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Crítica de A Providência e a Guitarra, de João Nicolau

Homem a tocar guitarra numa rua de terra batida em aldeia com casas brancas e montanhas ao fundo.

Um prólogo que fixa o tom

O arranque do filme dita, de imediato, as regras do jogo. Um homem, vestido com roupas que parecem saídas de tempos remotos, está parado diante de um guarda-fatos que não aparenta ser mais antigo do que a minha avó - primeira discrepância num filme que não se intimida com elas. Fica imóvel por instantes; depois, abre desmesuradamente os olhos, torce o pescoço e mexe-se com a boca entreaberta, como quem faz alongamentos antes de entrar em cena.

Deve ser ator: sem pausa, despeja um texto num fraseado singular, acompanhando-o com gestos largos e inchados, não apenas das mãos, mas do corpo inteiro: “Como é possível, Dulce, que tão fresca e fina flor continue escondida do mundo, alheada do moinho de amor a que chamamos vida e que prefira sempre a funesta companhia das trevas húmidas e gélidas, onde nenhum sopro se anima, onde nada medra senão o vazio e a desolação? Basta de melancolia, digo eu.” E continua, dirigindo-se a uma mulher invisível que, de quando em quando, lhe sopra uma palavra esquecida e corrige falhas momentâneas.

Sim, é mesmo um ator - a ensaiar. Mas ensaiar onde, com que finalidade, em que tempo e em que lugar? E que espécie de tom é aquele, mais rebuscado do que pomposo, feito para provocar sorriso e jamais para afagar qualquer hipótese de naturalismo, seja de que época for? O espectador que se disponha a entrar na proposta percebe depressa que não vale a pena cobrar verosimilhança ou adequação: aqui manda a convenção do jogo, a mecânica do estereótipo, a lógica de fábula. Se os animais falassem, aceitar-se-ia; não falam, mas acontecem coisas (quase) tão fantásticas quanto isso.

Não vale a pena fazer perguntas de verosimilhança ou adequação. Estamos perante uma lógica de fábula

Entre um século vago e o presente

A ação decorre algures num século XVIII indefinido, ou talvez no início do XIX (arrisco eu, a partir das farpelas e de deduções, sem ter lido o conto de Robert L. Stevenson que serve de base; nada, portanto, de plenamente fixo), com ocasionais saltos temporais para o presente. O foco está num grupo de comediantes - com especial atenção a um casal de apelido italiano - que provavelmente sonharia servir textos do senhor Molière, ou do senhor Beaumarchais, em salas de primeira grandeza, mas acaba por aceitar o destino de apresentar pequenos dramas, comédias e cantigas onde quer que surja oportunidade.

Saltimbancos encalhados em Covarronca

Quando o filme se põe em marcha, Léon e Elvira Berthelini encontram-se retidos em Covarronca, uma aldeola perdida no meio de parte nenhuma, onde pretendem exercer o seu ofício de saltimbanco - desde que o caprichoso Comissário de Polícia lhes dê licença. Das desditas e dos tropeções sucessivos que os esperam não é favor aqui fazer relato, tão mirabolantes eles são: há maldições a quebrar, mudanças de século, entrada na Fonte Luminosa e até a escalada do Parque Eduardo VII, como convém a quem vive do mister de entreter plateias. E, no fim de contas, é isso que um filme precisa de conseguir, mesmo quando procura, por contrabando, levar lá dentro outras coisas com algum merecimento.

“A Providência e a Guitarra” e o rumo de João Nicolau

Só que os talentos de “A Providência e a Guitarra”, que João Nicolau agora nos entrega, não parecem brilhar muito para além desse propósito de folguedo, seguindo o trilho coerente que vem desde a sua primeira longa-metragem, “A Espada e a Rosa”, há três lustros. É verdade que o filme deixa passar duas ou três ideias sobre a condição de ser artista e sobre o que esse desejo instala na vida; ainda assim, são apenas fragmentos a boiar na corrente da brincadeira.

O que fica é isto: o filme assume-se como divertimento, como aventura absurdista declarada, ponto final. Os atores estão empenhados (com destaque evidente para quem encarna os Berthelinis - os generosos Pedro Inês e Clara Riedenstein), e a cumplicidade faz-se sem reservas, com piscadelas de olho a fechar cada movimento. Não há por ali grilos falantes nem anõezinhos mineiros no menu, mas o espírito é desse género, sem enganos. Quem entra na roda?

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