A feira da Senhora da Hora ao sábado de manhã
Há mais de cinco décadas que, todos os sábados de manhã, a Senhora da Hora ganha outra vida com a sua feira. Nas bancas encontra-se um pouco de tudo e, faça chuva ou faça sol, nunca faltam visitantes e compradores à procura de fruta e legumes, roupa a bom preço, utensílios para a casa e muitos outros artigos.
Memórias de Abílio Lage na feira da Senhora da Hora
"Sou um dos mais antigos aqui da feira. Ando nisto há 50 anos", conta Abílio Lage, com orgulho e boa disposição. Vendedor de fruta e hortícolas, começou ainda criança: tinha apenas dez anos quando acompanhava os pais, numa altura em que a feira dava os primeiros passos. "Ainda era no tempo do jaguar de quatro patas, um cavalito com a carroça", brinca, entre risos.
Em cada sábado, saíam de Caxinas, em Vila do Conde, e seguiam até à Senhora da Hora - então ainda vila, mas já em rápida transformação - para fazer negócio. Nessa época havia poucos a vender fruta e legumes: ele e alguns primos. "Agora somos muitos mais. Há mais concorrência."
A deslocação era aproveitada ao máximo: depois da manhã na feira, prolongavam a venda durante o resto do dia até ao Castelo do Queijo, na Foz do Douro. "Vínhamos com duas carrocitas puxadas a cavalo, por estradas velhas", recorda.
Apesar de os cavalos serem mais ligeiros, o regresso custava-lhes mais. "Tínhamos de parar numa tasquinha para eles comerem. Dava-se sopas de vinho para terem força." Chegaram a manter 20 animais para alternarem o esforço, até que a rotina mudou: o irmão mais velho de Abílio, ao completar 18 anos, comprou uma carrinha.
Hoje, já sem os pais e os irmãos mais velhos, Abílio mantém-se na feira e procura passar o gosto por esta vida às gerações seguintes. Dois dos seus três filhos, João Manuel e Marta, continuam a tradição: "são o meu braço direito".
A localização e a variedade de bancas
A feira da Senhora da Hora passou por vários sítios ao longo do tempo, mas desde 1982 que ficou instalada no Parque Dr. João Gomes Laranjo, mesmo ao lado da estação de metro do Estádio do Mar. É um local privilegiado e com espaço para muitos tipos de negócio: vestuário, têxteis, calçado, bijuteria, utensílios domésticos, peixe, pão, hortícolas para cultivo, enchidos, produtos a granel, flores e produtos frescos.
Cidália Ferreira e a produção familiar de Lousada
Entre as bancas de frescos, encontra-se outra veterana, Cidália Ferreira. Começou a acompanhar os pais aos sete anos - e já lá vão 39. Para ela, continua a ser um projeto familiar, hoje com uma dimensão bem maior.
Na quinta que tem em Lousada, produz 99% do que ali vende: fruta, legumes e flores. Guarda "boas recordações" da infância passada na feira, quando a tenda dos pais era pequena. "O ser humano era muito bom aqui, hoje também há clientes bons, que valorizavam muito; mas há outras pessoas que pensam que isto cai tudo do céu." Com o passar dos anos, o negócio "foi aumentado".
Com Cidália trabalham o marido, a irmã, mais dois familiares, uma empregada, e a filha também dá uma ajuda. "Os meus filhos gostam mas não querem isto, são muitas horas de trabalho. No inverno trabalhamos menos, mas a partir de março e abril temos recorde de trabalho. Este ano, houve muita coisa para tirar da terra: pimentos, cebola, morangos... foi um excesso de horas, até fiquei doente!" Ainda assim, mantém a alegria de estar ali, atenta a quem compra e sempre em convívio com os colegas comerciantes. Afinal, a Senhora da Hora "é uma feira muito bonita".
Informações práticas
Parque Dr. João Gomes Laranjo, Senhora da Hora
Das 8h às 13h, ao sábado
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