O ministro da Saúde do Reino Unido apresentou a demissão esta quinta-feira, confirmando rumores que se intensificavam há vários dias e que, na verdade, circulavam há meses. É do conhecimento geral que Wes Streeting ambiciona disputar a liderança do Partido Trabalhista - e, por arrasto, do Governo britânico - a Keir Starmer, ainda que essa intenção não seja declarada na carta de renúncia.
Para forçar uma eleição interna, Streeting (ou qualquer outro deputado) precisa de juntar o apoio de 81 deputados trabalhistas, o equivalente a 20% da bancada parlamentar. É expectável que apareçam outros pretendentes, todos sujeitos ao mesmo patamar mínimo. Pelas regras internas do partido, Starmer pode apresentar-se automaticamente, sem recolha prévia de apoios, por ser o atual primeiro-ministro.
Entre os nomes com maior probabilidade de avançar surge Andy Burnham. O presidente da Câmara da Grande Manchester viu, esta quinta-feira, abrir-se uma janela para ultrapassar o obstáculo de não ser deputado: um parlamentar trabalhista eleito por um círculo dessa zona anunciou que deixará o Parlamento, permitindo que Burnham concorra numa eleição intercalar.
Streeting diz estar convencido de que Starmer não será candidato a primeiro-ministro nas próximas legislativas, agendadas para 2029, embora o gabinete do líder insista que ele enfrentará qualquer contestação interna. O ex-ministro defende uma disputa com “a melhor gama possível de candidatos”, para que deputados e sindicatos ligados ao trabalhismo debatam “ideias, e não personalidades ou fações mesquinhas”.
A politóloga britânica Alia Middleton sublinha ao Expresso que, na manhã da demissão, “um estudo de opinião mostrou que Starmer venceria eleições internas contra Streeting” por 53%-23%. Segundo a especialista, o antigo ministro poderá ter base suficiente para desencadear a votação, mas tenderá a esperar que outras candidaturas se clarifiquem - ou que seja Starmer a abandonar, sobretudo se houver novas saídas no Governo.
Na senda da derrota nas urnas
Na carta, divulgada nas redes sociais, Streeting liga a decisão ao desgaste do executivo e às consequências eleitorais recentes: “Não há dúvida de que a impopularidade deste Governo foi fator importante e comum nas nossas derrotas em Inglaterra, Escócia e País de Gales. Boa gente do Partido Trabalhista perdeu sem ter tido culpa”. A referência é às eleições locais e regionais de dia 7, em que o partido registou resultados muito desfavoráveis.
Invocando motivos como o fim do subsídio para aquecimento das casas no inverno e as oscilações na política de imigração, o agora ex-ministro sustenta que conseguiu melhorias no Serviço Nacional de Saúde, que descreve como “a encarnação do que há de melhor no Reino Unido e nos seus valores”. Reconhece que isso seria “bom motivo para permanecer no cargo”, mas explica que deixou de confiar no líder.
Starmer tentou recuperar iniciativa na segunda-feira, num discurso dirigido ao partido e ao país, mas sem o impacto pretendido. Na terça-feira reuniu o Governo e, na quarta-feira, encontrou-se com Streeting; o encontro durou apenas 16 minutos, sinal de que produziu pouco.
“Onde precisamos de visão, temos vácuo. Onde precisamos de rumo, temos deriva”, escreve Streeting. Diz que o discurso de Starmer após as eleições não o convenceu e que, por isso, permanecer no executivo faria dele um homem “sem honra e sem princípios”.
O ex-ministro acusa ainda o primeiro-ministro de não assumir os próprios erros, empurrando outros a “caiam sobre as suas espadas”, isto é, a funcionarem como bodes expiatórios. Também lhe aponta falta de disponibilidade para escutar colegas e uma postura de “mão dura contra vozes dissidentes”.
Starmer esteve envolvido numa forte polémica ao indicar Peter Mandelson - figura veterana da era de Tony Blair (1997-2007) e duas vezes afastado de governos por escândalos - para embaixador em Washington. Mandelson só permaneceu sete meses, depois de se tornar pública a sua proximidade a Jeffrey Epstein, milionário norte-americano condenado por abuso sexual de menores, que morreu numa cela em Nova Iorque, em 2019, num caso que a polícia considerou suicídio.
A escolha prejudicou seriamente a imagem do primeiro-ministro. A reação passou por aceitar a demissão do chefe de gabinete, Morgan McSweeney, que recomendara a nomeação, e por destituir Olly Robbins, funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros responsável por supervisionar a verificação do currículo de Mandelson.
Oposição lamenta “caos” em vez de Governo
Starmer respondeu agradecendo o trabalho de Streeting e dizendo lamentar a saída. Reforçou que o executivo “tem de cumprir as promessas que fez ao país” e deixou em aberto que o dissidente continue a colaborar. “Espero que possamos trabalhar juntos para mostrar que o Partido Trabalhista, no poder, pode resolver os problemas que os nossos adversários exploram, instilar esperança onde eles querem o desespero, e unir as pessoas quando eles preferem a divisão.”
Na oposição, a líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, atacou Streeting, depois de classificar o estado interno do Partido Trabalhista como “guerra civil”. Ao partilhar um vídeo de um debate parlamentar do dia anterior, escreveu: “Ontem, disse a Streeting que fizesse o seu trabalho. Em vez disso, fez um assalto ao primeiro-ministro”.
Também o líder dos Verdes preferiu alvejar o rebelde em vez do alvo principal. “Se o Partido Trabalhista julga que Wes Streeting é a resposta, obviamente não sabem que pergunta o país está a fazer”, comentou Zack Polanski. Na sua leitura, se as eleições indicam que a população entende que Starmer “não consegue nem quer romper com um modelo económico que impulsionou a crise do custo de vida”, então, com Streeting, o Reino Unido teria “mais do mesmo”.
“Isto não é um Governo, é o caos”, criticou Seamus Logan, do Partido Nacional Escocês, vencedor pela quinta vez consecutiva nas regionais de 7 de maio. “O Partido Trabalhista diz abertamente ao povo que se vai concentrar numa luta interna e não em lutar para fazer baixar as contas da energia e do combustível”. O independentista pede rapidez na resolução da crise.
À espera de Burnham e dos demais
Ao insistir numa corrida disputada, Streeting dá a entender que quer abrir espaço para outros se apresentarem, evitando a acusação de tentar tirar partido de uma perceção de vantagem. O caso mais diretamente ligado a esta leitura é o do autarca da Grande Manchester, Andy Burnham.
Sendo uma das figuras mais populares do trabalhismo, Burnham não pode, por agora, concorrer à chefia do partido e do Governo por não ser deputado; se a eleição fosse imediata, ficaria de fora.
Com mais tempo, poderá aproveitar a saída anunciada de Josh Simons, deputado por Makerfield (na área metropolitana de Manchester), que levará a uma eleição intercalar. Ainda assim, nada é automático.
Para que Burnham possa avançar, é necessário que: a) a direção partidária autorize que deixe a autarquia para se apresentar à pré-seleção da intercalar (o gabinete de Starmer já disse que não se oporá); b) seja ele o escolhido (o cenário mais provável); c) ganhe a eleição (o passo mais incerto, numa fase em que o Reform UK, da direita radical, teve bons resultados na região nas autárquicas de 7 de maio).
Em fevereiro passado houve uma intercalar em Gorton e Denton, perto de Manchester, após a demissão de um deputado trabalhista por doença. Burnham mostrou-se disponível para concorrer, mas a direção do partido (isto é, Starmer) travou a opção, alegando que seria caro convocar autárquicas antecipadas em Manchester e arriscado num momento de crescimento do Reform UK.
A decisão de fevereiro foi interpretada como sinal de cobardia do primeiro-ministro. A circunscrição acabou nas mãos dos Verdes. Agora, Starmer já não teria margem para bloquear Burnham.
Entre outros potenciais candidatos citados pela imprensa britânica estão a antiga vice-primeira-ministra Angela Rayner, que anunciou esta quinta-feira ter sido ilibada pela autoridade tributária num caso de alegada falta de pagamento de imposto de selo relativo a uma casa de férias; o ministro do Ambiente, Ed Miliband; a ministra da Administração Interna, Shabana Mahmood; o ministro da Defesa, John Healey; e o secretário de Estado dos Veteranos, Al Carns.
Sobre Streeting, Alia Middleton considera que ele ficou praticamente compelido a desafiar Starmer, depois de ter permitido que a especulação se acumulasse nos últimos dias. “A notícia de que Angela Rayner deixou de ter problemas com o fisco, em momento muito oportuno, e o interesse de Al Carns terão assustado Streeting, dissuadindo-o de lançar já um desafio ao líder”.
A docente da Universidade de Surrey acrescenta que, “caso concorra, o ex-ministro vai ter pela frente alguém da esquerda do partido”, pelo que lhe interessará “gastar tempo a granjear apoios, enquanto as atenções se dividem entre o esforço de Burnham por regressar a Westminster”. Ainda assim, a sondagem referida indica que Streeting perderia para Rayner (54%-29%), Burnham (18%-71%) e Miliband (30%-58%), ganhando apenas a Mahmood (43%-18%).
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