigador ressalva também as limitações metodológicas: "Por se tratar de um estudo transversal e baseado em autorrelato, os resultados não permitem estabelecer relações de causa-efeito. Ainda assim, apontam para a importância de incluir as normas de género nas estratégias de prevenção da delinquência juvenil".
Publicação do trabalho e instituições envolvidas
O estudo intitulado "Por Detrás da Máscara: o papel da conformidade com normas masculinas e das experiências na infância no comportamento desviante" foi realizado por Afonso Borja-Santos, Ana Cristina Martins, Ana Rita Cruz e Andreia de Castro Rodrigues. A investigação foi publicada a 7 de maio na revista oficial da Sociedade Britânica de Criminologia, Criminologia e Justiça Criminal.
O Centro William James para a Investigação é uma unidade de Investigação e Desenvolvimento (I&D) na área da Psicologia.
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