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Arranca em Lisboa a Formação em Resgate Técnico de Animais de Grande Porte da Provedora do Animal para a GNR

Equipa de resgate prepara cavalo para transporte com sling laranja numa área rural com veículo de emergência ao fundo.

Formação em Resgate Técnico de Animais de Grande Porte para a GNR

As ordens sucedem-se a um ritmo quase imediato: estabilizar a cabeça, proteger o crânio, administrar anestesia, colocar as fitas de resgate e imobilizar as patas. “Operacionais fora da zona de perigo”, avisa um dos formadores. O cavalo mantém-se consciente, mas sedado (neste caso, uma maquete) e é depois colocado numa prancha, sendo içado devagar perante dezenas de militares da Guarda Nacional Republicana (GNR). Aqui não há espaço para improvisos: cada movimento é ensaiado ao pormenor, para não desencadear o pânico no animal e para reduzir ao mínimo o risco para quem está no terreno.

Foi com este tipo de simulações e treino de técnicas de salvamento que arrancou, esta quinta-feira, em Lisboa, a primeira ação de Formação em Resgate Técnico de Animais de Grande Porte promovida pela Provedora do Animal e dirigida à GNR.

A ação decorreu na Unidade de Segurança e Honras de Estado da GNR, na Calçada da Ajuda, e é encarada como um passo inicial para criar, a nível nacional, uma estrutura especializada de socorro animal em cenários de crise, acidentes e catástrofes naturais.

Treino com maquetes e técnicas de contenção

O exercício foi realizado com maquetes de cavalos disponibilizadas pela Universidade Lusófona, instituição onde a Provedora do Animal, Laurentina Pedroso, desempenha funções como diretora. O recurso a estas maquetes permite reproduzir operações exigentes sem expor animais reais a perigos.

Durante o treino, as equipas praticaram métodos de imobilização, movimentação e elevação de animais de grande porte. Nestas operações, o animal não é colocado em anestesia total - precisamente para evitar complicações clínicas e para manter maior controlo sobre a resposta fisiológica durante o resgate.

Para Laurentina Pedroso, a iniciativa vem colmatar uma falha antiga na preparação das equipas de emergência em Portugal. Aponta como objetivo algo “que eu sempre propus desde 2021, que é criar uma rede de socorro de emergência" e aí "todos estes operacionais vão trabalhar em conjunto com a GNR, bombeiros, proteção civil, militares”, afirma.

Criar a rede

A Provedora do Animal entende que o país continua sem uma resposta articulada para o salvamento de animais em contexto de catástrofe, apesar do aumento e da maior regularidade de fenómenos extremos. “Vimos pessoas a intervir com animais que não tinham as técnicas corretas”, alerta, defendendo a criação de “equipas multidisciplinares treinadas”.

“É preciso criar a rede em si. Nós temos já, de alguma forma, um exemplo humano que temos de passar para o animal”, conclui.

Protocolos, equipamento e coordenação

A formação contou com Leonardo Maggio de Castro, médico veterinário brasileiro e especialista reconhecido internacionalmente em resgate técnico de grandes animais. O veterinário integrou operações de salvamento durante as cheias no Rio Grande do Sul, no Brasil, num dos maiores dispositivos de emergência animal realizados nos últimos anos naquele país.

De acordo com Leonardo Castro, este tipo de capacitação tem como meta principal baixar o risco operacional e assegurar intervenções coordenadas. “Se a equipa operacional estiver bem treinada e bem disposta, passa a não ser um grande risco para a equipa”, declarou.

Ao longo da ação, os militares da GNR contactaram com equipamento específico de resgate, protocolos de contenção, regras de segurança e modelos de coordenação entre veterinários e forças operacionais. A lógica segue de perto a aplicada em salvamentos humanos no âmbito da proteção civil: rapidez, articulação e especialização técnica.

Próximos passos e expansão nacional

A Provedora do Animal quer agora alargar esta formação a outras forças de segurança e a agentes de proteção civil, com o objetivo de construir uma capacidade permanente, a nível nacional, para responder a incêndios, cheias, tempestades ou acidentes rodoviários que envolvam animais de grande porte.

Num país onde os incêndios rurais e os fenómenos meteorológicos extremos têm vindo a intensificar-se, a proteção animal começa também a ganhar espaço no centro das operações de emergência. E, se algo ficou claro no treino desta quinta-feira, é que retirar em segurança um cavalo com 400 quilos exige muito mais do que boa vontade.

Texto de Jéssica Cristóvão, editado por Mafalda Ganhão

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